Empiema de Bolsas Guturais

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Figura 1. Localização anatômica das bolsas guturais. Estendendo-se da nasofaringe a orelha média Fonte: Borges & Watanabe, 2011

As bolsas guturais consistem de um par de divertículos, ventrais, emparelhados com as trompas de Eustáquio, que se estendem da nasofaringe até a orelha média. Dentre os animais domesticados, essas estruturas estão presentes apenas nos equídeos. Cada uma delas consiste de um espaço preenchido com ar com capacidade que varia de 300 a 500ml em um cavalo adulto. Cada bolsa é dividida em um compartimento medial e um lateral, pelo osso estilóide. O compartimento medial tem de duas a três vezes o tamanho do compartimento lateral, e estende-se mais caudalmente e ventralmente. A parede lateral de cada um desses compartimentos, contém estruturas importantes, como, pares de nervos cranianos e artéria carótida interna e externa.

 

 

 

Em animais atletas o resfriamento cerebral durante a hipertermia ocasionada pelo exercício é de extrema importância para evitar danos neurológicos irreversíveis. A localização e a intima relação anatômica das bolsas guturais com o trato respiratório superior, sugerem que estas participam ativamente do resfriamento cerebral, ao manterem a temperatura do sangue transportado pelas artérias carótidas internas, abaixo da temperatura central, durante a hipertermia.

Figura 2. Nervos e artérias diretamente relacionadas a bolsa gutural Fonte: Borges & Watanabe, 2011

Um experimento publicado na revista Nature, uma das revistas de maior impacto cientifico do mundo, avaliou, por meio de sensores térmicos implantados cirurgicamente, a temperatura do ar das bolsas guturais, bem como do fluxo sanguíneo transportado pela artéria carótida interna, em cavalos em repouso e durante o exercício, e concluiu que nos equinos as bolsas guturais, definitivamente representam um componente adicional ao resfriamento cerebral, requerido por essa espécie, perante o seu caráter atlético. As afecções mais comuns das bolsas guturais são; empiema, timpanismo, micose e osteoartropatia temporo-hioide.

 

O empiema de bolsa gutural é definido como o acumulo de exsudato purulento, advindo de contaminação bacteriana de uma ou ambas as bolsas. Em virtude de compartilhar uma mesma mucosa com o trato respiratório superior, a maioria das afecções bacterianas e virais desse trato implicam em inflamação da bolsa gutural. Equinos de qualquer idade podem ser acometidos, porém, animais jovens estão mais predispostos, uma vez que a infecção do trato respiratório por Streptococcus equi, bactéria que causa o garrotilho, é uma das condições que mais comumente leva ao empiema.

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Figura 3. Anatomia endoscópica da bolsa gutural. S= Osso estiloide; L= Compartimento Lateral; E= Artéria maxilar externa; M= Compartimento medial; I= Artéria carótida interna; N= Pares de nervos cranianos IX, X e XI. Fonte: Adaptado de Edwards & Greet, 2012.

O sinal clínico mais relevante é a descarga mucopurulenta, que por vezes, persiste mesmo após outros sinais clínicos de infecção do trato respiratório terem sido abolidos. Normalmente apenas uma bolsa é acometida e a descarga nasal é mais proeminente na narina ipsilateral (do mesmo lado). Essa descarga pode ser intermitente, se tornando mais evidente quando o animal baixa a cabeça ou quando é aplicada pressão sobre a região parotídea. Outros sinais clínicos incluem, depressão, febre, anorexia e dispneia. Por vezes a distensão da bolsa pode envolver estruturas correlacionadas, como pares de nervos cranianos, levando a neurites e consequente disfagia. Além desses sinais, nos casos crônicos, o material purulento pode torna-se espesso assumindo forma ovalada, denominada de condroide, que pode ser visualizada no exame radiográfico. A presença desse material faz com que seja necessária a intervenção cirúrgica.

Figura 4. Radiografia lateral da bolsa gutural demonstrando presença de inúmeros condroídes Fonte: Greet & Edwars 2007
Figura 5. Condroides firmes e bem formados Fonte: Dixon & James, 2016

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os diagnósticos diferenciais incluem infecções do trato respiratório inferior e superior bem como outras afecções de bolsa gutural, como o timpanismo, que pode ocorrer, inclusive, concomitantemente ao empiema. Os exames de imagem utilizados no diagnóstico incluem a endoscopia, que pode demonstrar a presença de conteúdo purulento, condroides, e até mesmo a obstrução completa do lúmen nasofaríngeo; pela radiografia pode-se visualizar a um aumento de opacidade na bolsa gutural.

O tratamento vai depender da gravidade e estágio evolutivo do problema, podendo ser clínico ou cirúrgico.

Texto por: Pedro Augusto Cordeiro Borges, Mestrando em Ciência Animal EVZ-UFG.

Edição e Revisão: Deivisson Aguiar, Médico Veterinário.

REFERÊNCIAS

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BORGES A.S; WATANABE, M.J. Guttural Pouch Diseases Causing Neurologic Dysfunction in the Horse. Vet Clin Equine 27:545–572, 2011. DOI: 10.1016/j.cveq.2011.08.002

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DIXON P.M; JAMES O.A. Equine guttural pouch empyema, why does it become chronic?. Equine Veterinary Education. 2016. DOI: 10.1111/eve.12707

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