CONSIDERAÇÕES ACERCA DA HIDRATAÇÃO PARENTERAL EM POTROS

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CONSIDERAÇÕES ACERCA DA HIDRATAÇÃO PARENTERAL EM POTROS

Considerations about parenteral hydration of foals

Consideraciones sobre la hidratación parenteral de los potros

Everson José da Silva², Jackellyne Lais Ferreira Lins³, Karina Pessoa de Oliveira4, Pierre Barnabé Escodro4

  1. Biomédico Pesquisador GRUPEQUI-UFAL
  2. Zootecnista e graduanda em Medicina Veterinária UFAL. Bolsista de Iniciação Científica PIBIC-CNPq.
  3. Médica Veterinária responsável pelo Laboratório de Análises Clínicas Veterinárias-UFAL
  4. Professor Adjunto e líder do Grupo de Pesquisa em Equídeos da Universidade Federal de Alagoas (GRUPEQUI-UFAL). E-mail: pierre.escodro@pq.cnpq.br

RESUMO

A rápida instituição de hidratação parenteral em neonatos equinos pode significar a vida do paciente, que na maioria das vezes chega ao clínico com horas sem mamar e desidratação severa, já em choque hipovolêmico. As dúvidas em relação ao volume a ser infundido, tipo de solução (cristaloide/coloide) e velocidade de administração são constantes pelos profissionais, com pouco material específico na literatura nacional. Este artigo de revisão tem como objetivo abordar a hidratação parenteral em neonatos equinos, esclarecendo as principais dúvidas sobre o tema e indicando as principais soluções cristaloides e coloides a serem utilizadas.

Palavras Chave: potro, fluidoterapia, coloides, cristaloides.

ABSTRACT

Fast institution of parenteral hydration in equine neonates may mean the patient’s life, which most often comes to veterinarian with some hours without suckle and severe dehydration, already in hypovolemic shock. Questions regarding the volume to be infused, type of solution (crystalloid / colloid) and rate of administration are constant by professionals with little specific material in the Brazilian literature. This review article aims at approaching the parenteral hydration in equine neonates, clarifying the main questions on the topic and indicating the main crystalloid and colloid solutions to be used.

Key words: foal, fluid, colloids, crystalloids.

RESUMEN

Institución de hidratación parenteral en neonatos equinos puede significar la vida del paciente, que a menudo viene con el veterinario con algunas horas sin amamantar y deshidratación severa, ya en estado de shock hipovolémico. Las preguntas relacionadas con el volumen a infundir, tipo de solución (cristaloides / coloides) y la frecuencia de administración son constantes por profesionales con poco material específico en la literatura brasileña. Este artículo de revisión tiene por objeto abordar la hidratación parenteral en neonatos equinos, aclarando las principales preguntas sobre el tema e indicando las principales soluciones cristaloides y coloides para ser utilizado.

Palabras clave: potro, fluido, coloides, cristaloides.

1. INTRODUÇÃO

O controle do volume e da composição dos diversos líquidos corporais é fundamental para que se mantenha a homeostase do organismo. Em potros recém-nascidos, considerados de risco, essa homeostase hidroeletrolítica é de difícil execução, necessitando de maiores subsídios para sua instituição e coerente infusão. Assim, deve-se considerar que essa regulação é constante e complexa, dependente de diversos fatores, entre eles, perdas contínuas ou intermitentes de líquidos, prematuridade, síndromes de má adaptação, diarreia, sepse, doenças imunomediadas e enfermidades infecciosas de origem bacteriana ou protozoária.1

A rápida instituição de hidratação parenteral em neonatos equinos pode significar a vida do paciente, que na maioria das vezes chega ao clínico com horas sem mamar e desidratação severa, já em choque hipovolêmico. Em contrapartida, há ainda muitos colegas que ficam com medo de administrar fluidos intravenosos em neonatos, devido ao aumento da pressão capilar hidrostática induzir fluxo aumentado para o interstício, potencializando o risco de edema pulmonar e infusão pleural. Na maioria das vezes, esses episódios ocorrem devido à falta de elucidação literária nacional sobre cuidados com os potros recém-nascidos, identificação do neonato de alto risco, escolha coerente do fluido a utilizar em determinada situação, volume e velocidade de infusão.2

Este artigo de revisão tem como objetivo abordar a hidratação parenteral em neonatos equinos, esclarecendo as principais dúvidas sobre o tema e indicando as principais soluções cristaloides e coloides que podem ser utilizadas.

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Figura 1- Reconhecimento de um potro desidratado e instituição rápida da hidratação parenteral pode melhorar o prognóstico do paciente. Fonte: Autores.

2. LÍQUIDOS CORPORAIS

Os líquidos corporais são divididos primordialmente em duas partes: líquido extracelular e líquido intracelular. O extracelular se divide ainda em líquido intersticial e plasma.3 Em condições fisiológicas, considera-se que 60% da massa de um organismo equivalem a líquidos, sendo o intracelular 40% desse total. Já os líquidos extracelulares correspondem a 20 %, sendo 15% da parte intersticial e 5% referente ao plasma.4

Em neonatos de todas as espécies considera-se um volume maior de água no organismo, podendo representar mais de 70% em relação à massa corporal. Especificamente em relação aos potros, Magdesian 5(2014) relata que os mesmos compreendem de 75 a 83,3% da sua massa em líquidos corporais, além de apresentar maior compartimento extracelular. Ainda, deve-se considerar a alta ingestão de líquido do neonato, visto que o leite é a única fonte alimentar, podendo ingerir de 15 a 30% de seu peso por dia, com débito urinário de aproximadamente 6 ml/kg/hora e densidade urinária diminuída. Isso faz com que potros que não mamem entrem em rápido estado de desidratação.6

O plasma é a parte não celular do sangue e equivale a 60% do volume desse, podendo variar dependendo de diversos fatores (espécie, idade, estado fisiológico e outros).3 Está em constante comunicação com o líquido intersticial com quem efetua trocas de substâncias através das membranas capilares. Assim, a composição líquida nesses dois compartimentos é bem parecida, com exceção da parte proteica, em alta concentração apenas no plasma.7

As principais proteínas plasmáticas são a albumina, as globulinas e o fibrinogênio, produzidas principalmente no fígado. A albumina é a mais abundante e a menor proteína plasmática. Sua função é a de manter a pressão osmótica e o volume de líquidos, além de transportar ácidos graxos e hormônios esteroides. As globulinas são responsáveis pela atividade enzimática, transporte de lipídios e vitaminas lipossolúveis, além de atuarem na defesa do organismo. O fibrinogênio está em menor quantidade no plasma e sua atividade está relacionado à coagulação sanguínea.3,8

Devido à presença dessas proteínas e ao fato de não serem difusíveis pela membrana celular é que podemos observar o efeito de Gibbs-Donnan, que diz que íons de dois compartimentos inicialmente equilibrados e divididos por uma membrana permeável a esses e não permeável às macromoléculas como proteínas tendem a manter seu equilíbrio. Esse comportamento torna o meio com maior quantidade de moléculas (nesse caso o interior das células) mais propenso aos efeitos da osmose e a sua consequente ruptura, isso é evitado pela ação da Na+-K-ATPase, que fica bombeando íons para fora da célula mantendo seu equilíbrio volumétrico.1,9

Nos casos em que há desequilíbrio desses líquidos causados por razões como redução na ingestão, aumento na perda de fluidos e eletrólitos ou pela combinação desses fatores, comumente causados por condições clínicas adversas, ocorrem mudanças na pressão osmótica ocasionando redistribuição da água entre os compartimentos.4

Essa redistribuição pode chegar a níveis que atrapalhem à correta atividade metabólica das células e por isso existem diversas procedimentos clínicos que buscam restaurar o equilíbrio hídrico.3 A hidratação parenteral objetiva restaurar os volumes fisiológicos através da reposição de componentes sanguíneos perdidos. Pode ser realizada através de sangue total, plasma ou ainda de soluções cristaloides ou coloides.10

3. AVALIAÇÃO DA DESIDRATAÇÃO E CÁLCULO DE REPOSIÇÃO EM POTROS

A avaliação da desidratação consiste na fiel interpretação do estado do potro em relação aos níveis de líquidos e eletrólitos, estabelecendo uma conduta fluidoterápica adequada, visando evitar erros consequentes à administração de volumes ou substâncias não indicadas. Por isso é importante avaliar o tipo e o grau de desidratação para assim determinar qual líquido e melhor forma de reposição fluídica.11

Existem três tipos principais de desidratação em animais: isotônica, hipertônica e hipotônica. Desidratação hipotônica é a que ocorre perda de líquido hipertônico do meio extracelular (LEC). Com isso, água sai do meio extra celular (LEC) para o intra celular (LIC) ocasionando um edema no interior das células, que é considerada grave. Desidratação hipertônica é a ocasionada pela perda de líquido hipotônico do LEC. A água migra do LIC para o LEC, desidratando as células. A isotônica é o tipo em que ocorre a perda de líquido isotônico dos meios intra e extra celular.1

A avaliação do grau de desidratação é realizada com análise de sinais clínicos como perda de peso, aumento da frequência cardíaca e do tempo de preenchimento capilar, perda da elasticidade cutânea, ressecamento das mucosas, diminuição da temperatura nas extremidades e diminuição da produção de urina.12

Dessa forma, a hidratação dos potros deve considerar um detalhado exame clínico do neonato, com três objetivos básicos: mensuração e interpretação dos parâmetros fisiológicos e reatividade do potro, identificação da etiopatogenia da desidratação e instauração do tratamento principal e avaliação da imunidade passiva transmitida.

A mensuração e interpretação dos parâmetros fisiológicos devem levar em conta a normalidade do potro conforme seu tempo de nascimento, indicado na Tabela 1. Em relação à reatividade e vivacidade do potro, tem-se preconizado o uso da Escala de Apgar modificada, buscando pontuar a interação do potro com o meio ambiente minutos após o seu nascimento, sendo considerado por Vassalo et al. 13(2014) como prática e acessível na neonatologia veterinária, com restrição à esfera acadêmica e ampla necessidade de divulgação aos profissionais de campo (Tabela 2).

Tabela 1- Parâmetros fisiológicos em potros recém-nascidos nos tempos: Logo após o nascimento (t0), de 2 a 4 horas pós Nascimento (t2-4) e com 24 horas após o nascimento (t24).
Parâmetro T0 T2-4 T24
Frequência Cardíaca/ minuto- bpm

Frequência Respiratória/ minuto- mpm

Temperatura- ºC

Tempo de Preenchimento Capilar-segundos

40-60

40-60

37-39

1-2

100-200

20-40

37-39

1-2

80-120

20-40

37-39

1-2

Fonte: Adaptação de Carr 14(2014).

Tabela 2- Escore de Apgar modificado para avaliação de neonatos equinos de um a cinco minutos após o nascimento (Landim-Alvarenga et al., 2006).
Variáveis Escore
0 pontos 1 ponto 2 pontos
Frequência cardíaca/Pulso- bpm

Frequência Respiratória/ minuto- mpm

Tônus Muscular

Estimulação de Mucosa Nasal

Não detectado

Não detectado

Decúbito Lateral, Flácido

Não

Responde

<60

Baixa e irregular

37-39

Decúbito Lateral, Algum tônus Muscular

Leve

Contração

Muscular

>60

40-60, regular

Hábil em manter decúbito esternal

Tosse/

espirro

Fonte: Vassalo et al. 13(2014).

A identificação da etiopatogenia da desidratação deve ser pesquisada logo após cateterização da veia jugular e a instituição da fluidoterapia, buscando instaurar o tratamento principal. Prematuridade, síndromes de má adaptação, diarreia, sepse, doenças imunomediadas, hipóxia tissular, hipoglicemia e enfermidades infecciosas de origem bacteriana ou protozoária são importantes desencadeadores de desidratação.14

É importante que fique claro ao proprietário/responsável pelo animal, que a hidratação parenteral constitui um tratamento adjuvante suporte essencial, pois sem ela o paciente desenvolverá choque e óbito, porém, há a necessidade de exames complementares e tratamento específico para a enfermidade diagnosticada, muitas vezes associada à infusão de coloides naturais como plasma hiperimune, principalmente em casos de falência na transmissão de imunidade passiva.

Nesse raciocínio, o terceiro objetivo do exame clínico é a avaliação da imunidade passiva transmitida ao potro, pois a placenta do equino é epiteliocorial, o que impede que moléculas maiores passem para o mesmo, nascendo agamaglobulêmico ou com taxas baixas de IgM. A absorção das Imunoglobulinas ocorre através da ingestão do colostro em até 6 a 8 horas do nascimento, pois em 16 horas a absorção direta não será mais tão efetiva. Vários autores citam que a concentração de 800 mg/dl de IgG é considerada limítrofe de segurança no potro neonato, sendo que abaixo disso deve-se considerar a utilização de terapias imunoestimulantes, como plasmas hiperimunes.15

Analisando esses parâmetros vitais é possível identificar a porcentagem aproximada e o nível de desidratação em animais de grande porte. Em geral, desidratações de até 4% são assintomáticas, sendo difíceis de serem diagnosticadas. Sinais clínicos leves sugerem desidratação de 4 a 6% e são consideradas leves. Sinais mais severos, associados com depressão, diminuição da pressão intraocular, pulso fraco, retração da órbita ocular, entrópio e jugular com distensão comprometida indicam desidratação moderada.12

Exames laboratoriais também podem ser utilizados para auxiliar o diagnóstico e os mais usados são o volume globular (VG) e a proteína plasmática total (PPT), conforme apresentado na Tabela 3:

Tabela 3- Avaliação de desidratação a partir dos volumes globulares (VG) e proteínas plasmáticas totais (PPT) para potros.
VG (%) PPT (g/L)
LEVE (4 a 6%) 40 a 50 6,5 a 7,5
MODERADA (6 a 8%) 50 a 65 7,5 a 8,5
SEVERA (acima de 8%) > 65 > 8,5

Tabela 3: Valores de referência para determinação do grau de desidratação em animais grandes. Fonte: Adaptação de Dearo 16(2002).

Em potros neonatos, os valores de PPT isolados devem ser considerados como inconclusivos, pois naqueles animais agamaglobulêmicos, as PPT têm valores menores que os indicados na Tabela 3, porém, podem apresentar desidratação moderada à severa.16 Dessa forma, em locais onde a hemogasometria não está presente, a desidratação em potros deve ser calculada de forma genérica, avaliando-se o VG e o tempo de preenchimento capilar, visto que o normal é de 1 a 2 segundos (demonstrado na Tabela 1). Na Tabela 4, busca-se ilustrar como o TPC pode auxiliar no cálculo do Grau de Desidratação, sempre associando-se ao VG:

Tabela 4- Avaliação de desidratação a partir do tempo de preenchimento capilar.
TPC (segundos)

2 a 4

4 a 6

> 6

LEVE (4 a 6%)
MODERADA (6 a 8%)
SEVERA (acima de 8%)

Fonte: Os autores.

Após a correta análise e diagnóstico do grau de desidratação, é possível determinar o volume a ser infundido, considerando que 75 % da massa corporal do potro são compostas por líquidos.5 A partir daí, pode-se considerar a fórmula apresentada pelos autores na Figura 2.

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Figura 2- Proposta de fórmula para reposição do volume hidroeletrolítico em potros a partir do grau de desidratação calculado. Fonte: Autores

Outro ponto a ser considerado é a velocidade de infusão em grandes animais, cuja reposição do grau de desidratação deve ser realizada em poucas horas (2 a 4 horas) a partir do início do tratamento,17 porém em potros, por ter maior LIC e maior percentagem líquida na massa corporal, pode-se ter que realizar a fluidoterapia de maneira mais rápida, avaliando os riscos de edema tissular, visto que na maioria das vezes a desidratação em potros é isotônica ou hipotônica (em animais agamaglobulêmicos), havendo alta mobilidade líquido do LEC para o LIC.

Assim, Magdesian 18(2003) preconiza a avaliação do grau de desidratação e hidratação parenteral em potros com soluções cristaloides ou cristaloides/coloides, no volume de 10 a 20 ml/kg nos primeiros 10 a 30 minutos, com restante do volume até a segunda hora de atendimento. A partir da primeira reposição volumétrica, a avaliação clínica, hemograma completo e glicemia devem ser realizadas. Deve-se atentar para à função renal, pois os rins de potros são menos efetivos do que os de cavalos adultos, com permeabilidade aumentada, além da tentativa de mensuração do débito urinário e pressão arterial média. Após o cálculo de reposição, deve-se analisar as perdas diretas (por diarreia, por exemplo) e indiretas, associadas à falta de ingestão de líquidos e/ou leite. Dessa forma deve-se realizar novas avaliações laboratoriais a cada 8 a 12 horas, calculando-se novamente a reposição da desidratação, associando às necessidades de manutenção diárias, que na literatura variam entre 50 a 80 ml/kg/hora para potros.17,18

A tabela 5 traz uma ilustração em que Carr 14(2014) propõe uma abordagem de manutenção volêmica para potros submetidos à fluidoterapia intravenosa. Propõe-se também, em casos de potros submetidos às cirurgias durante esse período, repor de 15 ml/kg/hora durante o ato cirúrgico, devido às perdas líquidas inerentes à anestesia/cirurgia.

Tabela 5- Volume de hidratação parenteral para reposição das necessidades diárias em potros neonatos.
Volume em ml/kg/24 horas

100

50

25

Primeiros 10 kg de massa corporal
Segundos 10 kg de massa corporal
Massa corporal adicional

Fonte: Adaptação de Carr 14(2014).

Uma vez determinados o volume e velocidade de infusão, buscando seguir essa última de forma uniformizada (calculando o volume a ser infundido por ml/kg/hora), existem diversas soluções a serem utilizadas na hidratação parenteral de potros, sendo as soluções cristaloides e coloides de relevante importância.

4. SOLUÇÕES CRISTALOIDES

Soluções são misturas homogêneas entre duas ou mais substâncias. Em meios orgânicos, as soluções são do tipo aquoso, sendo a água seu principal solvente.19

Várias forças intermoleculares podem agir em soluções. Quando uma substância apolar se dissolve em outra apolar existe predomínio de forças de dispersão, por outro lado, forças íon-dipolo predominam em soluções de substâncias iônicas em água.20

Quando a magnitude das forças de atração entre moléculas de soluto e solvente chegam à mesma magnitude das forças que existem entre o soluto ou entre as moléculas do solvente haverá formação das soluções. Um claro exemplo desse fenômeno acontece quando NaCl entra em contato com H2O, e as forças íon-dipolo agem atraindo o dipolo positivo da água para o ânion Cl e o negativo para o Na+. Essas forças são suficientes para desassociar a molécula de NaCl em Na+ e Cl. Esse processo é chamado de hidratação.20

Soluções cristaloides contém água e eletrólitos diversos, sendo o sódio o mais utilizado e mais abundante no líquido extracelular. Como essas partículas não alteram propriedades oncóticas, fica garantida a sua livre circulação entre os meios a depender da concentração de Na+ desses.10 Em potros, Carr 14(2014) levanta que o total de sódio por dia não deve ultrapassar a relação de 3 mg/kg, sendo que cita preferir o uso de soluções com dextrose a 5% para reposição eletrolítica em relação as salinas de forma contínua.

Cristaloides são os fluidos mais utilizados em equinos, mas nem todos esses possuem apresentação em 5 litros, sendo esse requisito importante no tratamento de equinos adultos que necessitem de cuidados por período prolongado. Além disso, eles apresentam uma menor taxa de complicações associadas ao seu uso em comparação aos coloides em tratamentos intensivos.17

Existem três tipos principais de soluções, a depender de sua tonicidade com relação ao plasma ( 280 a 295 mOsm/L) que são utilizados na terapêutica: hipotônicas ( abaixo de 240 mOsm/L), isotônicas ( 240 a 340 mOsm/L) e hipertônicas ( superior à 340 mOsm/L). Os principais isotônicos são: Cloreto de sódio 0,9%, Glicose 5%, Ringer e Ringer lactato. E os hipertônicos: cloreto de sódio a partir de 7,5% e Glicose a partir de 10%.

Soluções isotônicas são mais indicadas para manutenção volêmica enquanto que soluções hipertônicas para reposições. Isso devido às características próprias de cada uma: as isotônicas apresentam mesma osmolaridade que o plasma, enquanto que as hipertônicas são capazes de sequestrar eletrólitos e fluidos dos compartimentos intersticial e intracelular para o intravascular auxiliando na redução de edemas e na estabilização da pressão arterial.

Tabela 6- Principais soluções cristaloides utilizadas na hidratação de potros.
Composição de eletrólitos (mEq/l)
Fluido Na+ Cl K Ca(mg/dl) Mg(mg/dl) Tampão mOsmol/l pH
Solução isotônica (0,9%) 154 154 0 0 0 0 308 5,0
Ringer lactato 130 109 4 3 0 Lactato 273 6,6
Solução hipertônica (7,2%) 1232 1232 0 0 0 0 2464 4,0

Fonte: Adaptação de Cook & Bain 17(2003).

5. SOLUÇÕES COLOIDES

As soluções coloidais, ou simplesmente coloides, são um tipo de dispersão de partículas de uma substancia em um meio dispersante constituído por outra substância. Suas partículas de tamanho entre 1 e 100 nm, são bem maiores do que as de soluções.21 Essas partículas apresentam grande área superficial e algumas características peculiares, como seu comportamento perante a luz: efeito Tyndall (espalhamento), não ser filtrável em papel comum e não precipitarem.9

Dentre os principais meios dispersantes está a água e os coloides que se dispersam nela são divididos em hidrofóbicos, que tem aversão à água e hidrofílicos, que gostam da água. Moléculas muito grandes normalmente são coloides hidrofílicos, como no caso das proteínas. Coloides hidrofóbicos não se agrupam mesmo quando em contato com a água graças à sua capacidade de estabilização por adsorção, que torna possível sua interação com a água e também à repulsão eletrostática entre coloides desse tipo, as suspensões de gordura na água (leite) e água na gordura (maionese) são alguns exemplos clássicos.21

Devido ao seu tamanho e peso molecular, os coloides não são capazes de atravessar passivamente a membrana capilar, o que ocasiona aumento da pressão oncótica plasmática e consequentemente uma expansão volêmica mais duradoura. Isso contribui no prolongamento de suas ações, diminuindo risco de edemas e promovendo o mesmo efeito do uso de cristaloides com bem menos volume administrado.22

Eles podem ser classificados em naturais ou sintéticos. Dentre os naturais está o plasma, que é o coloide mais utilizado em equinos apesar do seu alto custo. Os coloides sintéticos surgem como alternativa para o plasma com relação a aspectos como preço e maior eficácia em aumentar a pressão oncótica graças a sua menor redistribuição para o espaço intravascular.16

O avanço nos últimos anos no entendimento do funcionamento dos coloides tem promovido o seu melhor uso. Novos tipos de coloides e formas de utilização vem sendo propostas constantemente. Dentre elas a de um melhor entendimento acerca da pressão osmótica que promovem controle mais efetivo sobre os fluidos ocasionando assim uma melhor oxigenação dos órgãos e redução dos edemas.

Atualmente, já sabemos que o uso de coloides deve buscar além da manutenção da pressão oncótica e reposição de proteínas plasmáticas em pacientes enfermos, uma melhoria da circulação desses em relação às forças de Starling. Essas forças definem o movimento de fluidos através de membranas entre os capilares e o interstício a partir das pressões hidrostática e oncótica dentro e fora dos vasos.23 Assim, em casos onde ocorre perda de líquidos e proteínas (queda das pressões hidrostática e oncótica), devem ter reposição que busque a restauração de ambas, em casos desse tipo é notória a necessidade de um fluido que contenha mais do que cristaloides ou coloides, mas sim uma solução mista.18

6. INDICAÇÕES DE UTILIZAÇÃO DOS CRISTALÓIDES E COLÓIDES

Cristaloides tem inúmeras vantagens, além de baratas e estéreis, podem ser utilizadas para carrear medicamentos ou outros compostos. Em compensação, eles passam pouco tempo no espaço intravascular, escapando rapidamente para o espaço intersticial, isso pode ser uma contraindicação em potros com desidratação, visto que a maioria são isotônicas ou hipotônicas.24

Cristaloides isotônicos são mais utilizados em equinos adultos por serem mais baratos e parecidos com o plasma em sua composição eletrólita, apresentarem baixo risco de eventos adversos e podem ser usadas para casos de manutenção ou substituição do plasma. A solução NaCl 0,9% apresenta vantagens quando utilizados em alcalose metabólica hiperclorêmica e hiponatremia, podendo causar seus opostos: acidose metabólica, hiperclorêmica e hipernatremia quando mal administrados.17

Outros isotônicos mais complexos como Ringer e Ringer lactato apresentam um balanceamento mais regular de eletrólitos, capacidade de tamponamento, efeito diurético, baixo risco para o paciente, não atrapalhando a cascata de coagulação sanguínea.22 Em compensação, seu uso exige uma grande quantidade de volume infundido, o que pode causar edemas, hipercalemia, hiponatremia e super-hidratação, além de redução na pressão coloidosmótica. O uso do Ringer lactato, apesar de ser o mais indicado, também pode ocasionar choque e trauma se os rins e fígado estiverem comprometidos pois assim o lactato não será metabolizado.11

As soluções cristaloides hipertônicas podem ser mais eficazes que o Ringer lactato em expansão volêmica, apresentam baixo custo e necessitam de pouco volume administrado, mas seus efeitos benéficos são temporários, podem causar flebite quando administrados em vasos de pequeno calibre e hipernatremia, hipercloremia e hiperosmolaridadade em pouco tempo.17Nessa realidade, a solução hipertônica de NaCl de 7,0 a 7,5 % pode ser utilizada em potros, na dose de 4 mL /kg para expansão volêmica, com imediata reposição de coloides associados aos cristaloides, de preferência ringer com lactato. Para fins de elaboração, pode-se preparar uma solução com dois terços do volume de solução NaCl 0,9% e um terço de NaCl 20 %.

Os coloides podem ser classificados de acordo com sua origem em naturais (biológicos) ou sintéticos. Os naturais mais utilizados são o plasma e o sangue total. O plasma é formado principalmente por albumina, uma proteína obtida a partir de vários doadores através da cromatografia ou fracionamento por resfriamento. A albumina promove aumento da pressão oncótica e é capaz de carrear diversos hormônios, drogas e toxinas. Além disso, o plasma contém globulinas, fibronectinas, fatores de coagulação e anticoagulantes. Algumas das proteínas da cascata de coagulação se perdem com o tempo e congelamento, sendo encontradas apenas no plasma fresco (de até 6 horas). As desvantagens do plasma (albumina) são o preço elevado, a sua elevada taxa de extravasamento para o meio extra vascular (em torno de 60%), risco de infecções e distúrbios de coagulação (plasma congelado). Equinos em tratamento com albumina devem ser constantemente monitorados para sinais de reações de hipersensibilidade, taquicardia, taquipneia, tremores, cólica e urticária.16

O sangue inteiro é utilizado nos casos de choque hemorrágico severo. As complicações relacionadas com transfusão sanguíneas incluem reações com incompatibilidade do tipo sanguíneo, com anticorpos do plasma e leucócitos. Efeitos adversos ainda incluem toxicidade ao citrato e hipocalcemia. No caso de autotransfusão deve-se usar anticoagulante e filtrar o sangue. É importante notar que o sangue inteiro não exerce pressão oncótica significativa, sendo necessária a administração conjunta de outro coloide.18 O sangue como coloide é pouco mencionado na literatura, talvez devido à sua pouca eficácia nesse sentido.

O principal coloide sintético utilizado em equinos adultos é o Hidroxietilamido (Hetastarch), que é um não proteico derivado do amido ceroso composto principalmente de amilopectina. Atua não apenas na reposição do volume plasmático através de seu efeito osmótico coloidal e da capacidade de reter o fluído intravascular, mas também age na atenuação da resposta inflamatória e na redução da permeabilidade capilar. Sua desvantagem está relacionada reações alérgicas e distúrbios de coagulação devido a diminuição do fator VIII e do complexo de Von Willebrand e prurido devido ao depósito de amido. Essas reações adversas estão ligadas à dose e ao tempo de tratamento. Por isso recomenda-se constante acompanhamento do paciente e dos exames de tempo de coagulação (PT e PTT).18

As dextranas são longos polímeros de glicose produzidos a partir de bactérias Leuconostoc mesenteroides cultivadas em meio de sacarose. Existem diversos tipos, que são descritos por seus pesos moleculares: Dextran 40 (40.000Da), Dextran 70 (70.000Da). Essas mensurações são ideais teóricos, pois na realidade apenas uma parte das moléculas tem esse peso, esse número é um indicativo da média desses pesos que variam de 20.000Da a 200.000Da. É menos eficaz que o Hetastarch com relação ao tempo de ação devido a presença de suas pequenas moléculas que são rapidamente excretadas pelos rins. A Dextran 70 apresenta ainda mais complicações do que o Hetastarch, essas complicações incluem reações alérgicas e distúrbios de coagulação mais frequentes e mais severos devido a inibição da agregação plaquetária, eritrocítica e neutrófila, inibição de fatores de coagulação e aumento da viscosidade sanguínea.18

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Figura 3- Potro com imunossupressão recebendo plasma hiperimune, um coloide natural.Fonte: os autores.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Soluções cristaloides e coloides podem ser utilizadas como substituintes do plasma em casos da necessidade de reposição volêmica. A completa anamnese, exame clínico e exames laboratoriais são importantes aliados na hora de planejar a terapêutica e escolha do melhor fluido a ser utilizado.

A discussão em torno da utilização de coloides contra cristaloides não acrescenta muito ao paciente e o melhor é analisar em cada caso qual melhor opção. Ambos possuem suas vantagens e desvantagens e o clínico deve estar a par dessas informações para não acabar sugerindo uma terapêutica equivocada.

Finalmente, a associação coloide e cristaloide mostrou-se como melhor opção em potros, considerando que maioria das desidratações são isotônicas ou hipotônicas. Porém, sempre deve ser calculado, individualmente, o volume a ser infundido (através dos procedimentos clínicos e laboratoriais elencados), avaliação do tipo de cateter e local de aplicação, idade do animal e tempo de tratamento (análise de perdas hidroeletrolíticas).

8. REFERÊNCIAS

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Artigo Autorizada pela Revista +Equina. O artigo se encontra na edição 54 ano 2014

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