Nutrição em Equinos e Suas Respectivas Fases

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Nutrição em Equinos e suas respectivas Fases

 

Os equinos possuem hábito alimentar determinado por suas características anatômicas e fisiológicas, são animais herbívoros com seletividade por alimentos de maior palatabilidade e possuem característica pró- pria de pastejo constante. SILVA et al. (2004), avaliando equinos em pastagem de cerrado nativo, observaram um tempo de pastejo diurno de 9 horas, e noturno de 8 horas, totalizando um tempo total de pastejo de 17 horas. A partir da domesticação ocorreram mudanças no manejo nutricional e alimentar dos equinos. A disponibilidade da variedade de espécies forrageiras, antes proporcionada pelo hábito selvagem, foi substituída por forragens e alimentos que muitas vezes não fazem parte de sua dieta. A exigência nutricional dos equinos é influenciada por diversas variáveis, tais como, fase de desenvolvimento, atividade física exercida, sexo, peso vivo, eficiência individual dos processos metabólicos e até mesmo fatores ambientais, tornando-se, portanto, um assunto extremamente complexo.

O presente trabalho visa abordagem de alguns aspectos no manejo alimentar e exigência nutricional em conjunto para categorias distintas: éguas gestantes, lactantes e potros desmamados.

ÉGUAS GESTANTES: Os equinos possuem ciclo poliéstrico estacional de dias longos, e o fotoperíodo é o principal fator determinante na sazonalidade reprodutiva. Devem ser considerados, porém, outros fatores como nutrição, latitude, temperatura e estresse. A média de duração da gestação é de 11 meses, a cobertura e nascimento dos potros ocorrem na primavera e verão, período de maior disponibilidade de alimentos. Os nutrientes necessários de fêmeas prenhes pode ser particiona- do para as seguinte categorias: (1) Os nutrientes necessários para mantença; (2) Os nutrientes necessários para sintetizar tecido fetal; (3) Os nutrientes necessários para sintetizar o tecidos acessório de concepção (placenta, desenvolvimento do útero e desenvolvimento da glândula ma- maria) e (4) Os nutrientes necessários para manter os tecidos recém- sintetizadas do feto, placenta, útero e glândula mamaria. Para calcular com precisão as necessidades de nutrientes de éguas prenhes, seria necessário saber a taxa de acumulação de tecidos fetais e acessórios, a eficiência de nutriente para a síntese do tecido, e os custos de manutenção destes tecidos, no entanto, os dados e pesquisas relacionados a tais fatores são escassos devido ao seu elevado grau de complexidade.

As necessidades dietéticas da égua em reprodução podem ser divididas em três fases: (1) Os primeiros oito meses de gestação, (2) Os últimos três meses de gestação e (3) A lactação (Pode coincidir com 0-4 meses de gestação). Nos primeiros oito meses de gestação não há impacto prático sobre as necessidades nutricionais, ou seja, as exigências não diferem das éguas em mantença. A maior parte do crescimento fetal ocorre durante os últimos 90 dias de gestação, mesmo assim, a fuga de nutrientes para sustentação do crescimento fetal e placentário normal é muito menor do que para a lactação.

Durante os primeiros oito meses de gestação ocorre o crescimento de 1/3 do desenvolvimento fetal, nessa fase as exigências nutricionais da égua são as mesmas da mantença ou manutenção, recomenda-se o fornecimento fracionado, em no mínimo duas vezes ao dia, de aproximada- mente 0,5 kg de ração balanceada para cada 100 kg de peso vivo, e ainda volumoso de qualidade a vontade.

Segundo FRAPE (2004), considera-se como “mantença” os gastos energéticos requeridos para eventual manutenção calórica acrescidos-

das despesas para produção, que envolve tanto trabalho quanto deriva- dos. A segunda fase da gestação, últimos três meses, compreende 2/3 do crescimento fetal, portanto, requer maior atenção no manejo nutricional. Nesse momento, se faz necessário o fornecimento de alimentos energéticos balanceados em maior quantidade, devido a redução da capacidade intestinal, causada pelo crescimento exponencial do feto e exigência nutricional do mesmo. Deve-se fornecer ao animal cerca de 1 kg de concentrado para cada 100 kg de peso vivo, com fracionamento de, no mínimo, duas vezes ao dia, e ainda volumoso à vontade.

Como o feto ocupa uma proporção crescente da cavidade abdominal da égua, sua capacidade de alimentação volumosa diminui durante o período em que a necessidade por nutrientes aumenta. Devido a esse fator, se faz necessário o aumento da qualidade de pastagem e até mesmo o fornecimento de feno e concentrados. A qualidade da forragem deve ser melhorada durante os últimos três meses de gestação. Quando se fala em qualidade de forragem, deve-se levar em conta a fertilidade do solo, composição bromatológica e volume disponível para suprir as necessidades da égua.

Durante os últimos quatro meses de gestação, os tecidos fetais acumulam 77 gramas de proteína, 7,5 gramas de cálcio, e 4 gramas de fósforo por dia . Além de proteínas e macrominerais, a suplementação mineral também é muito importante durante o último trimestre de gravidez, pois o feto armazena ferro, zinco, cobre e manganês em seu fígado para uso durante os primeiros meses após o nascimento. Este processo fisio- lógico é necessário porque o conteúdo mineral do leite de égua é relativamente baixo e não satisfaz a exigência do potro.

Cada animal possui uma eficiência individual dos processos metabólicos, portanto, é importante realçar a importância da atenção ao es- core corporal das gestantes desde a concepção ao parto. É correto afirmar que, tanto desnutrição quanto o sobrepeso podem ser fatores pre- judiciais ao desenvolvimento fetal, parto e puerpério.

ÉGUAS LACTANTES: Durante a lactação há um grande aumento das exigências nutricionais. Em relação a energia, algo em torno de duas vezes a mantença. Este aumento é proporcional à quantidade de leite pro- duzido pela égua, sendo que a produção está relacionada ao peso da mesma. Normalmente as éguas produzem em torno de 3% do seu peso vivo em leite nos primeiros 3 meses de lactação e em torno de 2% entre o 4° e 6° mês de lactação 7,6 .

Durante o início da lactação, a exigência de energia é aproximada- mente o dobro da égua durante gravidez precoce, ao passo que as necessidades de proteínas são dobradas e as exigências de lisina, cálcio e fósforo são maiores que 300% 6.

As exigências diárias de energia digestível (ED, mcal/dia) e proteína bruta para animais adultos em lactação variam de acordo com seu peso vivo. Animais com 400 kg, 500 kg e 600 kg de PV possuem exigência aproximada de 22,9; 28,3 e 33,7 mcal/dia de ED e 1141; 1427 e 1711 g de proteína bruta, respectivamente.

O consumo esperado de alimentos com % em peso vivo para éguas no final da gestação e início da lactação é 1,0 a 2,0 kg de volumoso e 1,0 a 2,0 kg de concentrado por dia. Os valores para alimento concentrado são determinados pelo peso vivo e consumo do animal, que pode variar de 0,5 a 2,0% do PV nessa fase. Éguas em final de lactação, após os primeiros três meses, devem ser tratadas com 0,5 a 1,5 kg de concentrado por dia, respeitando o consumo de 0,5 % do PV.

Potros Lactantes: Potros crescem rapidamente durante os primeiros meses de vida, quadruplicando seu peso em cinco meses de idade 4. Os potros derivam sua energia, proteínas e minerais para apoiar este crescimento rápido com a combinação do leite, pasto, grão suplementar e armazenamento corporal de minerais. Se a égua recebeu uma alimentação corretamente fortificada durante o terço final da gestação e produz leite de forma adequada, na maior parte dos casos, não é necessário complementar a alimentação do potro com grãos até os 90 dias de ida- de. Se as éguas são alimentadas com ração acessíveis ao potro, é uma prática aceita que a potro consuma parte da ração da égua nos primeiros meses. A quantidade de alimento sólido ingerido está estreitamente associado a quantidade de leite consumido. Quanto maior a disponibilidade de leite, menor o consumo de alimentos sólidos pelo potro 1.

Algumas fazendas introduzem alimentos concentrados a partir dos 90 dias de idade, aumentando gradualmente a quantidade oferecida de modo que a ingestão de grãos diária do potro seja de 0,5 kg de alimento por mês de idade. Potros começam a consumir pequenas quantidades de feno e concentrado entre 10-21 dias de idade2. Uma prática alternativa consiste em introduzir o creepfeeding, permitindo o acesso ilimitado em coxos especialmente projetados até que os potros estejam consumindo cerca de 2 kg diariamente. Uma vez que os potros estejam co- mendo 2 kg por dia, a quantidade de alimentos para animais no creepfeeding deve ser limitado de modo que eles recebam no máximo 0,5 kg por mês de idade. Se a quantidade não for limitada, alguns potros vão comer quantidades excessivas, o que resulta em uma taxa de crescimento rápido. Ambas as práticas requerem acompanhamento regular do peso corporal para garantir a manutenção de um ritmo bom e homogêneo de crescimento entre os potros.

Muitas vezes é difícil garantir que o potro receba todo a sua alimentação pelo creepfeeding. Se éguas e os potros estão no mesmo pasto e os potros são alimentados em um grupo, é importante observar a ali- mentação para garantir que todos os potros possam ter acesso ao ali- mentado e receber a sua dose diária. Potros dominantes podem consumir mais do que sua parte, caso isso ocorra pode ser que seja necessário separar os potros mais lentos dos dominantes. A quantidade de creepfeedind necessário deve ser colocado no alimentador de fluência em quantidades iguais, pelo menos,duas vezes ao dia, após remoção da sobra da refeição anterior.

É importante que o potro esteja acostumado a comer alimentos complementares antes do desmame. Se os grãos são oferecidos somente pós-desmame é provável que um surto de crescimento compensatório ocorra. Esse surto de crescimento aumenta significativamente o risco de desenvolvimento de doenças ortopédicas do desenvolvimento (DOD). Se o potro obteve um bom programa de alimentação, este surto de crescimento, e posteriormente, o risco de DOD, é reduzido. É importante lembrar que os erros de nutrição durante o início do crescimento podem levar a problemas de desenvolvimento, limitando seu desempenho futuramente 1.

POTROS PÓS-DESMAME: A idade de desmame depende do sistema de criação e gestão, os potros são comumente desmamados a partir de quatro a oito meses de idade. No entanto, a melhor idade para desmamar é quando as necessidades do potro não são atendidas principal- mente pelo leite da égua e, portanto, devem ser fornecidos pela inges- tão de alimentos sólidos. Os erros de alimentação mais comuns atribuí- das a doenças ortopédicas do desenvolvimento são o consumo excessivo de grãos, escolha inadequada de grãos para a forragem que está sendo fornecida e fornecimento inadequado de grãos. Estes três cenários são facilmente corrigidos através da formulação adequada de grãos para o cavalo em crescimento e gestão correta do fornecimento. Cavalos jovens que já sofrem de doença ortopédica do desenvolvimento devem ter a sua ingestão de energia reduzida, mantendo níveis corretos de proteínas, vitaminas e minerais.

Os níveis de crescimento para potros podem ser classificados como rápido ou moderado. Como em outras espécies, todos os nutrientes de- vem ser fornecidos em quantidades e proporções adequadas para que o

crescimento seja otimizado. A diferença básica entre os dois níveis de crescimento são as taxas de ganho de peso impostas aos animais, com consequentes diferenças nas concentrações de nutrientes exigidas (mais nutrientes para o nível rápido de crescimento). A lisina é o aminoácido mais limitante para equinos, recomenda-se uma concentração na dieta em torno de 0,65% para potros lactentes e 0,5% para potros jovens desmamados.

Potro Jovem (Após um ano de vida): A nutrição e manejo alimentar de equinos com um ano é influenciada pelo objetivo ou atividade exercida pelo animal. Cada cavalo deve ser alimentado como um indivíduo, isso irá garantir que a quantidade correta de nutrientes seja consumida, no entanto a alimentação individual não é prática, especialmente para cavalos criados em grupos a pasto. Nessa situação, os animais de- vem ser divididos em grupos com base na idade e peso corporal. Grupos com mais de 20 animais devem ser subdivididos com base no tempera- mento e peso, com a finalidade de evitar competição por alimento, além disso, recomenda-se a separação por gêneros após desmame, pois ambos os sexos podem atingir a puberdade na primavera do primeiro ano 1. A relação do volumoso concentrado varia de acordo com a qualidade nutricional e maturidade da forragem (pastagem ou feno), quanto maior a maturidade da forragem, menor o valor nutritivo. Deve ser levado em consideração que as leguminosas tropicais são mais ricas em proteína bruta, cálcio e fósforo e tem maior digestibilidade que as gramíneas, possuindo maior valor nutritivo 9.

Artigo – Nutrição Do Cavalo De Esporte E Trabalho

Em muitos casos, os requisitos de energia e, por vezes, proteína de cavalos jovens em crescimento podem ser atendidos apenas pela forragem, dependendo da qualidade e quantidade oferecida. No entanto, a maioria dos equinos em crescimento exigem energia e proteína superior ao que é fornecido pela forragem. Em uma tentativa de adicionar energia à dieta de um cavalo, muitos criadores fornecem cereais grãos (Aveia, cevada, milho). Geralmente, a dieta do cavalo jovem em crescimento é construída por forragem de boa qualidade (1,5% do peso corporal na MS de forragem por dia) e concentrado especialmente formulado para atender energia, proteínas e nutrientes. Não há qualquer necessidade de suplementação adicional, a não ser que haja deficiências ou problemas específicos comprovados. A única exceção é o sal, que deve ser oferecido a vontade 1.

Texto: Camila Arruda de Almeida, Zootecnista, Universidade Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)

Co-Autor: Hugo Garcia da Silveira, Médico Veterinário, CRMV/SP 38695-VP Buritizal, SP

Revisão e Edição: Deivisson Ferreira Aguiar, Medico Veterinário, CRMV/ES 1569 – Muniz Freire, ES

REFERÊNCIAS

  1. BROWN-DOUGLAS, C.G. Nutritional manegement of growing horses. Mordern feeding ma- negement for healtlhy and compromised horses. Lexington, Kentucky Equine Reseach. 2012
  2. FRAPE, D. Equine Nutrition and Feeding, p.204-208, 2004.
  3. LAWRENCE, L. The new NRC: Updated Requirements for Pregnancy and Growth . In: Advan- ces in Equine Nutrition IV. University of Kentucky, Lexington, Kentucky, 2009.
  4. MEYER, H. Cu-stoffwechsel und – bedarf des pferdesUbersTierernahrg 22:363-394, 1994.
  5. MEYER, H.; AHLSWED, L. Uber das intrauterine wachstum und die korperzusammensetzung von fohlensowie den nahrstoffbedarftragenderstuten. Ubers. Tierernahrg 4:263-292, 1976.
  6. NRC, 2007. Nutrient Requirements of Horses. Washington DC, National Academies Press. 2007
  7. PAGAN, J.D. The role of nutrition in the management of Developmental Orthopedic Disease. In: Advances in Equine Nutrition III. Nottingham University Press, U.K., p.417-431, 2005.
  8. SILVA, L.A.C. et al. Comportamento de pastejo e preferênciaalimentar de cavalos pantanei- ros usados no manejo diário dogado do pantanal. In: Reunião anual da sociedade brasileira de zootecnia, 41., 2004, Campo Grande. Anais… Campo Grande, 2004. CD-ROM.
  9. SEIFFERT, N.F.; THIAGO, L.R.L.S. Legumineira: cultura forrageira para produção de proteína. Campo Grande: Embrapa/cnpgc. ( circular técnica, 13) 52p., 1983.
  10. TAROUCO, KA. Fisiologia reprodutiva da égua. Estacionalidade Reprodutiva: A estacionali- dade dos acasalamentos, na maioria das espécies, pucrs. campus2. br/thompson/fisiologia reprodutiva da égua, 2012.

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