O Sistema Brasileiro de Produção de Equinos e os custos dos haras

0

 

Apesar de o cavalo ter chegado ao Brasil através dos portugueses no século XVI, foi só no início do século passado que se começou a importar cavalos de raça para esporte em escala significativa. No caso, foi a burguesia que mandava seus filhos para estudar na França (ciências humanas) ou Inglaterra (ciências exatas) – aonde os mesmos tinham contato com o turfe – que trouxe o cavalo PSI para o país.

Tentativas anteriores de se produzir e criar cavalos com qualidade fracassaram por falta de conhecimento técnico. Por isso, não se importou apenas cavalos europeus, mas também todo um pacote tecnológico de equinocultura de clima temperado acompanhado por profissionais acostumados àquela condição. Vieram da Hungria, por exemplo, gerentes de haras.

O Brasil copiou, sem adaptações, o modelo anglo-francês em seus haras. Não é preciso ser especialista para imaginar o resultado: uma infraestrutura capaz de aguentar uma nevasca, mas não um dia de verão tropical. Faltavam no país zootecnistas brasileiros para dimensionar construções cuja ambiência fosse mais favorável para o animal e mais prática para o proprietário/criador/trabalhador. A arquitetura com embasamento europeu não fazia (nem faz) sentido nas condições brasileiras.

Vale ressaltar que isso também ocorreu com outras criações de animais no Brasil. Entretanto, o Eng. Agr. Fernando Costa identificou esse problema na década de 1930, desde a época que foi Secretário da Agricultura, e a tropicalização das estruturas dessas criações (todos menos o cavalo) estava disseminada nos anos 1950.

Por que o cavalo não passou pelo mesmo processo nessa época? Podem-se elencar diferentes motivos: impermeabilidade da elite a essas novas ideias, preferindo a “suntuosidade” do sistema clássico; esquecimento do cavalo na sociedade urbana e sua menor importância econômica (o que só mudou com o crescimento dos esportes equestres e a produção de cavalos voltados para o público urbano).

Somente em 1978 foi lançado o Sistema Brasileiro de Produção de Equinos (SBPE) pelo Eng. Agr. Roberto Losito Carvalho e sua equipe na ESALQ, inspirado pelos haras portugueses, espanhóis e italianos de condições mais secas e mais parecidas com as condições brasileiras.

No SBPE, o pasto entra como fator essencial – não mais só em função social e física para o animal, mas também como alimento. É dividido em piquetes heterogêneos, cuja ocupação separa éguas prenhes, éguas com potro ao pé e potros. Isso permite a rotação de áreas para manutenção de gramíneas.

Dessa forma, reduz-se o custo com feno e ração, sendo que podem ser feitos e preparados no próprio haras. O arraçoamento é feito nas unidades de serviço nos devidos horários e os equinos vêm por conta própria até o devido local – diferentemente do sistema clássico em que um empregado deve guiar cada cavalo individualmente entre piquete e baia. Aliás, no SBPE, só ficam em baias animais sob tratamento veterinário ou em preparação para eventos; os garanhões têm seus próprios piquetes com abrigo/baia de acesso livre.

O SBPE é constituído por quatro programas: Programa Engenharia, Programa Nutricional, Programa Utilização e Programa Melhoramento. Em sua essência, os programas buscam conciliar boas práticas zootécnicas com eficiência econômica.

O Programa Engenharia além de eliminar as construções desnecessariamente sofisticadas, realizadas mais por ostentação do que por princípios zootécnicos, contribui significativamente para redução de custos, tanto de infraestrutura quanto de mão-de-obra. Ao contrário do sistema clássico em que há uso intensivo de baias, com a necessidade de cavalariços conduzindo os animais para baias onde comem no mínimo duas vezes por dia e dormem a noite, no SBPE a planta do haras segue um fluxograma racional, inclusive favorecendo a doma racional. Como dito anteriormente, os piquetes são heterogêneos, respeitando características como fertilidade do solo, topografia, limites de áreas, entre outras. A Figura 1 ilustra essa situação.

 

Figura 1 – Fluxograma simplificado de um haras de acordo com o SBPE Fonte: Carvalho (1985)

 

O Programa Nutricional busca a utilização de alimentos disponíveis regionalmente, maximizando a produção de ração no próprio haras. Privilegia-se a alimentação com volumosos, apenas utilizando concentrados para complementação nutricional. O Programa Utilização está centrado na doma racional e o Programa Melhoramento enfatiza o rigor científico em substituição ao empirismo na seleção de matrizes.

Enfim, o SBPE apresenta redução de custos de instalação, manutenção e operação aproveitando ao máximo as condições brasileiras. Considerando que o custo médio, por cabeça, é de cerca de quinze mil reais anuais e que a tropa brasileira de cavalos utilizados para lazer e esporte é de aproximadamente um milhão e cem mil cabeças, verifica-se que esses animais movimentam R$ 16,5 bilhões por ano. Neste valor, os principais componentes referem-se à mão-de-obra, ativos fixos (benfeitorias) e alimentação. Ou seja, o SBPE implica em redução justamente dos custos mais relevantes para equinocultura. Não é necessário muito cálculo para notar que a adoção do SBPE significa economia de bilhões de reais por ano para os haras, aliado com importantes ganhos de bem-estar animal.

Tudo justifica a divulgação, principalmente, a adoção do SBPE em larga escala, algo que já deveria ter ocorrido há mais de 30 anos (desde a divulgação do trabalho do Prof. Losito[3], reforçado pelas publicações de renomados autores, como o Prof. Claudio Haddad[4]).

Autores: Rafaela Mazza[1] Roberto Arruda de Souza Lima[2]

[1] Graduanda em Engenharia Agronômica, ESALQ/USP, Grupo Equonomia

[2] Professor doutor da ESALQ/USP, coordenador do Grupo Equonomia

[3] Ver Carvalho, R.L. O Sistema Brasileiro de Produção de Equinos. Turf e Fomento. Abr./jun 1985, p.129-130.

[4] Ver, por exemplo, Haddad, C.M. O que é o Sistema Brasileiro de Produção de Equinos. Revista Equinos. v.14, n.14, p.69-70, 1990

você pode gostar também

Pular para a barra de ferramentas