Estudo Retrospectivo das Lacerações Perineais de Terceiro Grau em Éguas (1995 – 2011)

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Gabriel Bento Ferreira (Graduando de Medicina Veterinária pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Bolsista de Iniciação Científica Pibic/Reitoria)

Nereu Carlos Prestes (Professor Adjunto da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho)

RESUMO

Os traumas reto-vestibulares são descritos com maior frequência em éguas, sendo as lacerações perineais de terceiro grau os mais graves, relacionadas com distocia, esforços violentos de expulsão do feto durante o parto e nascimento de potros grandes. São também as lesões com maior possibilidade de consequências para a vida e desempenho reprodutiva da égua. O objetivo do presente trabalho é realizar um estudo retrospectivo dos casos de laceração perineal de terceiro grau atendidos no Hospital Veterinário da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Botucatu no período de 1995 a 2011 visando identificar possíveis fatores de risco para a ocorrência da lesão.

Unitermos: Lacerações perineais; terceiro grau; éguas.

ABSTRACT

The rectovestibular lacerations are reported with larger frequency in mares, being the third-degree perineal lacerations the most severes, related to dystocia, violent efforts of expulsion of the fetus during the parturition and delivery of a large foal. They are also the lesions with greater possibilities of consequences to the life and reproductive performance of the mare. The purpose of the present article is to carry out a retrospective study of the cases of third-degree perineal lacerations treated at the veterinary hospital of the Paulista State University (Unesp), Botucatu in the period from 1995 to 2011, aiming to identify possible risk factors for the occurrence of the injury.

Keywords: Perineal lacerations; third-degree; mare.

RESUMEN

Los traumas recto-vestibulares se describen con mayor frecuencia en yeguas, que es el tercer grado de desgarro perineal los más graves, relacionados con distocia, expulsión violenta del feto durante el trabajo de parto y el nacimiento de los potros. También están las lesiones con mayor posibilidad de consecuencias para la vida y el desempeño reproductivo del caballo. El objetivo de este trabajo es llevar a cabo un estudio retrospectivo de los casos de laceración perineal de tercer grado se reunieron en el Hospital Veterinario de la Universidad Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho – Botucatu en el período comprendido entre 1995 y 2011, para identificar los posibles factores de riesgo para la ocurrencia de la lesión.

Unitermos: Desgarro perineal; tercer grado; yeguas.

Introdução

Os traumas reto-vestibulares ocorrem em diversas espécies, mas são descritos com maior freqüência em éguas1. São mais comuns em primíparas, mas podem ocorrer em qualquer idade, incidindo normalmente na segunda fase do parto (expulsão do feto) devido à distocia fetal, feto exageradamente grande, esforços violentos de expulsão do potro durante o parto ou assistência forçada ou incorreta.2,3,4,5

Dentre os traumas reto-vestibulares (que envolvem as fístulas reto-vestibulares, rupturas vaginais, lacerações cervicais) as lacerações perineais de terceiro grau (que apresentam ruptura do corpo perineal, esfíncter anal, assoalho do reto e teto do vestíbulo da vagina) são as mais graves, podendo acarretar desde pneumovagina até a morte do animal ou sua incapacidade reprodutiva.6,7

As lacerações perineais ocorrem mais frequentemente ao longo da porção superior e dos lados da parede vaginal posterior e da abertura vulvar e são classificadas de acordo com sua extensão, profundidade e destruição tecidual em primeiro, segundo e terceiro grau.

Lacerações de primeiro grau são superficiais e envolvem a mucosa vaginal e/ou vulvar. As de segundo grau implicam lesão da mucosa e submucosa vestibular, continuando-se com os músculos do corpo perineal incluindo o músculo constritor da vulva, bem como a mucosa e a pele do órgão. Já as de terceiro grau envolvem ruptura do corpo perineal, esfíncter anal, assoalho do reto e teto do vestíbulo vaginal. HEINZE (1966) ainda divide as de terceiro grau em tipo A (que se prestam para uma reconstituição cirúrgica e têm bom prognóstico para a reprodução) e tipo B (animais que defecam normalmente, mas devido ao pequeno tamanho do canal do parto, são incorrigíveis para a procriação).2,3,8

Na égua, geralmente a lesão inicial é uma perfuração do teto vaginal pelo membro anterior do feto, ocorrendo perfuração do reto. Se o membro for retraído, permanece uma fístula, se não, pode ser forçado pelo orifício anal aumentando a lesão e originando a laceração de terceiro grau. Quando a ruptura do períneo é completa os sinais clínicos são bastante evidentes: hemorragia, presença de fezes na vulva e vagina, incluindo o fundo vaginal, e em lesões mais antigas ocorrem infecções com edema e supuração acompanhada de necrose tecidual. A identificação precoce pode permitir o posicionamento correto dos membros, possibilitando um parto normal.9,10

Lacerações de terceiro grau ocorrem mais comumente em éguas primíparas ou de temperamento nervoso, éguas que sofreram cirurgia perineal anteriormente ou devido a partos extenuantes e rápidos. Seus efeitos clínicos são a contínua aspiração de ar para a vagina e a contaminação do lúmen vaginal por material fecal. A pneumovagina, por sua vez, pode levar ao acúmulo de urina caudalmente ao orifício uretral (urovagina), resultando em uma grande contaminação bacteriana e infecção do trato genital, podendo acarretar infertilidade.9

A correção é possível, mas deve ser realizada apenas se executada poucas horas após a lesão e se mostrar efetiva após a avaliação clínica. Caso não seja feita, ela só deve ocorrer de 4 a 6 semanas após a lesão, pois os tecidos se encontram edematosos, necrosados e contaminados.9

A técnica mais indicada para correção é a plástica reconstrutiva do reto e vagina com posterior vulvoplastia. Antes da cirurgia a égua deve ser mantida sobre uma dieta especial que deve ser mantida de 3 a 4 semanas após a cirurgia, de modo que as fezes do animal fiquem amolecidas.3,10 O pós operatório deve ser feito com administração de antibióticos, antiinflamatórios e analgésicos. Os pontos devem ser removidos 14 dias após a operação e até sua retirada deve-se realizar controle da dieta e aplicação de laxantes para evitar fezes ressecadas (o que irritaria o sítio cirúrgico e causaria constipação).6

A égua deve passar por um exame físico completo do trato genital de três a quatro semanas após o parto e ficar em descanso sexual por seis meses antes de serem cobertas novamente (ultrassonografia retal também pode ser utilizada, e se for revelado fluído uterino esse deve ser coletado para se realizar cultura de bactérias e avaliar se há endometrite bacteriana, o que exigirá tratamento com drogas antimicrobianas selecionadas baseado nos testes de sensibilidade da cultura)7 e de acordo com a redução da abertura vulvar, algumas necessitam de inseminação artificial permanentemente.4

O objetivo deste trabalho foi contabilizar e revisar os casos de laceração perineal de terceiro grau atendidos no Hospital Veterinário da Unesp – campus Botucatu no período de 1995 a 2011 visando identificar possíveis fatores de risco para a ocorrência da lesão.

Materiais e Métodos

No estudo retrospectivo foram revisadas no total 305 fichas de animais atendidos no Departamento de Reprodução Animal do Hospital Veterinário de Botucatu no período em questão (1995 a 2011). Dessas, totalizaram 20 casos de lacerações perineais de terceiro grau, definindo o grupo “Caso”, sendo separadas de cada caso as informações referentes à Raça, Pelagem e Idade.

Em seguida, foi realizada uma análise comparativa de 54 éguas com outras casuísticas atendidas em períodos próximos (até 2 meses) ao da laceração perineal de terceiro grau, que definiu o grupo “Controle”, desse, as mesmas variáveis que o grupo anterior foram analisadas.

Para o estudo de caso-controle realizou-se o teste Qui-Quadrado para comparar a proporção de laceração entre os grupos de idade e raça nos casos e nos controles. O teste t-Student foi utilizado para comparar as idades médias das éguas entre os grupos de laceração e o teste de Mantel-Haenszel para testar a associação entre raça e laceração, ajustados por idade.

Resultados e Discussões

Pela pesquisa dos casos de laceração perineal de terceiro grau no período de 1995 a 2011, foram atendidos 20 éguas com a lesão no Setor de Reprodução Animal da Unesp, equivalendo a 6% da casuística total do departamento (305 equinos atendidos no período), das éguas com laceração o grupo se dividiu em 16 animais da raça Quarto de Milha (80%) e 4 da raça Puro-Sangue Inglês (20%).

O predomínio da raça Quarto de Milha foi bastante destacado no grupo “Caso” em relação ao grupo controle em que essa raça se resumia a apenas 37% (outras raças muito presentes foram a Mangalarga com 26% e animais Sem Raça Definida com 15%, não havendo animais Puro-Sangue Inglês).

Foi realizado então o teste de Risco Relativo para a variável “raça” e a probabilidade de uma égua Quarto de Milha apresentar laceração foi 6,8 vezes maior (P=0,001).

Também foi observado durante o estudo que as éguas atendidas com laceração perineal de terceiro grau tendem a ser mais jovens em relação às atendidas com outras casuísticas, conforme demonstra a tabela 1:

Laceração Perineal N Média Mediana Mínimo Máximo
Ausente

Presente

54

19

10,66

6,74

11,00

6,00

2,00

2,00

20,00

15,00

Tabela 1. Número, Média, Mediana, e valores máximos e mínimos referentes às idades dos grupos com e sem laceração perineal.

*Do grupo de éguas com lacerações uma das fichas não apresentava a idade, sendo excluída desse cálculo.

Visando facilitar a classificação, os grupos foram divididos entre duas categorias: “Jovens” (com idade menor ou igual a 5 anos) e “Idosas” (com idade maior ou igual a 6 anos). À análise da relação entre idade e laceração, 20,4% das éguas no grupo controle pertenciam à categoria “Jovens” em contraponto ao grupo de éguas com laceração, do qual 42,1% apresentaram idade inferior ou igual a 5 anos.

Laceração Perineal Presente Ausente
“Jovens” 42,1% 20,4%
“Idosas” 57,9% 79,6%

Tabela 2: Relação de éguas “Novas” e “Velhas” em relação à presença de Laceração.

Realizada a Razão das Chances (Odds Ratio), a probabilidade de um caso apresentar-se em uma égua “Jovem” foi 2,7 vezes maior quando comparadas aos controles (P = 0,06).

Gráfico 1: Casuística das éguas de raça Quarto de Milha dos grupos caso e controle.

Conclusões

Baseado nos resultados obtidos, o estudo de caso-controle demonstrou que idade e raça são variáveis bastante significativas quanto às chances de ocorrer laceração perineal de terceiro grau em uma égua, em relação à população atendida na área do Hospital Veterinário da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho de Botucatu.

Quanto à idade, observa-se que animais mais jovens têm maiores chances de adquirir a lesão (apesar de que ao Qui-Quadrado o valor-P foi próximo ao nível de significância), assim como éguas da raça Quarto de Milha, que também demonstraram uma ocorrência maior da lesão quando comparadas a outras raças (com um valor-P bastante significativo).

Finalmente, observa-se que a ocorrência de lacerações perineais de terceiro grau não é algo rotineiro na casuística do Hospital Veterinário, uma vez que representam apenas 6% dos casos atendidos, mas conforme descrito na literatura, seu tratamento incorreto pode trazer sérios riscos tanto ao desempenho reprodutivo quanto à vida da égua, não podendo de forma alguma ser dado a esse menor importância.

Posteriormente, um novo projeto buscando fatores de risco externos à égua, tal qual o tamanho do garanhão ou o número de partos da égua (informações indisponíveis no arquivo do Hospital Veterinário) poderia ser estimulado a partir dos resultados dessa pesquisa.

Referências

2AANES, W. A. Surgical repair of tiraddegree perineal laceration and rectovaginal fistula in the mare. Journal American Veterinary Medical Association. V. 144, n. 5, p. 485-491, 1964.

9ARTHUR, G., NOAKES, D. E., PEARSON, H., PARKIMSON. T., 1996. Veterinary Reproduction & Obstetrics, Seventh Edition, W. B. Saunders Company Ltd, London.

10BERTRAND, C. Pneumovagina e vulvoplastia na égua. A Hora Veterinária – Ano 15, n. 86, jul./ago./1995. Tradução e adaptação: A. J. de Vargas Cheuiche.

3COLBERN, G.T., AANES, W.A., STASHAK, T.S. Surgical management of perineal lacerations and retovestibular fistulae in the mare: A retrospective study of 47 cases. Journal American Veterinary Medical Association, v. 186, n. 3, p. 265-269, 1985.

HEINZE, C. D. Repair of Third-Degree Perineal Laceration in the Mare. Vet. Scope. Kalamazoo, 11 (1): 12-5, 1966.

7HOOPER, N.; CARTER, K.; VARNER, D. D.; TAYLOR, S.; BLANCHARD, L. T. Postparturient Hemorrhage in the Mare: Managing Lacerations of the Birth Canal and Uterus. Veterinary Medicine, January/1994: 57-63.

5HULL, B. L., 1995. Female Reproductive Surgery. The Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice, 11 (1): 37-47.

6PAPA, F.O., ALVARENGA, M.A., BICUDO, S.D., MEIRA, C., PRESTES, N.C. Modificações na técnica de correção cirúrgica de dilaceração perineal de 3º- grau em éguas. Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science. V. 29, n. 2, p.239-250, 1992

8REZENDE, M. A. C. Seminário de Clínica: Perineorrafia em Vacas e Éguas; Belo Horizonte, 19 de Junho de 1980.

1STAINKI, D. R., GHELLER, V. A. Laceração Perineal e Fístula Reto-Vestibular na Égua: Uma Revisão; Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fzva/article/viewFile/2130/1639>. Acesso em: Dez. 2011

4TROTTER, G. A. Surgical diseases of the caudal reproductive tract. In: AUER,J. A. Equine Surgery. Philadelphia: Saunders Company. Cap. 69, p. 730 – 749. 1992.

10WILLIANS, W.L. Veterinary obstetrics. New York: Published by the author, 1909. cap. Rupture of the perineum: p. 857-862.

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