Hipópio em equinos

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O olho é composto por diversas estruturas, cada uma delas possui uma função específica, incluindo estruturas acessórias, em um sistema complexo com o objetivo de registrar e converter todos os estímulos de luz do ambiente em sinais elétricos que serão transportados até o encéfalo e formarão a imagem final. (König & Liebich, 2011).

 

 

Figura 1 – Fonte: Revista Acontece Sul Figura 2 – Fonte: Equine Iridology UK

As partes que compõem o órgão da visão equina são bem parecidas com as de outros animais e do homem. Há três espaços no interior do órgão (Figura 3), as câmaras anterior e posterior compreendem os espaços entre córnea e íris, e entre íris, corpo ciliar e a lente, respectivamente. A terceira câmara é chamada de vítrea, compreende o espaço entre a lente e a retina (Diaz, 2004; König & Liebich, 2011).

 

Figura 3 – A anatomia do olho equino. A câmara anterior (seta vermelha) e a câmara posterior (seta amarela). Fonte: Dra. Lynne Sandmeyer/Tradução e edição: Artur Antero

O espaço entre a córnea e a íris, denominado câmara anterior, é preenchido por um líquido translúcido de baixa viscosidade, chamado humor aquoso. A superfície da córnea associada ao filme lacrimal é responsável pela maior parte da refração do olho, e sua transparência é uma propriedade extremamente importante para permitir a passagem da luz ambiente e formação da imagem final (Forrester, 2015).

O termo hipópio (Figura 4) se refere à presença e acúmulo de pus na câmara interior do olho, achado clínico comum em processos inflamatórios e infecciosos que acometem a córnea, úvea e outras estruturas oculares.

Figura 4 – Quadro severo de uveíte anterior resultando em hipópio na câmara anterior. Fonte: Veterian Key

Segundo Brooks et al. (2017), qualquer injúria ou insulto na região, normalmente, resulta em perda da transparência permanente ou por longos períodos, comprometendo a visão do cavalo. A córnea equina é vulnerável a insultos traumáticos, tóxicos ou infecciosos, sendo a razão mais comum para o atendimento oftalmológico na prática da clínica equina.

Figura 5 – Traumas mecânicos são bastante comuns na clínica equina. Fonte: Thal Equine LLC

Estes traumas geralmente são a causa inicial das ceratites ulcerativas (Figuras 6 e 7), que também podem acometer animais com alguma doença sistêmica e secundário ao entrópio, a diminuição do número de piscadas, o decúbito prolongado, o contato direto da córnea com o chão e a cama, causando uma injúria inicial. Uma vez que o epitélio da córnea é comprometido, bactérias ou fungos iniciam sua colonização no estroma, estabelecendo a infecção e induzindo a concentração de células inflamatórias (Brooks et al., 2017).

Figura 6 e 7 – O teste da Fluoresceína é utilizado para identificar áreas de úlcera na córnea. Nas imagens, as áreas ulceradas são coradas pelo colírio. Fontes: Metamora Equine e Northern Illinois Equine Veterinary Service

A avaliação diária desses cavalos deve ser realizada, se possível, pois o quadro clínico pode variar de úlceras superficiais e não infectadas com potencial de evolução a úlceras mais graves com presença de edema de córnea, infiltrado celular e melting (Figura 8) (do inglês = derretimento). Além disso, o equino pode apresentar uveíte anterior secundária, pressão intraocular reduzida, flare aquoso (aspecto leitoso do humor aquoso), coágulos de fibrina e hipópio (Figura 9) (Brooks et al., 2017).

Figuras 8 e 9 – O melting (esquerda) e olho com ceratite causada por fungos, apresentando hipópio (direita). Fonte: ACVS e North Florida Equine.

Segundo Gilger et al. (2017), por definição, a uveíte é a inflamação da úvea, camada formada pela íris, corpo ciliar e coroide. Sendo a uveíte anterior, o processo que acomete primariamente a íris e o corpo ciliar, porém em equinos, usualmente, todas as áreas da camada estão afetadas. A inflamação pode ser aguda, crônica ou recorrente, como no quadro de Uveíte Recorrente Equina (URE), no qual, a inflamação pode estar ativa ou não. É necessário que o médico veterinário saiba diferencia-las, uma vez que a uveíte aguda tem variadas causas e a URE é uma enfermidade imunomediada.

O hipópio também é um sinal clínico apresentado por equinos que apresentam uveíte (Figura 10). O início do quadro pode ser causado por traumas, infecções bacterianas por Leptospira e Rhodococcus equi, infecções virais por Influenza ou Herpesvirus, infecções parasitárias por Onchocerca, Strongylus e Toxoplasma, além de desordens secundárias, como por exemplo, neoplasias, processos endotoxêmicos ou septicêmicos, e até mesmo por abscessos na raiz dentária (Gilger et al., 2017).

Figura 10 – Animal com início de uveíte aguda, apresentando hipópio. Fonte: BlindAppalloosas.org

A avaliação do olho equino por profissional qualificado é importante, não só nas afecções oculares, mas do ponto de vista da avaliação física. Os olhos refletem outros tipos de enfermidades sistêmicas, uma vez que através da coloração amarelada da conjuntiva, por exemplo, pode-se indicar algum problema hepático ou em quadros de anemia hemolítica. Proprietários, tratadores e médicos veterinários devem avaliar rotineiramente os olhos dos cavalos, por sua posição lateralizada estão predispostos a traumatismos, e qualquer problema pode ser tratado ainda no início, proporcionando bem-estar ao animal e permitindo que o animal não tenha sua visão prejudicada.

 

Texto por: Artur Antero S. Amorim, 9º período, Universidade Federal de Goiás.

Edição e Revisão: Deivisson Ferreira Aguiar – Médico Veterinário

 

REFERÊNCIAS:

 

BROOKS D. E.; MATTHEWS, A.; CLODE A. B. Diseases of the cornea. In: GILGER, Brian C. (Ed.). Equine ophthalmology. 3 ed. John Wiley & Sons, 2017. p. 252-368.

CASASNOVAS, Antonio F.; AYUDA, Tomás C.; ABENIA, Javier F. A exploração clínica do cavalo. São Paulo: Editora MedVet, 2011. p. 55-74.

DIAZ, O. S. Ultrasound of the equine eye and adnexa and clinical applications. Clinical techniques in equine practice, v. 3, n. 3, p. 317-325, 2004.

FORRESTER, J. V.; DICK, A. D.; MCMENAMIN, P. G. et al. The eye: basic sciences in practice. 4ed. Elsevier Health Sciences, 2016. p. 1-103.

GILGER C.; HOLLINGSWORTH S. R. Diseases of the uvea, uveitis, and recurrent uveitis. In: GILGER, Brian C. (Ed.). Equine ophthalmology. 3 ed. John Wiley & Sons, 2017. p. 369-415.

KÖNIG, H. E. Anatomia dos Animais Domésticos: Texto e Atlas Colorido. 4ed. Porto Alegre: Artmed Editora, 2011. p. 591-611.

 

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