Manejo reprodutivo: o que devemos saber?

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Manejo reprodutivo: o que devemos saber?

 

A população brasileira de equinos até o ano de 2016 foi de 5,58 milhões de cabeças, terceira maior população do mundo, onde a região Nordeste concentra o maior rebanho (23,2%), seguindo das regiões Sudeste (23,2%), Centro-Oeste (20,0%), Sul (17,5%) e Norte (16,1%) (IBGE, 2016). O agronegócio equino no Brasil movimenta cerca de 7,5 bilhões gerando um total de 3,2 milhões de empregos diretos e indiretos (Oliveira, 2017) e para o continuo crescimento e incremento do rebanho atual a Reprodução e as Biotecnologias da Reprodução estão inteiramente interligadas, demonstrando a sua importância na criação dos equinos. O manejo reprodutivo consiste na homeostase, ou seja, no conforto fisiológico pleno, é individual e abrange as técnicas utilizadas para as ações do manejo pelos técnicos, proprietários e funcionários (Marques- Junior, 2014).

A escolha ideal dos garanhões e matrizes

Para a escolha dos animais que irão entrar para reprodução é de suma importância levar em consideração primeiramente a atividade na qual esses animais irão se destinar (passeio, tambor, baliza, entre outros), para assim escolher a raça e seu correspondente pedigree. Quanto aos garanhões que vão ser utilizados na reprodução seja para monta natural ou colheita de sêmen para o uso da inseminação artificial, é de grande valia que esses animais sejam avaliados quanto a conformação de aprumos, coluna vertebral, presença ou ausência de testículos na bolsa escrotal, tamanho dos testículos e posicionamento dos mesmos. E antes de iniciar suas atividades reprodutivas e antes da estação de monta é aconselhável que os machos sejam avaliados quanto suas características seminais pelo exame andrológico, pois a qualidade espermática poderá interferir nos índices reprodutivos (Fernandes & Pimentel, 2002).

O exame andrológico, consiste na avaliação clínico- reprodutiva dos garanhões, seguida de avaliação seminal clássica que consiste nas características de motilidade espermática, vigor espermático, concentração espermática e morfologia espermática (Arruda et al., 2007), parâmetros capazes de predizer o potencial reprodutivo do presente momento daquele animal. Os parâmetros espermáticos do ejaculado de garanhões colhidos por vagina artificial, estão descritos na tabela abaixo, segundo o preconizado pelo Colégio Brasileiro de Reprodução Animal (CBRA, 2013).

Tabela 1: Características espermáticas para ejaculados de garanhões colhidos por vagina artificial

Características Parâmetros
Volume sem o gel 40-60 Ml
Cor Branca acinzentada
Movimento de massa Ausente
Motilidade espermática ≥ 60%
Vigor ≥ 3
Concentração espermática ~ 100-200x 106 sptz/Ml
Número total de espermatozoide ~ 5×109
Total de espermatozoides normais ≥ 70%

Adaptado CBRA, 2013.

Segundo Silva (1991), para seleção de matrizes devem ser considerados as seguintes características: desempenho reprodutivo e produtivo, raça, pedigree, performance e conformação. Éguas são poliéstricas estacionais, ou seja, seu ciclo reprodutivo é dividido em período reprodutivo que corresponde a primavera e verão e não reprodutivo durante o outono e inverno (Faria & Gradela, 2010). Essa característica é mais evidenciada nas regiões onde o fotoperíodo é bem definido, pois regiões mais próximas da linha do equador, onde a luz tem a mesma duração, as éguas ciclam e demonstram cio anualmente. Há duas fases distintas durante seu ciclo reprodutivo, a primeira onde a égua aceita o macho, ou seja, demonstra estro e o aparelho reprodutivo das fêmeas está preparado para receber o sêmen e culminar com a fecundação, a segunda fase corresponde ao período da ovulação e formação do corpo lúteo, nessa fase a égua não demonstra mais sinais de receptividade ao macho (Rodrigues et al.,2017).

A detecção do estro ou cio é indispensável para a determinação do momento ideal da cobertura ou da inseminação artificial, para constatação do estro são feitas rufiações por garanhões aptos a reprodução e controle folicular por meio de ultrassonografia pelo veterinário. Os sinais característicos do cio são: inquietação, relincha, hiporexia, na presença do reprodutor, ela se aproxima e permite aproximação, apresenta orelhas eretas, elevação de cauda, assume posição receptiva, afastando os membros posteriores, micção frequente, vulva edemaciada e hiperêmica; contração e abertura vulvar (Tezza e Dittrich, 2006).

Técnicas reprodutivas

Podem ser utilizados a monta natural e a inseminação artificial. A monta natural é controlada, ou seja, são escolhidos o garanhão de acordo com cada égua e essas são trazidas até o macho ou o inverso, onde as fêmeas passam pelo controle folicular e rufiações para a determinação do estro, caso não seja possível o controle folicular após a observação do cio podem ser feitas três coberturas em dias alternados após o 3 dia até o final do estro (Freitas et al., 2005 e Silva et al., 1998), sendo que em éguas o cio pode durar até 9 dias.

Quanto a inseminação artificial consiste na deposição do sêmen de forma manovaginal no útero das éguas por meio de pipetas. Ferramenta diretamente relaciona ao melhoramento genético, pois um garanhão pode deixar centenas de descendentes ao longo da vida através dessa biotecnologia (Canisso et al., 2008), sendo que o sêmen utilizado na IA pode ser diluído, fresco ou criopreservado, para garantir a eficiência dessa técnica é necessária a avalição espermática para os parâmetros de motilidade, vigor, concentração e morfologia espermática segundo o preconizado para espécie equina, de acordo com o CBRA (2013). Uma das vantagens do uso da biotecnologia é otimização do garanhão, pois um ejaculado pode ser fracionado e utilizado em várias éguas, diminuindo a contaminação por doenças transmitidas pelo sêmen (Taveiros, 2008). Em relação ao sêmen criopreservado, deve-se ter cuidados na descongelação do sêmen, sendo feita em 37o C por 30 minutos. Para a IA, as éguas devem ser acompanhadas periodicamente pela ultrassonografia a fim de saber o momento ideal da inseminação, éguas geralmente ovulam 24 a 48 horas na porção final do cio (Bortot & Zappa, 2013).

Considerações finais

Na equideocultura o emprego do manejo reprodutivo associado as biotecnologias da reprodução proporcionam ganho genético tanto para os garanhões quanto para as éguas aumentando o desempenho reprodutivo como também garantindo resultados satisfatórios na produção e retorno econômico.

Referências

  1. Arruda, R.P.; Andrade, A.F.C.; Peres, K.R.; Raphael, C.F.; Nascimento, J.; Celeghini, E.C.C. Biotécnicas aplicadas à avaliação do potencial de fertilidade do sêmen equino. Rev Bras Reprod Anim, 31:1, 8-16, 2007.
  2. Bortot, D.C.; Zappa, V. Aspectos da reprodução equina: inseminação artificial e tranferência de embrião: revisão de literatura. Revista Científica eletrônica de Medicina Veterinária, 21, 2013.
  3. Canisso, I.F.; Souza, F.A.; Silva, E.C.; Carvalho, G.R.; Guimarães, J.D.; Lima, A.L. INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL EM EQUINOS: sêmen fresco, diluído, resfriado e transportado. Rev. Acad., Ciênc. Agrár. Ambient., 6:3, 389-398, 2008.
  4. CBRA. Colégio Brasileiro de Reprodução Animal- Manual para exame andrológico e avaliação seminal, 3o Edição, 2013.
  5. Faria, D. R.; Gradela, A. Hormoterapia aplicada à ginecologia equina. Revista Brasileira de Reprodução. 34 (2): 114-122, 2010.
  6. Fernandes, C.E.; Pimentel, C.A. Características seminais e fertilidade em garanhões. Ciência Rural, Santa Maria, 32:5, 829-834, 2002.
  7. Freitas, C. C. Aspectos do comportamento reprodutivo na monta natural de equinos da raça Crioula. 59p. Porto Alegre, RS. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) – Programa de Pós-graduação em Medicina Veterinária, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005.
  8. IGBE. Instituto geográfico brasileiro e estatística- Manual técnico Produção da Pecuária Municipal, volume 44, 2016.
  9. Marques-Junior, A.P.; Xavier, P.R.; Leão, R.A.C. Manejo reprodutivo de bovinos: potencialidade e desafios. Acta Veterinaria Brasilica, 8:2, p. 317-319, 2014.
  10. Oliveira, L.C. A atividade equestre no Brasil: movimentação econômica e tributação incidente. Nota técnica do âmbito jurídico, acesso em 06/11/2017.
  11. Rodrigues, L.G.S.; Resende, V.C.S.; Oliveira-Júnior, A.R.; Silva, L.; Barbosa, L.M. Aspectos do manejo reprodutivo de equinos. Nutri-time, 14:02, 2017.
  12. Silva, A. E. D. F.; Unanian, M. M.; Esteves, S. N. Criação de equinos. Embrapa – SPI/ Embrapa Cenargem, p. 99, 1998.
  13. Silva, A.E.D.F.; Manzano, A.; Unanian, M.M.; Romano, M.A.; Machado, D.C. Manejo da criação de equinos na Embrapa UEPAE de São Carlos. Comunicado Técnico, n.7, 1-37, 1991.
  14. Taveiros, A. W.; Melo, P. R. M.; Machado, P. P.; Neto, L.M.F.; Santos-Junior, E.R.S.; Santos, M.H.B.; Lima, P.F.; Oliveira, M.A.L. Perda de concepto em programa de inseminação artificial e de transferência de embriões em equino da raça mangalarga machador. Revista de Medicina Veterinária. 2(2): 28-33, 2008.
  15. Tezza, L.; Dittrich, J. Reprodução em Equinos. Monografia. Universidade Federal do Paraná pp.1–13,2006.

Autor: Sâmara Cristine Costa Pinto- Doutoranda do Departamento de Reprodução Animal FMVZ/USP, Campus Pirassununga

 

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