Hormonioterapia na Sincronização de Estro e Indução da Ovulação em Éguas

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Na espécie equina, há grande variabilidade na duração do período estral e no período entre seu início e a ovulação. As éguas são consideradas poliéstricas estacionais, ou seja, têm ciclo reprodutivo dividido em período de competência sexual (Estação reprodutiva) durante a primavera/verão e de incompetência sexual (Estação não reprodutiva) no outono/inverno, sendo esta característica marcante nas regiões onde há grande variação fotoperiódica durante o ano, fazendo com que fora desta estação elas apresentem períodos prolongados e anovulatórios (Transição de primavera e transição de outono), além do anestro que se estenderá de maio à agosto no Brasil, conforme Oliveira e Souza, 2003.

A maioria dos métodos de sincronização usados para controlar a ovulação em animais domésticos modifica a fase luteínica do ciclo estral. PGF2α tem sido administrado em éguas de cria para diminuir a vida útil do corpo lúteo e então induzir o estro (BLANCHARD et al., 2003). Segundo Farias et al., 2016, existem vários agentes hormonais disponíveis para indução de ovulação na indústria equina e, atualmente, as drogas mais comumente utilizadas incluem a Gonadotrofina Coriônica Humana e análogos do GnRH (especialmente a Deslorelina).

 

Prostaglandina (PGF2α):

A PGF2α é considerada o agente luteolítico primário em éguas, pois, em fêmeas não gestantes, controla a lise do corpo lúteo (CL) que ocorre após sua liberação pelas células endometriais entre os dias 13 e 16 após a ovulação. Apresenta uma excepcional contribuição quando utilizada sozinha para indução de cio em éguas cíclicas ou quando em apoio ao uso de biotécnicas como a inseminação artificial e a transferência de embriões (BLANCHARD et al., 2003).

Pode ser utilizada para finalizar uma fase luteal persistente ou anestro lactacional, controlar o tempo de ovulação, induzir a secreção de gonadotrofinas, sincronizar o estro e eliminar pseudogestação. Por seu efeito indireto sobre a liberação de GnRH e, consequentemente, de hormônio luteinizante (LH) e hormônio folículo estimulante (FSH), a PGF2α também pode ser utilizada para estimular o crescimento folicular e a ovulação em éguas transicionais (MCKINNON, 2009).

Conforme relatos de Blanchard et al., 2003, tratamentos com PGF2α em éguas com corpo lúteo desenvolvido resultam no estro em (Em média) 2 a 4 dias e na ovulação em 7 a 12 dias. Entretanto, os momentos do estro e da ovulação podem ser facilmente perdidos se a rufiação e o monitoramento regular do crescimento folicular não são iniciados quando a PGF2α é aplicada.

 

Gonadotrofina coriônica humana (hCG):

A hCG é uma glicoproteína produzida pela placenta humana e, na espécie equina, possui semelhanças com o LH (Hormônio luteinzinante), iniciando a maturação do oócito (CARNEVALE e COX, 2008) e consequente ovulação (MCCUE et al., 2007). Por sua ação similar ao LH, a hCG tem sido usada com eficácia na indução da ovulação em éguas, pois reduz a duração do estro e o intervalo até a ovulação (dentro de 48 h), reduzindo o número de inseminações e de coberturas necessárias por estro (LEY, 2006).

Os requisitos básicos para sua aplicação são a presença de um folículo >35 mm de diâmetro no ovário e edema uterino avaliado em 2 ou 3 (escala de 0 a 3, LEY, 2006). Apesar de ser o agente indutor de ovulação mais utilizado, McKinnon, 2009, discute sobre uma potencial perda da eficácia do uso de hCG relacionada à formação de anticorpos após sucessivas administrações. Em razão disso, McCue et al., 2007, recomenda seu uso por no máximo uma a duas vezes a cada estação de monta.

Análogo do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH) – Deslorelina:

Análogos do GnRH são relatados na indução de ovulação em equinos com eficácia, estes aceleram a ovulação de folículos pré-ovulatórios (Especialmente a Deslorelina) pelo fato de estimularem a liberação de LH e Hormônio Folículo Estimulante (FSH) a partir da glândula hipófise anterior (CAMPBELL, 2012). Pode ser utilizado para iniciar um crescimento folicular ou para indução da secreção de FSH em éguas em anestro ou que não desenvolvem folículo pré-ovulatório durante a estação de monta (MCKINNON, 2009).

Uma vantagem do uso da deslorrelina é que os anticorpos contra este composto, os quais deveriam reduzir sua efetividade com seu uso repetido, não são formados (BLANCHARD et al., 2003). Samper et al., 2002 constatou que a eficiência deste análogo do GnRH em reduzir o número de coberturas, bem como o número de visitas do veterinário para realizar o controle folicular, torna-a de grande auxílio para os programas de transferência de embriões e inseminação artificial, especialmente para sêmen refrigerado e congelado. Já para Blanchard et al., 2003, a desvantagem de seu uso é o aparecimento de um intervalo interovulatório maior em éguas que não emprenharam anteriormente, atrasando assim a próxima oportunidade de prenhez.

Figura 1- Administração de Deslorelina. Fonte: Blanchard et al., 2003.

 

Progestágenos:

A administração de progesterona tem grande aplicabilidade no controle do ciclo reprodutivo em éguas, pois seus efeitos desejáveis são a supressão do crescimento folicular e o controle da ovulação (SILVA et al., 2006). Quando progestágenos são administrados por tempo suficiente para éguas ciclantes, o corpo lúteo regride e então a ovulação é bloqueada devido a inibição da liberação de LH pelo progestágeno exógeno. Quando a administração de progestágeno cessa, as éguas retornam ao cio e ovulam (BLANCHARD et al., 2003).

Segundo o mesmo autor, um dos problemas sobre a administração de progestágenos que ocorre é a variabilidade no intervalo de ovulação, por uma certa tendência do corpo lúteo em persistir além do fim do tratamento, permanecendo funcional e produzindo progesterona. Entretanto, a administração de PGF2α após o termino do tratamento com progestágenos é recomendada para garantir a regressão do possível corpo lúteo persistente, fazendo assim com que as éguas retornem ao cio no menor tempo possível.

 

Outros hormônios:

Outras alternativas na hormonioterapia em éguas foram relatadas, como o Extrato de Pituitária Equina (EPE) e o Hormônio Folículo Estimulante Equino Purificado (eFSH). O extrato de pituitária equina é um preparado parcial de gonadotrofina equina que pode ser utilizado em éguas para induzir ovulação (ALVARENGA et al., 2005) e para diminuir o intervalo entre a indução e a ovulação, favorecendo, desta forma, o uso de sêmen congelado pela redução do número de doses sem comprometimento da fertilidade (MELO, 2006). O eFSH é um FSH parcialmente purificado de hipófise equina que apresenta uma taxa de FSH:LH 10:1 e pode ser utilizado com as mesmas finalidades que o extrato de pituitária equina. Este apresenta como vantagem a antecipação da estação reprodutiva em 11,5 dias (ALVARENGA et al., 2005).

A utilização de hormônios no manejo reprodutivo de éguas é de extrema importância para que haja um aumento na eficácia reprodutiva. Agentes confiáveis e eficientes geram benefícios não só para seus proprietários, como também para os profissionais da área, garantindo um avanço cada vez maior na equinocultura.

 

Texto por: Letícia Bisso Paz, Universidade Federal de Santa Maria – Rio Grande do Sul

Edição e Revisão: Deivisson Aguiar, MédicoVeterinário, CRMV ES 1569

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVARENGA, M.A., FARINASSO, A., RUMPF, R. Utilização de baixas doses de extrato de pituitária equino (EPE) para indução de ovulações múltiplas em éguas. Acta Sci Vet, v.33, supl. 1, p.135-138, 2005.

BLANCHARD, T. L. et al. Manual of equine reproduction. 2 ed. Filadélfia, PA, USA: Mosby, 2003. 25-29 p.

CARNEVALE, E.M., COX, T.J. How to do induction of ovulation. Proceedings of the European Equine Meeting – XIV SIVE – FEEVA Congress, Venice, Italy, 2008. p.307-309.

CAMPBELL, M. It’s all in the timing: ovulation induction in the mare. Vet Rec, v.170, p.538-539, 2012.

FARIAS, L. D. et al. Indução da ovulação em éguas: uma revisão. Revista Brasileira de Reprodução Animal, Belo Horizonte, v. 40, n. 1, p. 17-21, jan./mar. 2016. Disponível em: <http://www.cbra.org.br/pages/publicacoes/rbra/v40/n1/p17-21(RB611).pdf>. Acesso em: 17 mai. 2017

LEY, W.B. Reprodução em éguas para veterinários de equinos. São Paulo: Roca, 2006. p. 215.

MCCUE, P.M., MAGEE, C., GEE, E.K. Comparison of compounded deslorelin and hCG for induction of ovulation in mares. J Equine Vet Sci, v.27, p.58-61, 2007.

MCKINNON, A.O. Hormonal Control of Equine Reproduction. Proceedings of the Annual Convention of the American Association of Equine Practitioners Annual Resort Symposium, Vail, Colorado, USA, 2009. p.139-186.

MELO, C.M. Indução de ovulação em éguas. 2006. 24f. Monografia (Doutorado em Reprodução Animal) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Botucatu, SP, 2006.

NEWCOMBE, J.R. The follicle: pratical aspects of follicle control. In: Samper JC, Pycock, JF, McKinnon, AO. Current therapy in equine reproduction. St. Louis: Saunders Elsevier, 2007. p. 14-21.

OLIVEIRA, L.A., SOUZA, J.A.T. Eficiência do hCG e LH na indução da ovulação e taxa de gestação em éguas da raça Quarto de Milha submetidas à cobertura única em tempo fixo. Rev Bras Reprod Anim, v.27, p.504-506, 2003.

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SAMPER, J.C., JENSEN, S., SERGENAT, J. Timing of induction of ovulation in mares treated with ovuplant or chorulon. J Equine Vet Sci, v.22, p.320-323, 2002.

SILVA, J.F.S. et al. Avaliação da dinâmica útero-ovárica da égua sob o efeito de um implante subcutâneo de microcápsulas de poli-hidroxibutirato contendo progesterona. Rev Port Cienc Vet, v.101, p.559-560, 2006.

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