Efeito do Jejum sobre o Metabolismo Equino

O jejum acontece em diversas situações clinicas de equinos, pode ser forçado antes de procedimentos anestésicos ou em recuperações pós cirúrgicas ou traumáticas.

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Efeito do Jejum sobre o Metabolismo Equino

 

O jejum acontece em diversas situações clinicas de equinos, pode ser forçado antes de procedimentos anestésicos ou em recuperações pós cirúrgicas ou traumáticas. Mas pode ser voluntário, inapetência causada por desconfortos físicos, estresse ou desordens metabólicas e sistêmicas. Mas o que acontece com o organismo durante este período? Como este fator influencia na conduta clínica e manejo deste animal?

Inicialmente é importante considerar o quadro clínico, se estamos diante de um animal sadio, em jejum pré-anestésico para procedimento eletivo, ou jejum pós cirurgia de síndrome cólica ou ainda se a inapetência é causada por alguma outra enfermidade. O jejum em um animal sadio causa deficiência de nutrientes, o que é compensado pelo corpo reduzindo o gasto de energia e direcionando os estoques energéticos para funções essenciais. Enquanto em condições clínicas mais graves energia, proteínas e vitaminas são utilizadas também para restabelecer o equilíbrio e combater infecções.

O principal mecanismo de equilíbrio do metabolismo durante jejum prolongado é hormonal, principalmente relacionado à insulina. A produção de insulina é reduzida, baixando também a captação de glicose pelos tecidos, o que estimula a mobilização de gordura e catabolismo muscular. A liberação do hormônio T4 também é reduzida para baixar o metabolismo basal e economizar energia.

Na ausência de alimentos a primeira fonte de energia é o estoque de glicogênio hepático, porém este recurso se esgota em 24 a 36 horas. Então o animal recruta outras fontes de energia e começa a mobilizar o tecido adiposo liberando ácidos graxos que nutrem a maioria dos órgãos garantindo suas funções, porém hemácias e células do sistema nervoso central exigem glicose. A gliconeogênese produz glicose a partir de glicerol, lactato e aminoácidos, a intensa proteólise necessária para disponibilizar aminoácidos é a principal causa de perda de massa muscular. Trabalhando desta forma, equinos sadios podem aguentar 2 a 3 dias de jejum sem alterações clinicas importantes.

Em casos em que o animal apresenta condição clínica de ordem metabólica, tal como sepse, choque ou síndrome cólica, a resposta ao jejum é diferente e sua tolerância à desnutrição é bem menor, pois, enquanto o jejum reduz a taxa metabólica, essas condições aumentam a exigência.

A sepse causa hiperglicemia com resistência à insulina, hiperlipidemia, balanço negativo de nitrogênio e consumo de aminoácidos musculares, especialmente a glutamina. Nestas condições a demanda proteica não é apenas para suprir a falta de energia, mas também para realizar ações enzimáticas e hormonais com o objetivo de debelar a infeção, desta forma o catabolismo protéico permanece sem controle, resultando em intensa perda de massa corporal.

Paralelamente, o sistema de mobilização de gorduras aumenta, elevando também concentrações de triglicerídeos séricos podendo desencadear uma condição conhecida como hiperlipidemia.

Na hiperlipemia ocorre aumento marcante de triglicerídeos plasmáticos, o soro ou plasma ficam turvos e há infiltração gordurosa no fígado e rins. Os animais afetados requerem apoio nutricional assertivo e imediato, ainda assim, o prognóstico não é bom.

Embora todos os sistemas do corpo sejam afetados pela desnutrição, dois são mais críticos, o trato gastrointestinal e o sistema imunológico. Os enterócitos têm taxa metabólica extremamente elevada e vida útil muito curta, em média 3 dias. Além de realizarem a digestão e absorção, também formam uma barreira física que impede a entrada de bactérias na circulação. A privação de alimentos atrofia a mucosa intestinal comprometendo barreira antimicrobiana, além de dificultar a digestão e absorção quando o animal for realimentado.

O manejo nutricional para equinos em tratamento de síndrome cólica certamente é uma das situações mais complexas. Em casos de enterotomia e ressecção é comum o animal permanecer em jejum prolongado, para reduzir os riscos de rompimento de sutura, peritonites e diarreias, por outro lado a terapia nutricional bem realizada pode melhorar a cicatrização e resposta imunológica e reduzir o tempo de internação.

Texto Escrito Por:

Rebeca Alves Weigel 

Nutricionista Clinica de Equinos
CRMV-SP 18674
Cargo: Pesquisadora ( responsável pela Pesquisa e Desenvolvimento- P&D – da Quimtia)
Formação: Medica Veterinária formada pela UNESP – Botucatu (2004)
Mestrado (2008) e Doutorado (2014) pela USP (com foco em Doenças Nutricionais e Metabólicas)

Bibliografia

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