Mielopatia Estenótica Cervical, Ataxia do Potro ou Síndrome de Wobbler

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Estenose é um termo médico que significa compressão/estreitamento patológico de algum canal ou conduto do organismo animal.  A Mielopatia estenótica cervical (MEC) também conhecida como Síndrome de Wobbler, bambeira ou síndrome da incordenação motora é uma doença que aumente equinos jovens entre 1 a 6 anos de idade se caracteriza por uma má formação das vértebras cervicais causando compressão intermitente ou contínua da medula óssea cervical ou estenose da medula óssea cervical, causando ataxia, debilidade e espacitidade em potros. Acomete geralmente equinos machos sendo mais descrita em Puro Sangue Inglês, Árabes e Quartos de Milha, porém pode acometer equinos de ambos o sexo e de qualquer raça que apresente crescimento acelerado seja ele natural ou estimulado por dietas para acelerar o desenvolvimento.  Outras doenças ortopédicas do desenvolvimento do esqueleto apendicular acometem em sua maioria equinos com MEC, doenças como fisite, efusão articular, osteocondrose e as deformidades dos membros flexionais. (Stashak, 1987; Verçosa, 2009; Nogueira, 2008; Reed et al., 2003; Motta, 2016; Rush, 2008; Lin, 2009)

Figura 1. Vértebra cervical de equino com compressão da medula em foco Fonte: http://equitacionytauromaquia.blogspot.com.br/2014/11/veterinario-sindrome-wobbler-equino.html?m=1

 

Dentre as causas mais comuns de estenose, estão: Má formações ósseas, articulares, de ligamentos, infecções bacterianas, virais ou parasitárias, traumas, sendo importante um diagnóstico diferencial e efetivo para MEC para que se possa realizar o tratamento adequado. Essa enfermidade tem duas formas de apresentação, e pode ser estática ou dinâmica. Na forma estática a compressão medular ocorre geralmente nas vértebras caudais entre a C5 e C7 devido à má formação óssea, cartilaginosa ou ligamentar. Na forma dinâmica, má formações ósseas fazem com que o corpo da vértebra comprima a medula durante o movimento de ventroflexão do cavalo, ou seja, abaixar o pescoço em direção ao tórax. (Mathon, 2003; Nogueira, 2008).

A hipernutrição de cavalos em crescimento, exercício excessivo, lesões físicas e rápida taxa de crescimento também estão ligadas a causa desta enfermidade. Como dito anteriormente alguns cavalos com MEC são acometidos por doenças ortopédicas do desenvolvimento (DOD), sendo de extrema importância uma dieta balanceada e exercícios adequados durante a fase de crescimento do potro. Alterações nutricionais, desequilíbrio de minerais (Como cálcio e fósforo), e exagero no consumo de carboidratos tem relação direta com o aparecimento de DOD. É bastante comum, por exemplo, a suplementação de animais em desenvolvimento com aveia, pois ela possui um carboidrato de fácil digestão que acelera o desenvolvimento do animal alterando, dentre outros fatores, a maturação de condrócitos que são células responsáveis pela manutenção do crescimento da cartilagem no organismo. Animais que são alimentados à base de cereais também tem uma ingestão pobre de minerais podendo haver desequilíbrio destes nutrientes que são tão importantes para o desenvolvimento ósseo como cálcio e fósforo. Ainda não está totalmente esclarecida a possibilidade de predisposição genética para esta enfermidade, por isso, é de extrema importância avaliação clinica dos animais no ato da compra para elucidar se eles têm DOD, o que aumenta o risco de desenvolverem MEC. (Reed et al., 2003; Hoffman, 2003; Foreman, 2005; Kienzle & Zorn, 2006; Lin, 2009; Rush, 2008)

Figura 2. Equino da direita com circundunção ao passo e equino da esquerda com ataxia ao passo Fonte: http://equitacionytauromaquia.blogspot.com.br/2014/11/veterinario-sindrome-wobbler-equino.html?m=1

Quando ocorre compressão dinâmica ou estática da medula espinal, inicialmente a região periférica da substância branca é danificada e onde ocorre a disseminação  para areas mais profundas. Essa lesão por compressão da medula espinhal produz mais ataxia aos membro pélvicos do que os membros torácicos devido a localização mais superficial de estruturas das vias propiocepticas dos membros pélvicos. (Nout, 2003;  De Lahunta 1983; Andrews e Adair 1999)

Figura 3. Corte transversal da medula espinhal cervical mostrando os tractos proprioceptivos afetados durante a compressão da medula espinhal. Fonte: Y. S. Nout and S. M. Ree. Disponível em: < http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.2042-3292.2003.tb00246.x/epdf >.

 

Dentre os principais sinais clínicos, ocorre ataxia geralmente simétrica, paresia, espasticidade. Na estenose estática, temos como sinais clínicos em posição quadrupedal durante o repouso o animal apresentar base ampla, demoras nas respostas ao posicionamento proprioceptivo e arrastar de pinças ao solo durante a deambulação. (Nogueira, 2008)

Figura4. Equino com base de sustentação ampliada Fonte: http://equitacionytauromaquia.blogspot.com.br/2014/11/veterinario-sindrome-wobbler-equino.html?m=1
Figura 5. Equino com ausência de propiocepção Fonte: http://equitacionytauromaquia.blogspot.com.br/2014/11/veterinario-sindrome-wobbler-equino.html?m=1

Como diagnóstico diferencial deve-se atentar à doenças com sinais clínicos semelhantes como mieloencefalite equina causada por protozoário, tétano, mieloencefalite equina causada pelo herpesvírus, mieloencefalite degenerativa equina, doença do neurônio motor, doenças musculares como rabdomiólise, miopatia de esforço, miotonia e paralisia hipercalêmica periódica. Em alguns casos o diagnóstico correto só é realizado na necropsia. (Reed, 2005; Lin, 2009).

O diagnóstico de MEC é realizado através da percepção dos sinais clínicos, histórico do animal, pois a maioria dos cavalos desenvolvem a maioria dos sinais clínicos entre seis meses a três anos de idade, machos são mais afetados que fêmeas, animais considerados grandes para sua idade de desenvolvimento rápido, dados epidemiológicos da região, raça do animal, pois algumas raças de desenvolvimento rápido como PSI, Árabe, Quarto de milha são mais acometidas.

O exame neurológico é realizado durante uma caminhada, circular com animal, elevar e abaixar a cabeça manobrar sobre obstáculos/inclinações. Animais com estenose do canal cervical podem apresentar sinais de dor durante realização de movimentos com a cabeça. (Rush, 2008)

Figura 6. Imagem mielográfica da coluna vertebral cervical de equino revelando compressão dinâmica entre C3-C4 (seta) Fonte: Nogueira, et al. 2008 < http://189.126.110.61/vetnot/article/view/9461/10179>.

Figura 7. Imagem mielográfica da coluna vertebral cervical de equino mostrando estenose estática a C5 (seta) Fonte: Nogueira, et al. 2008 < http://189.126.110.61/vetnot/article/view/9461/10179>.

 

Após exame clinico, é realizado o exame de diagnóstico por imagem através de radiografias e mielografia. A radiografia simples deve ser realizada com o pescoço na posição neutra, flexionada e hiperestendida das porções cervicais media, caudal e cranial, onde é possivel identificar alterações no diâmetro do canal medular e alterações osseas. Existe, porém, a chance de falsos negativos e falsos positivos quando se realiza somente radiografia simples. Desta forma, torna-se importante a realização de mielografia na suspeita dessa patologia, pois esse exame auxilia na determinação das articulações intervertebrais envolvidas, severidade da lesão em cada articulação e a contribuição dos tecidos moles na compressão da medula. Através da mielografia é possível observar os locais de compressão por meio da falta de continuidade das colunas de contraste nos locais onde foi detectada a estenose do canal medular. Outro exame também que auxilia muito no diagnóstido da MEC é o exame histopatológico, e, quando possivel ser realizado, pode-se observar lesões simétricas na matéria branca da medula espinha, que são aumento de volume axonal com desaparecimento da bainha de mielina, e aparência esponjosa com vacuolos e presença de células mononucleares  ou polimorfonucleares. (Moore et al. 1994; Moore et al. 1995; Rush 2003; Lin, 2009)

É possivel visualizar outras alterações subjetivas no exame radiológico para auxiliar no diagnóstico, são elas: Desalinhamento entre as vertebras adjacentes, padrões anormais de ossificação, extensão caudal das lâminas dorsais, alargamento epifisário caudal, artropatia degenerativa (Degeneração da cartilagem articular e do osso adjacente) sendo desalinhamento e alargamento epifisário caudal os parâmetros mais importantes para diferenciar cavalos afetados de não afetados. (Nout, 2003)

Figura 8. a) Mielograma cervical demonstrando compressão dinâmica da medula espinhal cervical em C3-C4. A visão neutra demonstra subluxação dos corpos vertebrais em C3-C4 (seta), fortemente sugestiva de compressão da medula espinhal. B) A compressão da medula espinhal é óbvia quando a cabeça e o pescoço estão flexionados. Fonte: Y. S. Nout and S. M. Ree. Disponível em: < http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.2042-3292.2003.tb00246.x/epdf >.
Figura 9. Hematoxilina e eosina coraram a secção transversal da medula espinhal cervical do cavalo na Figura 1 visualizada com uma ampliação x40. Esta é uma imagem do funniculus ventral ao nível de C3-C4. No canto superior direito, a fenda mediana ventral está presente. Esta secção transversal demonstra o edema axonal (cabeça da seta grande), axonofagia (pequenas cabeças de seta) e abandono axonal (setas).. Fonte: Y. S. Nout and S. M. Ree. Disponível em: < http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.2042-3292.2003.tb00246.x/epdf >.

Após confirmação desta enfermidade, se diagnosticada no inicio e com grau de lesão mais leve, mudanças no manejo a fim de retardar o crescimento do animal podem ser tomadas. Redução do exercício, mudanças no manejo nutricional, restrição de espaço físico, terapia com anti-inflamatórios e glicocorticoides podem reduzir o edema associado à compressão medular. Essas medidas em animais jovens em conjunto com a correção alimentar retardam o crescimento ósseo e a estenose do canal vertebral, sendo uma opção para um tratamento conservativo. É necessário o acompanhamento deste animal com exame neurológico e radiografia cervical a cada 90 dias.  (Nout, 2003)

Existem ainda duas técnicas operatórias que podem ser utilizadas em animais com mielopatia estenótica cervical que tem como objetivo cessar o trauma repetitivo à medula e permitir que inflamação dentro e ao redor do canal seja eliminada: Fusão ventral dos corpos vertebrais para obter a estabilidade intervertebral em caso de compressão dinâmica, onde são aplicados implantes metálicos em forma de cesta na região dos discos intervertebrais e epífises. E nos casos de estenose estática a laminectomia dorsal é utilizada, onde se remove parcialmente a lamina dorsal, ligamento flavo e capsula articular subjacente ao local comprimido. Se realizada intervenção cirúrgica, a avaliação neurológica do animal deve ser realizada a cada 60 dias. E deve-se se ter atenção especial se o animal apresentar sinais de dor ou incomodo pelos implantes. (Stewart & Moore, 2000; Pujol & Mathon, 2003; Dukti et al., 2004; Rush, 2006; Nogueira, 2008).

Figura 10: Radiografia de exame lateral das vértebras cervicais demonstrando a colocação adequada de um cesto de Bagby após a cirurgia de estabilização ventral em C4-C5. Fonte: Y. S. Nout and S. M. Ree. Disponível em: < http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.2042-3292.2003.tb00246.x/epdf

Os cavalos devem apresentar uma melhoria no estado neurológico dentro de 90 dias após o inicio do tratamento seja ele dietético ou cirurgico. Cavalos que não demonstram melhoras apos 6 meses de tratamento são dificeis de obter alguma resposta positiva, sendo que essas respostas dependem em sua maioria da idade do cavalo e do grau do deficit neurológico. O cavalo afetado pode sobreviver com conforto, porém, seu desempenho atlético pode ser prejudicado (Rush, 2008)

 

Texto por: Priscila Lessa Andrade, 7º período de medicina veterinária na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ.

Edição e Revisão: Deivisson Aguiar, Médico Veterinário.

 

REFERÊNCIAS

 

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