Manejo da Retenção dos Dentes Decíduos

A retenção de dentes decíduos é uma falha ou atraso na muda dos dentes decíduos pelos dentes permanentes. Trata-se de uma afecção comumente observada nos animais jovens (entre dois anos e seis meses a cinco anos de idade), durante a fase de muda dentária dos incisivos e dos pré-molares. Esta retenção pode atrapalhar a erupção do dente permanente, causando deslocamento (erupção aberrante) e alterações permanentes na oclusão. Outras alterações que podem ser observadas são doença periodontal transitória, impactação vertical do antagonista e lesão nos tecidos moles adjacentes.

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Manejo da Retenção dos Dentes Decíduos

Nesta edição iremos abordar um tema que apesar de ser considerado bastante simples e comum, em alguns casos raros pode apresentar alguns desafios no diagnóstico e no tratamento, principalmente para os profissionais com menor experiência. A retenção de dentes decíduos é uma falha ou atraso na muda dos dentes decíduos pelos dentes permanentes. Trata-se de uma afecção comumente observada nos animais jovens (entre dois anos e seis meses a cinco anos de idade), durante a fase de muda dentária dos incisivos e dos pré-molares. Esta retenção pode atrapalhar a erupção do dente permanente, causando deslocamento (erupção aberrante) e alterações permanentes na oclusão. Outras alterações que podem ser observadas são doença periodontal transitória, impactação vertical do antagonista e lesão nos tecidos moles adjacentes.

Quando ocorre falha na muda dos incisivos decíduos, os dentes permanentes podem erupcionar lingualmente (Figura 01), o que pode acarretar em um problema oclusal permanente no plano horizontal da arcada dentária e/ou até doença periodontal devido à impactação de matéria orgânica entre os decíduos retidos e os dentes permanentes.

Figura 01: Incisivos superiores. Imagem da superfície oclusal dos dentes permanentes (101, 201 e 202) e dos dentes decíduos retidos (501, 601 e 602) deslocados labialmente.

Nos animais com projeção superior ou inferior incompleta (sobressaliência) ou completa (sobremordida) dos incisivos, principalmente nos casos de sobremordida, é comum ocorrer a retenção dos decíduos devido à falta de desgaste natural do dente pelo seu antagonista direto durante a apreensão e corte do alimento. Em alguns casos de sobremordida, pode ocorrer a retenção de todos os decíduos da arcada.

Apesar do formato e da coloração dos decíduos serem característicos, em algumas situações pode ser difícil diferenciar um incisivo decíduo retido de um elemento dentário supranumerário. Nesses casos o exame radiológico irá auxiliar devido à diferença no formato e comprimento da coroa de reserva. Nas situações onde o dente permanente já se encontra erupcionado e deslocado lingualmente, o estudo radiológico é importante para avaliação do posicionamento e do tamanho da coroa de reserva do dente decíduo retido; isso evitará surpresas desagradáveis quando a coroa de reserva do dente decíduo ainda está inteira.

A extração dos incisivos decíduos, na grande maioria das vezes, pode ser facilmente realizada no animal em posição quadrupedal. Para tanto, utilizam-se sedativos alfa dois adrenérgicos (detomidina 0.01–0.02 mg/kg IV, ou xilazina 0.25–0.50 mg/kg IV), bloqueios perineurais de ramos do nervo trigêmeo na localidade do forâmen mentoniano e do forâmen infra-orbitário e/ou infiltração do anestésico local na mucosa gengival. No procedimento são utilizadas pequenas alavancas apicais para a realização da sindesmotomia dos ligamentos periodontais e sua posterior extração. Caso ocorra a fratura do dente, a gengiva deve ser excisada na face labial até a exposição da coroa de reserva ou raiz e posterior remoção da espícula periapical.

A retenção de decíduos também pode ocorrer durante a fase de muda dentária dos pré-molares. Durante a época de muda, os pré-molares decíduos são popularmente denominados de capa porque nessa fase possuem apenas um resquício da coroa clínica, sem coroa de reserva e com raízes em formato de pequenas espículas delgadas e afiadas (Figura 02).

Figura 02: Dentes Decíduos (708 e 808). A: Imagem da face oclusal do resquício dos dentes decíduos (capas) após remoção. B: Imagem da região apical das capas (708 e 808) demonstrando as raízes delgadas e afiadas (setas vermelhas).

Não é incomum observarmos durante o exame clínico odontológico de animais jovens a retenção dessas espículas de raiz ou de pequenos fragmentos dos decíduos, que causam gengivite e inflamação da mucosa oral adjacente podendo interferir na erupção do dente permanente. Esses fragmentos devem ser elevados e removidos com o auxílio de afastadores gengivais (dental picks) (Figura 03).

Figura 03: Retenção de Decíduo. A: Retenção de fragmento do dente 508 (seta preta) com impactação de alimento na face palatina e doença periodontal. B: Fragmento de decíduo (508) com matéria orgânica retirado da face palatina. C: Dente 108 após a retirada dos fragmentos de decíduo (508) e do alimento. Observa-se retração gengival e gengivite na face distal e palatina. D: Fragmentos de decíduos retidos (508) após a remoção.

Chamo a atenção para o fato de que a remoção prematura do dente decíduo pode danificar o aporte circulatório do infundíbulo em desenvolvimento, resultando na hipoplasia de cemento e predispondo o dente permanente ao desenvolvimento de cáries infundibulares e fraturas. Considerando este fato, o momento em que a capa pode ser seguramente extraída é quando for observada uma linha bem demarcada, separando o dente permanente que está irrompendo a gengiva e o resquício do dente decíduo (Figura 04 e 05).

Figura 04: Cavidade oral. A: Deslocamento lingual do decíduo retido (708). B: Imagem da face vestibular através do espelho odontológico demonstrando a linha de separação entre o permanente recém erupcionado (308) e a capa retida (708). C: Imagem da retenção do dente 506 e do106 recém erupcionado. D: Hemiarcada 02 do mesmo animal com retenção do dente 606 e erupção do dente 206.

Figura 05: Cavidade oral. A: Úlcera no palato duro (seta preta) adjacente ao dente 506 causada pelo contato com o Degrau do dente decíduo retido (806). B: Imagem da face lingual com auxílio do espelho demonstrando a impactação de alimento entre o dente decíduo retido (808) e o dente permanente recém erupcionado (408). C: Imagem do dente 707 retido e deslocado para a face vestibular. D: Imagem do Degrau formado pela retenção do dente 607.

A extração dos pré-molares decíduos pode ser realizada com um fórceps pequeno de quatro pontas, realizando movimentos de rotação do punho, diferente do movimento de lateralidade realizado durante a exodontia do dente permanente.

Caso Clínico

Identificação e Histórico:

Macho inteiro, Quarto de Milha, de 04 anos, inspecionado durante um exame odontológico de rotina.

Exame Clínico:

No exame dos incisivos sem a utilização de espéculo oral foi evidenciado projeção incompleta dos incisivos superiores (sobressaliência superior), retenção dos médios decíduos inferiores (702 e 802), deslocamento lingual do médio inferior direito (402) e início da erupção do dente 302 em posição aberrante (lingual) (Figura 06).

Figura 06: Incisivos inferiores. Retenção dos dentes decíduos (702 e 802) e a erupção lingual dos dentes permanentes (302 e 402).

Diagnóstico:

Conforme a inspeção e o exame clínico foram diagnosticados sobressaliência da pré-maxila, a retenção dos dentes decíduos 702 e 802 e o deslocamento lingual dos dentes permanentes 302 e 402.

Tratamento:

Primeiramente foi realizado a exodontia do dente 802. A exodontia, ao contrário do que se imaginava, foi extremamente laboriosa (duração de 1:30hs) por conta do comprimento longo (04cm) do elemento dentário decíduo (Figura 07). Erroneamente, a realização do exame radiológico foi considerada desnecessária, por falta de experiência nesse tipo de caso, e por achar que se tratava apenas de um resquício do dente decíduo.

Figura 07: Dente Decíduo (802). Elemento dentário com comprimento muito acima do normal (coroa de reserva longa) para a idade, devido à falta de contato e desgaste pelo antagonista.

Acompanhamento após 07meses:

Em um segundo momento após 07 meses foi realizado a reavaliação clínica e radiológica do dente 402 e do outro dente decíduo retido (702). No exame clínico foi possível observar o deslocamento do dente 402 em direção ao seu posicionamento normal. Além disso, foi constatado que o dente 702 não apresentava mais coroa de reserva, apenas um resquício da coroa clínica.

Após a avaliação, foi realizada a exodontia do dente 702, o qual apresentou o comprimento normal de um decíduo na fase de muda (Figura 08).

Figura 08: Incisivos inferiores. A: Imagem demonstrando o deslocamento do dente 402 em direção ao seu posicionamento normal. (setas vermelhas), o deslocamento lingual do dente permanente (302) e a retenção do dente 702 (círculo vermelho). B: Imagem radiológica do resquício de coroa clínica do dente decíduo retido (702) e dos dentes decíduos 703 e 803 ainda com coroa de reserva (setas vermelhas). C: Ferida logo após exodontia do dente 702.

Infelizmente não há registro do acompanhamento após alguns meses da retirada do dente 702 por motivo de venda do animal, mas provavelmente o elemento 302 também se deslocou para a posição normal, como ocorreu com o dente 402.

Dicas Importantes:

  • Nos casos de retenção do decíduo com deslocamento lingual do dente permanente, nunca deixe de radiografar, pois o decíduo pode se apresentar com a coroa de reserva praticamente intacta, o que com certeza irá dificultar bastante a exodontia.
  • Na exodontia de dentes decíduos retidos grandes utilize os bloqueios perineurais (Infra-orbitário ou Mentoniano), além da anestesia local infiltrativa na mucosa adjacente ao dente.
  • Como o dente permanente sempre absorve a porção lingual do decíduo durante seu movimento de erupção, em alguns casos, o resquício do decíduo retido fica como uma delgada lâmina, fácil de ser fraturada durante a extração.

 

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