AVALIAÇÃO ARTROSCÓPICA E RADIOGRÁFICA DE PEÇAS ANATÔMICAS COM VISTA À ARTICULAÇÃO DO CARPO DE CAVALOS ATLETAS

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AVALIAÇÃO ARTROSCÓPICA E RADIOGRÁFICA DE PEÇAS ANATÔMICAS COM VISTA À ARTICULAÇÃO DO CARPO DE CAVALOS ATLETAS

ARTHROSCOPIC AND RADIOGRAPHIC EVALUATION OF ANATOMICAL PARTS WITH A VIEW TO CARPUS JOINT OF ATHLETES HORSES

EVALUACIÓN ARTROCÓPICA Y RADIOGRÁFICA DE PIEZAS ANATÓMICAS CON VISTA AL CARPO DE CABALLOS DEPORTIVOS

Rodrigo Tavares Nieman1, Anderson Coutinho da Silva2, Raphael Roseti Lavado3, Milton Kolber4, Silvia Regina Kleeb5, José Guilherme Xavier6

1 Aluno de Graduação da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP/SP).

2 M.V. Prof. Msc. das Disciplinas de Anatomia e Cirurgia Veterinária. Professor Responsável pelo Setor de Cirurgia do Hospital Veterinário da Universidade Metodista de São Paulo (HOVET-UMESP/SP).

3 M.V. Responsável pelo Setor de Grandes Animais do Hospital Veterinário da Universidade Metodista de São Paulo (HOVET-UMESP/SP).

4 M.V. Prof. Dr. das Disciplinas de Laboratório Clínico, Radiologia e Zoonoses. Professor Responsável pelo Setor de Imagem do Hospital Veterinário da Universidade Metodista de São Paulo (HOVET-UMESP/SP).

5 M.V. Profª. Dra. das Disciplinas de Morfologia, Fisiologia e Patologia. Professora Responsável pelo Setor de Patologia do Hospital Veterinário da Universidade Metodista de São Paulo (HOVET-UMESP/SP).

6 M.V. Prof. Dr. da Disciplina de Patologia. Professor Responsável pelo Setor de Patologia do Hospital Veterinário da Universidade Metodista de São Paulo (HOVET-UMESP/SP).

RESUMO

As ocorrências de lesões articulares em cavalos atletas acontecem devido traumas que os animais possam sofrer no treinamento ou durante alguma prova. Diante desse quadro, os conceitos atuais de etiologia, patogênese, diagnóstico e tratamento de cada uma das diferentes doenças articulares dos equinos, vêm sendo cada vez mais investigados por profissionais da área. Diferentes métodos por imagem são aplicáveis para diagnóstico das doenças articulares. As radiografias denotam uma forma direta de diagnóstico, mas a artroscopia além do diagnóstico, é também aplicada para tratamento das doenças articulares do tipo: fraturas intraarticulares, osteoartrite e condromalácias. Foram utilizados para este estudo 15 membros pertencentes a 8 equinos PSI que vieram à óbito por qualquer motivo e que estavam em constante treinamento no Jockey Club de São Paulo-Cidade Jardim. O estudo baseou-se na analise radiográfica, graduando-se o grau de lesão articular/óssea, seguido pelo estudo artroscópico, com classificação, em graus, de lesão da cartilagem articular e sinóvia. Dessa forma foram graduadas as lesões articulares nos multicompartimentos da articulação sinovial e uma melhor compreensão das principais lesões nos animais atletas, concluindo-se uma maior eficiência no exame artroscópico em comparação com o exame radiográfico no diagnóstico das lesões que envolvem a articulação do carpo, além de um destaque para um maior número de lesões em região média e medial da articulação do carpo destes animais.

Unitermos: Cavalos Atletas, Doenças Articulares, Carpo, Radiografia, Artroscopia

ABSTRACT

Occurrences of joint injuries in athletic horses happen because traumas that animals can suffer in training or during any proof. Given this situation, the current concepts of etiology, pathogenesis, diagnosis and treatment of each of the different joint desease of horses have been increasingly studied by professionals. Different imaging methods are applicable for diagnosis of joint desease. Radiographs show a direct way a direct way of diagnosis, but artrhoscopy beyond the diagnosis, it´s also applied for the treatment of joint deseases like intraarticular fracture, osteoarthritis and condromalacias. Were used for this study 15 membrers from 8 PSI horses that died for any reason and they were in constant training at Jockey Club of São Paulo-Garden City. Th study was based on radiographic analysis, graduating the degree of injurie of joint/bone damage, followed by arthroscopic study, rated in degrees the injury of articular cartilage and synovium. Thus were graded joint damage in multiple compartiments of synovial joint and a better understanding of the main lesions in animal athletes, concluding greater efficiency in arthroscopic examination compared with the radiographic in diagnosis of lesions that involve the carpus joint, beyond a highlight for a greater number of lesions on the middle and medial regions of the carpal joint of these animals.

Keywords: Athletes Horses, Joint Deseases, Carpus, Radiograph, Arthroscopy

RESUMEN

Las ocurrencias de lesiones en las articulaciones de los caballos deportivos ocurren debido traumas que los animales pueden sufrir en el entrenamiento o durante alguna prueba. Ante esta situación, los conceptos actuales de la etiología, patogenia, diagnóstico y tratamiento de cada una de las diferentes enfermedades de las articulaciones de los caballos se han estudiado cada vez más por los profesionales. Diferentes métodos de imagen son aplicables para el diagnóstico das enfermedades de las articulaciones. Las radiografías muestran una forma directa de diagnóstico, pero la artroscopia, más allá de diagnóstico, sino que también se aplica para el tratamiento de enfermedades de las articulaciones, como fracturas interarticulares, las osteoartritis y condromalácias. Se utilizaron para este estudio 15 miembros pertenecientes a 8 caballos PSI que vieron la muerte por cualquier causa y estaban en constante capacitación en el Jockey Club de São Paulo- Ciudad Jardín. El estudio se basó en el análisis radiográfico graduando el grado de daño articular/óseo, seguido por el estudio artroscópico con clasificación en grados de lesión en el cartílago articular y la sinovia. Por lo tanto se calificaron los daños articulares en los multicompartimentos de articulación sinovial y una mejor comprensión de las lesiones principales en los animales atletas, concluyendo una mayor eficiencia en el examen artroscópico en comparación con el examen radiográfico en el diagnóstico de lesiones que afectan a la articulación del carpo y destacando un mayor número de lesiones en la región media y medial de la articulación del carpo de estos animales.

Palabras Clave: Caballos Deportivos, Enfermedades Articulares, Carpo, Radiografía, Artroscopia

INTRODUÇÃO

Os animais que participam de competições das mais diversas formas que exigem esforços contínuos e intensos estão sujeitos a acidentes que podem acarretar em lesões no sistema locomotor. Um dos principais fatores para a ocorrência de lesões nos equinos é o início precoce do treinamento, devido eles ainda não terem atingido a maturidade óssea4 e assim podendo acarretar em fissuras na cartilagem ou mesmo flaps, que tardiamente podem evoluir para uma osteoartrite (OA) e consequente diminuição do desempenho nos esportes. É durante o processo de ossificação endocondral que podem ocorrer atrasos ou erros que darão origem às lesões na cartilagem de crescimento da metáfise e na cartilagem do complexo articular-epifisário dos animais jovens. Embora heterogêneas estas lesões focais ou multifocais provocam diversas manifestações clínicas consideradas no seu conjunto como uma importante Doença Ortopédica do Desenvolvimento (DOD) chamada Osteocondrose (OC) e que podem ser identificadas em equino21. A formação anormal de cartilagem ao nível da superfície articular tem o nome de osteocondrite11. Quando as lesões resultantes de OC penetram a superfície articular provocando inflamação, derrame sinovial e desprendimento de flap osteocartilagíneo, tomam o nome de osteocondrite dissecante (OCD)11. A OC tem uma grande incidência (em média 25%) em Warmbloods e em raças de corrida18.

Dentre as artropatias dos equinos, aquelas que mais acometem as articulações carpeanas são as de maior incidência, principalmente nos cavalos de corrida (turfe e trote) das raças Puro-Sangue Inglês (PSI), Quarto de Milha (QM) e American Troter. Devido à distribuição de forças referentes à absorção dos impactos provocados pelo exercício intenso, o ângulo diedro dorso-distal do osso carpo radial é a principal sede destas afecções5, além das fraturas do osso carpo acessório.

O estudo radiológico das articulações é um método de diagnóstico complementar, servindo para confirmar e/ou auxiliar a suspeita clínica. Ele também é utilizado no direcionamento do ponto de lesão para a cirurgia artroscópica. Os aspectos radiográficos das OA incluem diminuição ou perda do espaço articular, esclerose do osso subcondral, formação de osteófitos marginais, proliferação óssea periostal e eventualmente o desenvolvimento de anquilose9, 15, 2. O exame radiográfico vai demonstrar a erosão da cartilagem articular somente quando a mesma estiver suficientemente adiantada de modo que o espaço articular esteja diminuído ou quando o osso subcondral mostrar alterações radiográficas do tipo lise, sendo que o grau de alteração patológica na membrana sinovial é de difícil avaliação16.

Por definição, artroscopia é a aplicação de técnicas de endoscopia ao estudo das cavidades articulares20, permitindo a visualização direta das articulações mediante o uso de um artroscópio que, em geral, possui finalidade diagnóstica3. As estruturas de principal interesse no exame artroscópico das articulações dos equinos são as membranas sinoviais e as cartilagens articulares, sendo as áreas das articulações difíceis de serem avaliadas pelos métodos clínicos normais. A capacidade de monitorar alterações na membrana sinovial sequencialmente tem sido usada pra estudar o desenvolvimento da sinovite na articulação intercárpica (mediocárpica) dos equinos, sendo a quantificação da sinovite a principal indicação para a avaliação dos tecidos moles com o artroscópio. Com relação à cartilagem articular, o uso do artroscópio permite o reconhecimento de fibrilação e erosão da mesma, onde a primeira pode ser mais facilmente reconhecida por esta técnica do que pela visualização macroscópica, devido a uma combinação de fatores que incluem transiluminação das fibras colagenosas, sua suspensão na solução fisiológica e também os efeitos de hiperplasias17.

As diferenças principais entre os artroscópios estão no diâmetro e no ângulo das lentes16. Um bom artroscópio deve possuir uma fonte luminosa de fibra-óptica para possibilitar a visualização das estruturas intra-articulares. O artroscópio de 4mm com angulações de 25º ou 30º cumpre com a maioria das necessidades do cirurgião equino, onde a lente pode ser girada sem movimentar o membro em análise. O importante é fazer a escolha de um aparelho que promova menos danos articulares e que tenha boa mobilidade. O equipamento complementar consiste em: sistema de irrigação que tem por objetivo a irrigação e a expansão da cápsula articular; cânula de saída que tem por função liberar fluídos da articulação limpando a área cirúrgica melhorando a visualização; elevadores de periósteo, ruginas e osteótomos utilizados para separação de fragmentos aderidos e curetas utilizadas para fazer a raspagem da região óssea10.

A artroscopia consegue revelar lesões articulares discretas e precoces que não são evidenciadas pelo exame radiográfico1. São variadas as situações onde o eqüino é indicado para uma cirurgia artroscópica, tais como: fragmentos osteocondrais da fileira proximal e distal do carpo, fragmentos osteocondrais dorsal e proximal de primeira falange, fragmentos osteocondrais do tarso, fragmentos osteocondrais associados à face palmar proximal da primeira falange, fragmento apical do osso sesamóide, osteocondrite dissecante, entre outras13. Esta técnica também possibilita a execução de biópsias intra-articulares7, trazendo grandes vantagens na abordagem diagnóstica e cirúrgica dos problemas articulares dos cavalos, uma vez que permite diminuição do tempo de convalescença com regresso mais rápido ao trabalho e com melhor desempenho, havendo redução dos tratamentos paliativos efetuados bem como do número de articulações permanentemente comprometidas12.

As complicações na artroscopia não são frequentes, onde a incidência de complicações graves equivale a menos de 1 %, o que contribui para uma elevada taxa de sucesso14. Os problemas e as complicações trans-cirúrgicas podem ser de vários tipos, como: Hemartrose que provoca perda na capacidade de visualização6, 1 , a obstrução da visão por vilosidades sinoviais, o extravasamento extra-sinovial de fluído, as lesões iatrogênicas da cartilagem articular e outros tecidos, a quebra intra-sinovial de instrumentos e a presença de material estranho na cavidade sinovia12. Depois uma artroscopia, as principais complicações pós-cirurgicas são infecções, distensão ou sinovite, não remoção de fragmentos, capsulite, osso neoformado ou mineralização de tecido mole, além de problemas associados ao posicionamento e dor12.

Visando a melhor compreensão das lesões articulares em cavalos atletas que vieram a óbito por qualquer motivo, o estudo busca detectar lesões superficiais e possíveis fraturas pelo método radiográfico, graduando-se o grau de lesão articular, principalmente a osteoartrite (OA) e por meio do exame artroscópico, analisar a cápsula articular, cartilagem articular, membrana sinovial e quistos ósseos, com classificação em diferentes graus de lesão de cartilagem articular e sinovite.

MATERIAIS E MÉTODOS

Foram utilizados 8 membros torácicos de cavalos atletas que estavam em contínuo e semelhante treinamento e que vieram a óbito por qualquer causa, com idade de 3 – 8 anos, de ambos os sexos. Os membros dos animais foram originados da Fazenda do Jockey Club de São Paulo-Cidade Jardim. Após o óbito do animal, os membros anteriores eram retirados de acordo com as técnicas de necropsias e colocados sob refrigeração à 5ºC até que fossem transportados para o Laboratório de Anatomia Veterinária da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Ao chegarem à Universidade, os procedimentos do estudo iniciavam-se com a avaliação radiográfica, seguida da artroscopia de ambos os membros. Ao longo do estudo, os membros dos animais foram identificados com numerações de 1 à 8, divididos em esquerdo e direito. Neles foram analisadas as articulações do carpo e rádio cárpica, totalizando 15 articulações, devido um dos animais ter apresentado uma fratura cominutiva do membro esquerdo na região da articulação do carpo, sendo descartado.

Estudo Radiográfico

O estudo procedeu da analise radiográfica em quatro projeções: latero-medial (LM); crânio-caudal (CrCd); dorso latero palmaro medial oblíqua (DLPMO) e dorso médio palmaro lateral oblíqua (DMPLO). A revelação das radiografias foram realizadas por processamento automático. O aparelho de Raio-X Médico Veterinário utilizado foi o da marca TOSHIBA/RAYTEC, Modelo E7239-X, Fixo, nº da série 8B-517, Potência 125kVp/600mA e os filmes radiográficos utilizados foram de tamanho 24X30cm. O parecer para o grau de lesão era avaliado por três profissionais do HOVET-METODISTA, seguindo a metodologia semi-quantitativa descrita por Kirker-Head et al. (2000)8.

Estudo Artroscópico

Para esse estudo foi utilizado um artroscopio de 4mm com ângulo de visão 30º com lente giratória DYONICS® DE11584, fonte de irrigação com solução Ringer Lactato sob infusão contínua, fonte luminosa FERRARI® FH 250 R2, fibra óptica TEKNO®, câmera SONY 200® TopWay SSD inside (CTCC 4120), processador de imagem CCD Color NTSC e sistema de captura Kworld® USB Hybrid Tuner Stick (UB 430 – AF), associados à televisão e notebook, ainda elevadores de periósteo, ruginas, osteossomos e curetas.

O procedimento da artroscopia iniciava-se com a artrocentese, com retirada do líquido sinovial por meio de uma agulha 40×12 e seringa de 20ml. Logo após, era realizada uma incisão de pele com lâmina de bisturi nº 15 de aproximadamente 1 cm de extensão, seguido da injeção de aproximadamente 35ml de solução eletrolítica balanceada e estéril, para expansão inicial da cápsula articular para facilitar a inserção do artroscópio na porção mais proximal expandida da cápsula. A introdução da bainha do artroscópio neste local iniciava-se exatamente com um trocarte pontiagudo no interior da bainha, completava-se a penetração após ultrapassar a membrana sinovial. Dessa forma, substituía-se o trocarte pontiagudo pelo artroscópio acoplando-o na bainha e dava-se início ao exame da cápsula articular. A solução eletrolítica era bombeada através da válvula de entrada de fluídos da bainha do artroscópio continuamente para a cavidade articular, removendo qualquer material e mantendo-a expandida, facilitando a visualização do operador.

A área de entrada do artroscópio na porção da cápsula articular da articulação do carpo iniciava-se entre o tendão do músculo extensor carpo-radial e o tendão do músculo extensor digital comum, podendo o membro estar em leve flexão5. O exame desta articulação começa pela porção medial, medialmente ao tendão extensor carpo radial, entre o carpo-radial e o III carpiano. Diante disso já era possível a visualização da superfície inferior do carpo radial e da superfície superior do III e II Carpiano. Ainda pode-se observar, flexionando um pouco mais a articulação, o ligamento intercarpico palmar medial (anexo entre o III carpiano e o carpo radial). O aspecto dorsal do III carpiano é facilitado estendendo-se a articulação. Segue-se com o exame da proeminência do bordo axial do osso carpo radial, intermédio, a face intermédia do III carpiano e da parte axial do IV osso do carpo. Ao mover o artroscópico lateralmente, já é possível inspecionar o carpo ulnar e o IV carpiano. Rotacionando-se o artroscópio, o ligamento intercárpico palmar é visto deitado entre o IV carpiano e o carpo ulnar.

Atingi-se assim a articulação rádio cárpica inserindo-se o artroscópio pelo mesmo portal, ou seja, em relação ao tendão extensor carpo radial e o tendão extensor comum dos dedos, no centro da depressão entre a linha do meio dos ossos do carpo e do rádio. A inspeção começa medialmente à articulação cárpica média. Primeiramente realiza-se o exame do aspecto medial do rádio distal e proximal do osso carpo radial. Neste ponto as vilosidades podem inibir a visibilidade do bordo dorsal do rádio, podendo isso ser corrigido com a distensão e extensão da articulação. Após a visualização da junção entre o carpo intermédio e o carpo radial, o artroscópio é retirado deste ponto tendo-se uma visualização da crista sagital do rádio. Lateralmente o espaço articular fica mais estreito e em cavalos jovens o sulco da junção entre o processo estiloide e o rádio é visto na superfície articular do rádio. Para fim de procedimento, olhando-se distalmente e lateralmente, inspeciona-se a parte axial do carpo ulnar.

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ESTUDO DAS IDENTIFICAÇÕES DA CLAUDICAÇÃO DOS EQUINOS

Seguiu-se a metodologia descrita por Velosa et al. (1999)19, o qual se preconiza que durante o procedimento cirúrgico artroscópico das articulações dos animais, a cápsula e superfície articular sejam avaliadas e classificadas, de acordo com a presença de lesões, em normal, quando a superfície da cartilagem encontra-se ilesa; fibrilada, se houver irregularidades na superfície da cartilagem articular, e fibrilada, com exposição do osso quando as lesões se aprofundam até o osso subcondral. No tocante à sinóvia, a classificação utilizada foi em normal, vilos livres e com pequena vascularização; inflamada, vilos hiperêmicos e com vasos congestos; degenerados, vilos aderidos e com pouco movimento.

ANÁLISE ESTATÍSTICA

As amostragens obtidas foram analisadas sob forma qualitativa das imagens radiográficas e artroscópicas. No primeiro analisava-se a superfície articular e óssea. Já no segundo método de análise, foi verificado o tecido cartilaginoso e também da sinóvia. Todos esses métodos avaliaram as áreas da articulação carpeana, para quantificar as alterações degenerativas. Dessa forma, pelo exame radiográfico avaliou-se 10 parâmetros seguindo a metodologia descrita por Kirker-Head et al. (2000)8, e na artroscopia avaliou-se 2 parâmetros (cartilagem articular e sinóvia), envolvendo duas articulações (articulação rádio-carpica – ARC; e articulação intercárpica – AI), justamente por conta dos acessos possíveis de entrada do artroscópio. Para medir a acurácia dos exames, mostrando o quão ele é confiável para diagnosticar a lesão, sem falso positivo e falso negativo, foi utilizada a tabela de contingência que leva em conta a presença ou ausência da doença/lesão, segundo BERQUÓ, E.S. et al. (2001).

RESULTADOS

Foram analisados membros torácicos de 8 cavalos de corrida, todos da raça PSI, provenientes do Jockey Club de São Paulo Cidade Jardim. De todos os animais, um deles apresentou uma fratura cominutiva e exposta na articulação do carpo, sendo descartado, totalizando dessa forma, 15 articulações analisadas pelos métodos radiográfico e artroscópico. O exame radiográfico avaliou 10 parâmetros seguindo a metodologia descrita por Kirker-Head et al. (2000)8 e a artroscopia avaliou 2 parâmetros (cartilagem articular e sinóvia) envolvendo duas articulações (ARC e AI). Como todos os parâmetros visam determinar a presença ou ausência de lesão, foi assumido que qualquer escore fora do normal (Artroscopia) e nenhum (Raio-X) foram considerados como positivo para a lesão, independente do grau desse escore.

Ao observar os dados obtidos, ficou evidente que a artroscopia mostrou uma quantidade maior de lesões do compartimento articular em relação ao exame radiográfico (13/15 contra 7/15, respectivamente), sendo um exame mais eficiente para detectar lesões. Isso é mostrado na tabela 1.

Artroscopia (Padrão/Ouro)
Positivo Negativo
Raio-X Positivo 6a 1b 7@
Negativo 7c 1d 8^
13* 2# 15

Tabela 1: Tabela de contingência mostrando a eficácia dos testes com valor qualitativo de presença ou não de lesão. *Positivo na Artroscopia; #Negativo na Artroscopia; @Positivo no Raio-X; ^Negativo no Raio-X; a: verdadeiro positivo; b: falso positivo, c:falso negativo; d: verdadeiro negativo.

A artroscopia diagnosticou lesão em 86% dos casos enquanto que o exame radiográfico em 46%, mostrando que há um incremento de 40% na capacidade de detectar a lesão pelo método artroscópico. Quando a doença está presente, o exame radiográfico mostrou em 46% dos casos presença de lesão (Sensibilidade de 46%). Quando a lesão está ausente, o raio-x mostrou em 50% dos casos a ausência de alteração (Especificidade de 50%).

Nos 46% dos casos diagnosticados com lesão radiográfica, as mesmas concentraram-se em região medial da articulação (26%) (Figura 1), margeando o osso carpo radial (Figuras 2 e 3), II e III metacarpiano, onde nesse último a presença de osteófitos (Figuras 4 e 5) foi considerada alta (20%). Poucos foram os animais que apresentaram lesões em região lateral da articulação (6,6%) (Figura 6). No exame artroscópico as lesões concentravam-se em articulação intercárpica envolvendo em sua grande maioria o osso carpo radial (26,6%) em sua articulação com os ossos III carpiano (Figura 7) e carpo intermédio, além de alterações em rádio (6,6%) na articulação rádio cárpica (Figura 8). A sinóvia mostrou-se alterada na região medial interna da cápsula articular na maioria dos casos (66,6%) (Figuras 9 e 10) e em alguns deles, na região lateral interna da cápsula articular (20%) (Figuras 11 e 12). Raros foram os casos ande a mesma apresentou-se inalterada (13,3%) (Figura 13). Ainda em alguns animais, foram observadas alterações na articulação entre os ossos da fileira distal do carpo (33,3%) (Figuras 14 e 15) e raras alterações ósseas em região lateral da articulação (20%) (Figura 16).

 DISCUSSÃO

Segundo Garcez (2010)4, um dos principais fatores para a ocorrência de lesões nos equinos é o início precoce do treinamento, devido eles ainda não terem atingido a maturidade óssea, podendo acarretar em fissuras na cartilagem ou mesmo flaps, que tardiamente podem evoluir para uma osteoartrite (OA). Este fato pode ser relacionado no estudo apresentado, onde os membros analisados tanto radiograficamente, como pela técnica da artroscopia mais precisamente, pertenciam a equinos atletas em constante treinamento, na faixa etária entre 2 e 8 anos, onde os mesmos já apresentavam lesões características do esporte em cartilagem articular, cápsula articular e sinóvia, além de alguns exibirem fraturas em ossos do carpo.

No estudo, as radiografias evidenciaram a maioria das lesões em região medial da articulação intercárpica e carpo metacárpica, margeando o osso carpo radial, II e III metacarpiano, onde nesse último a presença de osteófitos foi considerada. O exame artroscópico mostrou maiores casos de lesões em articulação intercárpica envolvendo em sua grande maioria o osso carpo radial em sua articulação com os ossos III carpiano e carpo intermédio, corroborando com os achados de Gomes (1998) 5, que justifica o nível de lesão estar diretamente relacionado com a dificuldade de distribuição igualitária de forças referentes à absorção dos impactos, provocados pelo exercício intenso é o ângulo diedro dorso-distal do osso carpo radial e/ou fraturas do osso carpo acessório.

O exame radiográfico em casos de OA incluem diminuição ou perda do espaço articular, esclerose do osso subcondral, formação de osteófitos marginais, proliferação óssea periostal e eventualmente o desenvolvimento de anquilose, demonstrando uma erosão da cartilagem articular somente quando a mesma estiver suficientemente adiantada9, 15, 2, onde segundo Stashak (1994)16, o grau de alteração patológica na membrana sinovial acaba sendo de difícil avaliação. É um exame utilizado no direcionamento do ponto de lesão para a cirurgia artroscópica, sendo que esta última busca o estudo e diagnóstico muitas vezes precoce de estruturas da articulação como membranas sinoviais e cartilagens articulares, além do seu importante papel no tratamento articular, como remoção de flaps e fragmentos osteocondrais. O direcionamento para a avaliação artroscópica do ponto de afecção articular no estudo em questão, em sua grande maioria, foi guiado pela técnica radiográfica anteriormente realizada. Porém, em alguns casos, a artroscopia pôde revelar alterações não encontradas no raio-x, e não só em sinóvia e cartilagem articular, mas em superfície óssea, cápsula articular e articulação entre os ossos do carpo. Tais alterações incluem fragmentos osteocondrais aderidos em ossos do carpo, ebunização óssea, fissuras e mesmo fragmentação em ossos do carpo. Segundo Bardet (2006)1, a artroscopia consegue revelar lesões articulares discretas e precoces que não são evidenciadas pelo exame radiográfico, o que foi realmente observado no trabalho apresentado.

A ocorrência de falsos positivos no exame artroscópico não está livre de acontecer, sendo uma opção de direcionamento e análises com maior exatidão, a comparação destes com o exame histopatológico, considerado um exame padrão para evidenciar o grau de OA em uma articulação sinovial.

CONCLUSÃO

Mediante os resulatdos obtidos e comparados com as recentes publicações da área, conclui-se que embora a radiografia e artroscopia sejam exames com princípios e análises bem diferentes, ambos se completam no diagnóstico e direcionamento do tratamento de lesões articulares de equinos, com atenção à articulação do carpo em cavalos de corrida, que através do estudo pode-se perceber que a maioria das alterações e lesões encontram-se em ossos e compartimentos articulares intermediários e mediais da articulação estudada. Além disso, um cavalo que sofra de um problema articular, implicando a cartilagem articular, sinóvia, cápsula articular e líquido sinovial, elementos estes que não produzem alterações radiográficas demonstráveis, deva requerer técnicas mais avançadas para diagnóstico precoce e tratamento adequado do compartimento articular, como a artroscopia, que poderá ser associada ao exame histológico dos tecidos, contribuindo desta forma para menores chances de resultados falsos positivos.

REFERÊNCIAS

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Artigo cedido pela Revista +Equina.

Esse artigo se encontra na edição 53 ano 2013

 

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