Evolução do mercado de leilões de 1985 a 2015

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A equinocultura brasileira, como os demais setores da economia, não ficou incólume aos eventos econômicos e políticos verificados nos últimos anos, tanto no mundo quanto no Brasil. Entretanto, o impacto foi inferior às expectativas. Os leilões são um bom termômetro para analisar a força e resistência do mercado. Se considerarmos os valores deflacionados (isto é, eliminando o efeito da inflação nos valores monetários) verifica-se o forte crescimento do mercado nos últimos 20 anos, mais que quintuplicando a renda no período (Figura 1). É verdade que houve uma queda n o ano de 2012 (a exemplo da economia como um todo), mas rapidamente retornou a trajetória de crescimento, movimento, atualmente, cerca de meio bilhão de reais. Neste artigo, discutiremos que o mercado de leilões evoluiu muito nas duas últimas décadas, muito por inovações ocorridas como no leilão do Haras Esperança (discutido adiante), mas necessita ser reestruturado, especialmente nas relações entre compradores, vendedores e leiloeiros. Houve grande evolução no formato do evento, não acompanhada de desenvolvimento das atividades relacionadas aos serviços financeiros, a despeito das inovações da indústria financeira em outros setores da economia.

Figura 1 – Brasil: evolução da renda apurada em leilões de cavalos, exceto raça PSI, no período de 1995 a 2015, em milhões de Reais de outubro de 2016. Fonte: DBO Editores Associados, deflacionado pelo IPCA.

No Brasil há diversos tipos de leilões de equinos, diferenciados pelas características dos animais comercializados, ou seja, há leilões somente de uma raça, leilões de animais de lida, de esporte, lazer, exposição. Além de animais, os leilões podem apregoar lotes referentes a coberturas e a embriões. Os leilões também podem ser mistos, nos quais qualquer animal pode ser leiloado. Adicionalmente, os leilões podem ser organizados com cavalos de apenas um criador, sendo que muitas vezes, no mesmo evento, são comercializados cavalos de algum convidado do criador promotor do leilão. Existem leilões simples onde o vendedor leva seu animal no dia do arremate e o comprador já o leva no mesmo dia. Porém existem os mais sofisticados que são os leilões com uma série de preparações, publicação em sites, entrega de catálogos, folhetos, propagandas, visita aos locais onde os cavalos ficam preparados para o leilão. Em alguns casos são exigidos exames clínicos. Nos últimos anos, com o avanço da tecnologia, tem ocorrido incremento de leilões virtuais (pela internet e televisão), como o Canal Rural, Canal do Boi e Canal Terraviva. Esta modalidade já representa cerca de 40% dos eventos realizados.

Embora existam mais de cem empresas atuando em leilões de cavalos, os eventos estão concentrados em menos de dez empresas. Observa-se que as empresas leiloeiras podem ser tanto especializadas em determinada raça quanto podem realizar leilões de animais de diferentes raças. Aproximadamente 90% da renda origina-se de apenas quatro raças (Quarto de Milha, Crioulo, Mangalarga Marchador e Puro Sangue Inglês). A Figura 2 apresenta a evolução da renda apurada nos leilões dessas raças, exceto o PSI (que movimenta cerca de R$ 60 milhões anuais).

Figura 2 – Brasil: evolução da renda apurada em leilões de cavalos das principais raças, exceto raça PSI, no período de 1995 a 2015, em milhões de Reais, valores nominais.
Fonte: DBO Editores Associados

Apesar da importância dos leilões no comércio de cavalos, ainda há alguns pontos que necessitam maior esclarecimento. Em primeiro lugar, a forma de pagamento parcelado nem sempre é clara para o comprador não habitual de leilões. Cada leilão e leiloeiro têm seu jeito de negociar, assim eles estipulam a quantidade de parcelas e como elas vão ser pagas. A quantidade de parcelas varia assim como a forma de pagamento são as mais diversas possíveis: 2 parcelas no ato da compra; 2 parcelas no primeiro mês; 16 parcelas no segundo mês; 2 parcelas no terceiro mês; 2 parcelas no quarto mês; e, muitas outras possibilidades de combinações. Outro aspecto relevante, herança do passado menos organizado do setor, são práticas pouco transparentes no mercado. Como qualquer um pode dar lance em um animal, existe a possibilidade de o próprio vendedor o fazer, com intuito de elevar o preço do animal, tentando assim explorar ao máximo o poder de compra dos interessados. Pode-se questionar a ética, mas é comum que o próprio vendedor acabe comprando seu animal, uma vez que ninguém teve interesse em cobrir o lance dado por ele. Quando isso ocorre é chamado de defesa. Também pode ocorrer do animal ser comercializado (acertado o preço) antes do leilão. O animal, já vendido, é apresentado no leilão onde o comprador simula a compra por valores superiores ao real (acertado anteriormente). Estas duas práticas, a defesa e a venda antecipada podem representar parcela significativa de leilões, variando conforme a prática do leiloeiro associado ao evento. Estima-se que as operações transparentes, ou seja, efetivamente de compra e venda de animais, represente 70% da renda citada anteriormente (isto é, 70% de meio bilhão de Reais, equivalente a R$ 350 milhões)

Os leilões podem ser particulares ou de associações. Usualmente, os animais são preparados, deixando-os em bom estado físico, com cuidados especiais em relação aos pelos, rabo e crina. Muitas vezes, o cavalo é maquiado (focinho, orelhas e olhos) e o casco é pintado. O volume financeiro envolvido nesses cuidados oscila de acordo com o número de animais do lote e a complexidade dos arranjos. O mercado brasileiro possui empresas comercializando linhas diferenciadas de cosméticos, inclusive com ação anti-inflamatória e bactericida. Este mercado conta ainda com shampoos, sabonete, repelentes, desembaraçadores e outros produto específicos para as diferentes pelagens e com diferentes essências (camomila e nogueira, entre outras).

A organização de um leilão exige, além da equipe de leiloeiro e pisteiros, a coordenação de diversas atividades como, por exemplo: aluguel e decoração do recinto, buffet, mídia, folhetos, hotéis e translados para convidados, entre outras. Um leilão de grande porte (acima de R$ 1 milhão) envolve o trabalho direto de 40 a 50 pessoas. A complexidade desta organização varia conforme o tipo de evento, desde leilões virtuais – mais simples, que custam poucas dezenas de milhares de reais– até mega eventos em casas de espetáculos.  Neste último, o custo do leilão pode atingir centenas de milhares de reais.

Atualmente, os leilões têm obtido ampla exposição e de grande alcance através de programas em canais de televisão, como o Canal Rural, Canal do Boi e Canal Terraviva. Entretanto, há 20 anos não era essa a realidade brasileira. O Leilão de liquidação de cavalos Árabes do Haras Esperança foi um marco para evolução do mercado de leilões.

No início da década de 1980, em consequência de reformas econômicas do Governo Reagan (Estados Unidos), houve grande oferta de cavalos no mercado mundial. A crise no mercado norte-americano, que pode ser exemplificada pelos números apresentados na Tabela 1) afetou o mercado brasileiro. Fato relevante, fruto desse cenário econômico, foi o último leilão LICA (Leilão Internacional do Cavalo Árabe), em fevereiro de 1986, dos Haras Canapuan (propriedade do industrial Cláudio Bardella), Haras Esmeralda (dos pecuaristas Omar e Romildo Carvalho Cunha), Haras Esperança (do empresário Antonio Affonso Archilla Galan e família) e Haras Morro Vermelho (propriedade do empresário Sebastião Ferraz de Camargo Penteado – leia-se Camargo Correa).

 

Tabela 1. Estados Unidos: Resultado dos leilões de cavalos árabes, valores médios, em dólares, por animal, fevereiro de 1984, 1985 e 1986

Leilão 1984 1985 Variação

1985/84

1986 Variação

1986/85

1 Lasma Classic 435.800,00 290.781,00 -33,28% 167.483,00 -42,40%
2 Tom Chaucey 39.023,00 -100,00% 40.809,00
3 Baywood Park 96.078,00 79.322,00 -17,44% 34.704,00 -56,25%
4 Lasma Invitational 213.029,00 0,00 -100,00% 93.968,00
5 Karho 189.892,00 189.741,00 -0,08% 98.907,00 -47,87%
6 American Sale 116.600,00 167.000,00 43,22% 0,00 -100,00%
7 Clay´s Scottsdale Sale 29.583,00 31.133,00 5,24% 0,00 -100,00%
8 Karho Collection 75.548,00
9 Daughters of Bask 179.000,00
10 Kent Ltd 50.078,00
Total 1.120.005,00 757.977,00 -32,32% 740.497,00 -2,31%
Média 160.000,71 108.282,43 -32,32% 74.049,70 -31,61%

Fonte: Diversos números da revista americana de cavalos árabes “Arabian Horse World”, publicação mensal

 

Naquela época, anos 80 do século passado, as vendas de animais tornaram-se espetáculos com produções sofisticadas, incluindo shows com efeitos especiais, cenários e trilhas sonoras remetendo a filmes ou séries televisivas (2001 – Uma Odisséia no Espaço, cenários simulando a noite no deserto, entre outros). Em meados da década de 1980, um dos principais haras do Brasil, o Esperança, decidiu por realizar a liquidação de seu plantel de cavalos Árabes. O planejamento e viabilidade desse leilão implicou em importantes inovações no segmento de leilões.

Como forma de diferenciação, a partir da experiência de leilão ocorrido em 01 de março de 1986 (Grande Leilão NA), a venda foi estruturada para contemplar maior prazo de pagamento. Deve-se considerar que, naquele momento, o cenário econômico modificou-se drasticamente, com o Plano Cruzado. Até então, o usual eram as vendas diretas de cavalos nos próprios haras, onde o comprador tinha oportunidade de conhecer e inspecionar tanto o animal quanto as características de seu manejo.

A Embrapa (São Carlos) e empresas pioneiras realizaram os primeiros leilões, bem sucedidos, mas predominantemente com pagamento a vista. Prazo para pagamento, quando ocorria, limitava-se a seis parcelas mensais. O leilão do Haras Esperança, que contou com mais de 2.000 pessoas na antiga casa de espetáculos Palace na cidade de São Paulo, foi realizado com pagamento em 36 parcelas mensais corrigidas pela OTN. O resultado foi acima do esperado, tendo sido o maior leilão do mundo de 1986 em volume de vendas.

Assim como há 20 anos os leilões foram revolucionados, especialmente no formato do evento, hoje é necessário reformular a parte operacional, as relações entre compradores e vendedores. A inadimplência, aparentemente baixa (não há dados oficiais disponíveis), é uma preocupação do vendedor, com pouco apoio do leiloeiro. Os processos de cobrança e demais serviços financeiros ligados ao leilão são conduzidos, muitas vezes, de forma pouco profissional, mais na boa vontade dos agentes do que com bases técnicas e tecnológicas de instituições financeiras de ponta. Melhores serviços financeiros deveria ser o foco para sustentabilidade do mercado de leilões de cavalos.

Autores:

Roberto Arruda de Souza Lima – Professor da ESALQ/USP. Coordenador do Equonomia

Antonio Afonso Archilla Filho –  Engenheiro, Haras Esperança.

Fonte: Coluna e Economia da Revista +Equina

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