Exame Físico Odontológico

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Introdução

Vamos discutir algo que talvez possa ser corriqueiro e de domínio dos colegas que trabalham e já possuem experiência com a odontologia equina, mas espero contribuir principalmente com aqueles que estão começando na área ou possuem interesse em conhecer sobre a base do exame odontológico em cavalos.

O exame físico da cabeça e da cavidade oral é extremamente importante na montagem do quebra-cabeça que visa o diagnóstico das doenças dentárias. A avaliação criteriosa da boca é essencial para definir as condições da saúde bucal, diagnosticar problemas odontológicos e monitorar a eficácia terapêutica em resposta ao tratamento estabelecido.

O exame físico de qualidade está alicerçado sobre o tripé: Contenção química de qualidade – Equipamentos adequados – Conhecimento da anatomia da cabeça, da cavidade oral e dos elementos dentários.

1.Contenção Química:

A utilização de alfa dois adrenérgicos (Xilazina, Detomidina ou Romifidina) e opioides (Butorfanol ou Morfina) é essencial, para diminuir ou cessar movimentos de contração dos vestíbulos, da língua e da cabeça, que atrapalham na avaliação da cavidade oral e na aplicação de alguns procedimentos terapêuticos.

A associação de Detomidina (0,01-0,02mg/Kg I.V.) com Butorfanol (0,01-0,02mg/Kg I.V.) é mundialmente utilizada na odontologia equina, tanto para avaliações odontológicas quanto para procedimentos mais invasivos e dolorosos como as exodontias e curetagens periodontais. O uso dos dois fármacos em associação é responsável por causar efeitos sinérgicos na sedação, analgesia e relaxamento muscular.

2.Equipamentos Adequados:

Os equipamentos abaixo descritos são necessários para a avaliação da cavidade oral (figura 1):

A-Espéculo oral adequado para o acesso fácil e seguro da cavidade oral;

B-Cabresto ou apoiador odontológico;

C-Seringa ou bomba de lavagem com diferentes ponteiras;

D-Fotóforo ou outro tipo de fonte de luz intraoral, de preferência de LED;

E-Espelhos odontológicos de diferentes tamanhos e diâmetros;

F-Retratores vestibulares e/ou afastadores de língua;

G-Exploradores periodontais e de canais pulpares e sondas milimetradas de diferentes tamanhos e diâmetros;

H-Câmeras intraorais, boroscópios ou endoscópios.

 

 

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Figura 1: Equipamentos utilizados para a avaliação da cavidade oral em equinos. A: Espéculo oral. B: Cabresto ou apoiador odontológico. C: Bomba de lavagem com diferentes ponteiras. D: Fotóforo. E: Espelhos odontológicos de diferentes tamanhos e diâmetros. F: Retrator vestibular. G: Sondas milimetradas e exploradores de diferentes tamanhos e diâmetros. H: Endoscópio rígido.

3.Conhecimento Anatômico da Cabeça, da Cavidade Oral e dos Elementos Dentários:

O profissional deve estar familiarizado com a anatomia dos tecidos moles adjacentes (língua, palato, vestíbulo e periodonto) e com a anatomia e particularidades dos dentes (decíduos e permanentes) listadas abaixo:

– Variações no formato e posicionamento dos variados grupos dentários nas diferentes faixas etárias;

– Número de dentes decíduos e permanentes (fórmula dentária);

– Tempo de erupção e muda dentária;

– Identificação, localização e classificação dos canais pulpares e dos infundíbulos;

– Conhecimento da distribuição e identificação dos diferentes tecidos e das pregas de esmalte;

– Conhecimento do ângulo de oclusão e da curva de Spee (leve curvatura dorsoventral observada na maxila e mandíbula no sentido mesial para distal, acentuada a partir dos molares. Em animais de Sangue Árabe e em raças miniaturas a curvatura é mais evidente).

Sequência do Exame Físico

A sequência abaixo descrita pode ser usada como guia para o exame físico odontológico.

1-Escore Corporal: O exame físico se inicia pela inspeção do escore corporal. Animais que apresentam lesões significativas nos tecidos moles adjacentes (língua, vestíbulos e/ou palato) causadas por afecções dentárias ou doença periodontal moderada a grave desenvolvem alterações na biomecânica mastigatória que podem influenciar na perda do escore corporal. Isso não quer dizer que todos os equinos com condição corporal ruim sofram de doença dentária, pois existem outros fatores (endo e ectoparasitoses, doenças infecciosas e metabólicas) que podem levar a perda de peso. No entanto, fato do animal apresentar condição corporal ideal ou estar obeso não significa que ele não tenha problemas odontológicos; os equinos possuem alta capacidade de adaptação frente às anormalidades dentárias.

2-Hidratação: Na sequência devemos avaliar a hidratação (coloração de mucosas, turgor de pele, refil jugular, frequência cardíaca). Esta etapa é de grande importância, pois o animal será submetido a protocolos de contenção química, e caso não apresente bom quadro hemodinâmico, o risco de hipotensão e hipomotilidade intestinal aumenta.

3-Inspeção e Palpação do Crânio: Devemos observar a simetria da face (vestíbulos) (Figura 2) e dos grupos musculares (Masseter e Temporal) (Figura 3), aumentos ósseos nos ramos vertical e horizontal da mandíbula e na maxila (Figura 4), além de aumento dos linfonodos submandibulares.

Figura 2: Características de animais com alterações na face devido à alterações dentárias. A: Assimetria da face esquerda (seta vermelha), ocasionada por deslocamento vestibular de fragmento dentário (imagem à direita). B: Assimetria da face esquerda (seta vermelha), ocasionada por acúmulo de alimento devido à doença periodontal no dente 207.

Figura 3: Características de animais com alterações musculares na cabeça devido à lesões odontológicas. A: Assimetria do masseter, observada pela atrofia muscular do masseter direito, em comparação com o esquerdo (figura à direita) B: Atrofia muscular do temporal direito (seta vermelha).

Figura 4: Características de animais com aumentos ósseos devido a infecção periapical A: Aumento ósseo maxilar (seta vermelha), ocasionado por abscesso apical no dente fraturado (imagem à direita). E: Aumento ósseo mandibular (seta amarela), ocasionado por abscesso apical no dente com exposição dos canais pulpares 1 e 2 e fissura oclusal sagital (imagem à direita).

4-Palpação Externa dos Vestíbulos: A palpação externa da face permite avaliar a porção bucal (vestibular) dos pré-molares e molares superiores sem colocar a mão no interior da cavidade oral. Este procedimento também pode revelar bolsas de acúmulo de matéria orgânica ou grandes irregularidades, como a ausência de um dente ou grandes alterações de oclusão dentária (degraus ou ganchos). Mesmo quando nenhuma anormalidade é sentida, a presença de dor (indicada pela movimentação da cabeça) durante o exame geralmente indica a presença de pontas excessivas de esmalte no bordo vestibular dos dentes superiores.

5-Avaliação dos Incisivos: Caninos e do Diastema: Devem-se afastar os lábios superiores e inferiores para inspecionar os dentes incisivos, os caninos e a barra (região do distema natural).

 

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6-Determinação do Movimento Rostrocaudal da Mandíbula: O movimento rostrocaudal da mandíbula pode ser avaliado pela movimentação entre os incisivos superiores e inferiores quando a cabeça é elevada e em seguida abaixada. A cabeça deve ser erguida e estendida o máximo possível e na sequência abaixada e flexionada até a posição vertical. Em condições normais, quando a cabeça é erguida e estendida ocorre leve movimentação caudal da mandíbula, e quando ela é abaixada e flexionada, ocorre leve movimentação rostral. Quando existem alterações de oclusão moderadas a graves nos pré-molares e molares, o movimento rostrocaudal da mandíbula fica diminuído. A variação normal do movimento para potros é de 3 a 4 mm e para os adultos de 6 a 8mm (Figura 05).

Figura 5: Diagrama do Movimento Rostrocaudal da Mandíbula. A: O abaixamento e a flexão da cabeça causa movimentação da mandíbula em sentido rostral. B: O levantamento e a extensão da cabeça causa movimentação da mandíbula em sentido caudal.

7-Avaliação da Excursão até o contato molar e da Excursão Lateral Total: A excursão até o contato molar (ECM) é a distância que a mandíbula movimenta lateralmente até o contato dos dentes vestibulares. Os dentes vestibulares rostrais contactam primeiro e os dentes vestibulares caudais contactam posteriormente com a continuidade do movimento lateral da mandíbula. A excursão lateral da mandíbula é realizada posicionando-se de frente para o animal. Primeiro posiciona-se a mão por baixo do lábio superior, fixando a pré-maxila, e depois empurra-se a mandíbula lateralmente com o polegar para um lado até o contato dos dentes vestibulares. Depois, repete-se o mesmo movimento para o outro lado.

Esse movimento lateral da mandíbula, da posição central até o primeiro contato, deve ser mensurado. Na sequência, a mandíbula volta a ser tracionada até a abertura completa dos incisivos; esse segundo movimento é denominado de Excursão Lateral Total da Mandíbula (ETM). O valor médio da ECM em raças leves é de 12,3mm, com variação média de 3,1mm, enquanto o valor médio da ETM é de 45mm, com variação média de 5mm.

Durante a realização da Excursão Total da Mandíbula é possível ouvir e sentir o contato oclusal dos dentes vestibulares. A excursão lateral normal produz vibração e som relativamente sutis a moderados. Conforme a prática e a experiência, o avaliador aprende a diferenciar o som e o atrito do contato oclusal de animais com alterações de oclusão moderadas a graves, de animais com alterações mais leves.

Alterações nos valores mensurados, som e atrito durante a realização dos movimentos podem ser indicativos de contato dentário anormal ocasionado por alterações de oclusão nos dentes vestibulares.

8-Avaliação do Ponto de Contato Oclusal dos Pré-molares e Molares: Após a sedação do animal é realizada a excursão lateral da mandíbula, e com o auxílio de um retrator vestibular, é verificada a oclusão dos dentes vestibulares. A ideia é verificar se há o contato simultâneo de todos os dentes ou se o contato durante a excursão é realizado apenas em alguns elementos dentários.

9-Palpação direta dos Pré-molares e Molares: Após a sedação e abertura da boca com espéculo, é realizada a palpação com três dedos (polegar, indicador e médio) das quatro unidades funcionais dos dentes pré-molares e molares. Nas fileiras inferiores, o dedo indicador é colocado sobre a superfície de oclusão, o polegar na face lingual e o dedo médio na face vestibular. Nas fileiras superiores o dedo médio é colocado na face palatina, o indicador na face oclusal e o polegar na face vestibular. Dessa maneira é possível contar os dentes e sentir pequenas irregularidades presentes na coroa clínica, como fraturas em lasca e aumentos do espaço interdental (ausência dentária ou diastemas abertos), o que irá ajudar a direcionar a inspeção com o espelho odontológico.

10-Inspeção Direta e Avaliação do Odor da Cavidade Oral: Devido à combinação de fatores que incluem o ângulo de abertura limitado da boca, o posicionamento rostral das comissuras labiais e o comprimento das hemiarcadas dentárias, é extremamente difícil examinar visualmente os dentes vestibulares, particularmente os dentes da porção distal (molares). Após o animal estar devidamente sedado, é colocado o espéculo oral, a cabeça é apoiada sobre o cabresto odontológico e a boca é minuciosamente lavada, com o auxílio de seringa ou bomba de lavagem, para a retirada de toda a matéria orgânica. Qualquer porção de alimento que encoberte um único elemento dentário pode ser o bastante para esconder uma fratura, cárie ou bolsa gengival. No momento da lavagem é avaliado também o odor da cavidade oral, onde alterações de odor (halitose) podem indicar compactação de alimento sobre dente (fraturas ou cavitações) ou entre o dente e o periodonto. A Halitose ocorre devido à fermentação bacteriana da matéria orgânica compactada. A inspeção direta da cavidade oral é extremamente importante e deve ser realizada com o auxílio de espelhos, retratores vestibulares e fonte de luz com adequada luminosidade. Utilizando espelhos odontológicos é possível inspecionar todas as faces (lingual, vestibular, palatina, oclusal, mesial e distal) dos elementos dentários das quatro hemiarcadas. Existem espelhos de diversos formatos e tamanhos, o que possibilita acessar de maneira adequada até a região mais distal da cavidade oral (mais próximo do palato mole), onde o espaço é mais estreito.

Apesar de parecerem manobras simples, o profissional deve praticar o direcionamento da luz do fotóforo para diferentes pontos da cavidade oral, e deve também aprender a colocar o espelho odontológico nos mais diferentes pontos da boca, sabendo lidar com os movimentos constantes da língua e dos vestíbulos.

Considerações finais

Durante muitos anos, as alterações odontológicas foram ignoradas devido à falta de conhecimento sobre morfofisiologia dentária, exame físico da cavidade oral, exames complementares e apresentação clínica das doenças odontológicas, somadas ainda à ausência de equipamentos específicos para a realização dos procedimentos. Até o final do século passado, o exame físico odontológico consistia em colocar o dedo indicador entre o vestíbulo e os pré-molares superiores para palpar as “pontas de dente” ou segurar a língua com mão e empurrá-la contra o palato ou puxá-la para fora da boca, para tentar visualizar o interior da cavidade oral. Ambos os procedimentos eram realizados sem qualquer fonte de luz e sem o uso de técnicas de sedação, o que tornava o procedimento perigoso para o profissional e para o paciente.

Atualmente, graças ao desenvolvimento e difusão do conhecimento na área, aliado ao aperfeiçoamento dos equipamentos, é possível realizar o adequado exame físico odontológico. O treinamento, a utilização de equipamentos adequados e o desenvolvimento de sequência na execução do exame auxiliam o profissional a criar uma rotina para não esquecer nenhuma etapa. Além disso, o registro das informações coletadas em fichas odontológicas (odontograma) permite ao profissional acompanhar melhor a saúde bucal do paciente, além de transparecer comprometimento e profissionalismo aos olhos do proprietário.

O exame físico criterioso tem importante papel profilático na odontologia, pois auxilia na definição do diagnóstico precoce das doenças, evitando a ocorrência de perdas dentárias prematuras.

Referência

1-Allen, T. Manual of Equine Dentistry. St. Louis: Mosby, 2008. 207p.

 

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