Osteoartrite em Equinos

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Uma das afecções responsáveis por reduzir o desempenho ou até mesmo aposentar equinos atletas ou de trabalho é a osteoartrite (OA) ou doença degenerativa articular (DAD). Alguns animais são exigidos além do seu limite de desempenho, o que pode acarretar este tipo de alteração, principalmente em equinos atletas. Esta afecção basicamente culmina com a degeneração progressiva da cartilagem articular em conjunto com alterações ósseas e de tecidos moles.

Muitos fatores além do treino intenso podem causar DAD, tais como envelhecimento, traumas singulares ou repetitivos, predisposição genética, excesso de peso, erros de treinamento e manejo dentre outros. Em casos graves gera muita dor e perda da função articular, sendo uma doença de caráter crônico, degradando progressivamente à cartilagem articular.

Na maioria dos equinos, os problemas de claudicação ocorrem nos membros anteriores, e isso é devido ao fato de seu centro de gravidade se encontrar mais próximo dos membros anteriores deslocando maior parte do seu peso para os membros anteriores gerando mais carga e maior possibilidade de lesões (OLIVEIRA, 2016; ROSS, 2011b).

Atividades físicas intensas são os fatores que mais promovem a OA, porém, pode ter origem em varias causas, predisposição genética, tipo de trabalho e exercício do animal, animais obesos, casqueamento inapropriado, defeitos de conformação. Em todos os casos a inflamação sinovial, seja qual for a etiologia, culmina com a degradação da cartilagem articular resultando em OA (BROSSI, 2007).

A cartilagem articular é inervada e vascularizada indiretamente, tem baixa taxa metabólica, absorve e distribui as cargas geradas para os segmentos ósseos adjacentes. (BROSSI, 2007). Quando há algum desequilíbrio que gere algum stress nesse local, as articulações passam a não conseguir gerar resposta adequada a carga de exercício que sofre e isso resulta em lesões (BROSSI, 2007).

A fim de facilitar a correlação da patogênese, diagnóstico e tratamento, dividiram a osteoartrite dos cavalos em 4 entidades diferentes com um quinto problema de status incerto. (STASHAK, 1994)

  1. Aguda – Relacionadas com cavalos jovens, geralmente de corrida afeta articulações moveis como as do carpo e matacarpofalangeanas, o processo degenerativo geralmente são precedidas de sinovite e capsulite
  2. Insidiosa – Compromete articulações que recebem muita carga e com pouca mobilidade como articulação interfalângica (exostose interfalângica) e intertársica (esparavão ósseo), acomete todas as idades.
  3. Erosão da cartilagem articular incidental ou “não progressiva” tem significado clinico questionável, gera uma serie de alterações a necropsia talvez ligadas ao avançar da idade.
  4. Secundária a outros problemas tais como fraturas intra-articulares, deslocamentos/ ruptura de ligamentos, ferimentos, artrite séptica, osteocondrose.
  5. Condromalácia da patela – fibrilação da cartilagem na superfície articular da patela. (STASHAK, 1994).

Também foram descritas três possíveis etiologias para a osteoartrite: A primeira diz que forças físicas suplantariam os limites de carga da cartilagem danificando sua estrutura, a segunda é sobre a ineficiência das respostas dos condrócitos a processos de regeneração e lesões na cartilagem, à terceira teria uma causa primária como trauma, alterações vasculares, ou seja, alterações extra-articulares que iriam culminar com a osteoartrite. (BROSSI, 2007)

Várias alterações podem causar degeneração da cartilagem articular, porém a degeneração da cartilagem é a condição principal para osteoartrite. Na osteoartrite ocorre degeneração e proliferação de ossos, espessamento da membrana sinovial e lesões na cartilagem.  Existem alguns fatores de risco que podem atenuar a possibilidade do desenvolvimento de osteoartrite, que são eles a idade (Com o aumento da idade as lesões são mais graves e o conjunto articular não possui capacidade biomecânica para suportar ao stress gerado), trauma direto na articulação, stress mecânico repetitivo (Elevada incidência de OA), Nutrição (Excesso de fósforo, desequilíbrio de cálcio/fósforo, deficiência de cobre são fatores suspeitos em favorecer OA). (ROCHA, 2008)

Fig. 1 Ilustração esquemática da comparação entre a articulação normal (à esquerda) e a articulação com osteoartrite (à direita); a- fibrose da cápsula articular, b – sinovite, c – lesão na cartilagem, d – ácido hialurónico despolimerizado, e – osteófito, f – quistos subcondrais, g – capilares sanguíneos engorgitados; (adaptado Frisbie, 2012) Disponivel em: (OLIVEIRA, 2015) < http://bibliotecas.utl.pt/cgi-bin/koha/opaç-detail.pl?biblionumber=496955 >

 

Inicialmente ocorre um processo inflamatório com aumento do fluido sinovial, quando a inflamação vai progredindo ocorre um aumento de proteínas, leucócito e redução da viscosidade do fluido articular devido à baixa de acido hialurônico.  Com a inflamação da membrana sinovial ocorre à liberação de enzimas de degradação colagenases, proteases, glicosidases, promovendo perda da consistência da cartilagem, podendo levar a sua fragmentação e em casos mais severos erosão total com perda da cartilagem articular (OLIVEIRA, 2016; McDonald et al 2006).

Macroscopicamente a cartilagem articular perde seu brilho e consistência normais, adquire consistência mole e cor amarelada, formação de vesículas que podem se tornar erosões que representam perda da espessura da cartilagem podendo ser localizadas ou difusas. Pode ocorrer também à exposição do osso subcondral o que gera aparência esclerótica polida, com o desgaste continuo podem surgir sulcos ou “linhas de desgaste”. A principal lesão histológica é o rompimento da cartilagem articular ao longo das fibrilas de colágeno da matriz (STASHAK, 1994).

Os sinais clínicos variam de acordo com o grau de inflamação e tipo de OA. Articulações com muita movimentação com inflamação elevada haverá claudicação, calor, inchaço da articulação e dor a flexão esses sintomas são comuns a outras afecções sendo a osteoartrite identificada com bases em radiografia/artroscopia, exame clinico minucioso avaliação do histórico de vida do animal, atividade que executa, traumas agudos ou crônicos, manejo, nutrição. Em articulações de pouco movimento, os sinais mais evidentes são aumento de volume articular e aumento da claudicação com a flexão. (STASHAK, 1994; THOMASSIAN, 1996)

As alterações radiográficas principais na osteoartrite incluem estreitamento ou perda do espaço articular, esclerose do osso subcondral, osteófitos marginais, proliferação óssea periosteal, podendo ocorrer anquilose. A lise subcondral também é muito observada na OA. Alterações degenerativas ligadas a fraturas intra-articulares podem ser definida melhor com artroscopia. A termografia também pode ser útil na identificação de processos inflamatórios residuais. Avaliação laboratorial do liquido sinovial também são interessantes para o diagnóstico de OA, avaliando-se composição do liquido, volume do liquido sinovial, viscosidade a redução da viscosidade é achado frequente em equinos com OA, presença de fatores inflamatórios. (STASHAK, 1994; THOMASSIAN, 1996).

Fig 2. Estas imagens retratam as características radiográficas típicas da osteoartrite interfalangiana proximal crônica. Osteófitos, entesófitos, estreitamento do espaço articular (assimétrico neste exemplo), esclerose subcondral e cistos subcondrais são evidentes.Disponível no livro Diagnóstico de Radiologia Veterinária / [editor] Donald E. Thrall ; [tradução AldacileneSouza da Silva, et al.] – 6 ed. – Rio de Janeiro : Elsevier, 2014
Não existe cura definitiva para OA, por ser resultado de processos patológicos diferentes a escolha do tratamento e eficácia vão depender do grau desta afecção. O Objetivo do tratamento é aliviar a dor e retardar a perda progressiva da cartilagem. Os princípios clínicos do tratamento são divididos em 3 áreas: 1ª prevenção e tratamento de qualquer causa primária, 2ª tratamento de doenças que atingem os tecidos moles que podem contribuir para a degeneração articular que inclui repouso, fisioterapia, drogas anti-inflamatórias, lavagem da articulação, hialuronato de sódio, PSGAG e sinovectomia o 3º tratar a degeneração da osteoartrite fulminante se possível com os seguintes procedimentos, curetagem da cartilagem articular, remoção de osteófitos, terapia de radiação e artrodese cirúrgica, assim como algumas medicações recentemente desenvolvidas que promovem regeneração da cartilagem. (STASHAK, 1994)

Quanto mais precoce for o diagnóstico e inicio de tratamento da OA maiores as chances de um prognóstico favorável e de retorno do equino as suas atividades.

 

Texto por: Priscila Lessa Andrade, 8º período de medicina veterinária na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ.

Edição e Revisão: Deivisson Aguiar, Médico Veterinário

 

Referências Bibliográficas

 

BROSSI, Patricia Monaco. Avaliação dos Efeitos Antiinflamatórios da Proteína Antagonista de Receptor de Interleucina-1 (IRAP) por Citometria de Fluxo em Liquido Sinovial de Equino. 2007. 109 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, 2007. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/10/10136/tde-29102007-114908/en.php >

MACDONALD, M. H., Kannegieter, N., Peroni, J. F. & Merfy, E., (2006). The musculoskeletal system, 15. In Higgins, A. J. e Snyder, J. R. – “The equine manual” (2nd ed.). Saunders Elsevier, ISBN: 0-7020-2769-3, p. 869-1058

OLIVEIRA, Carolina de Carvalho Figueiredo Cruz. Clinica medica e cirurgia de equinos. 2016. 114 f. Relatório Final Estágio de Mestrado – Universidade de Évora, Escola de Ciências e Tecnologias, 2016. Disponível em: < http://dspace.uevora.pt/rdpc/handle/10174/19594

OLIVEIRA, Rafaela Andreia Crespo. O uso do soro autólogo condicionado (IRAP) no tratamento de lesões articulares em equinos: estudo preliminar. 2015, Lisboa. 94 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade de Lisboa, Faculdade de Medicina Veterinária, 2015. Disponível em: < http://bibliotecas.utl.pt/cgi-bin/koha/opaç-detail.pl?biblionumber=496955 >

ROCHA, Francisco José Martins. Osteoartrites em Equinos. 2008, Lisboa. 76 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Técnica de Lisboa, Faculdade de Medicina Veterinária, 2008. Disponível em: < https://www.repository.utl.pt/handle/10400.5/6220 >

ROSS, M. W., (2011b). Lameness in horses: basic facts before starting, 2. In Ross, M. W. e Dyson, S. J. – “Diagnosis and management of lameness in the horse” (2nd ed.). Saunders Elsevier, EUA, ISBN: 978-1-4160-6069-7, p. 3-8

STASHAK, Ted. S. Claudicação em Equinos Segundo Adams. 4th ed. São Paulo: Editora Roca Ltda, 1994. p. 398-412.

THOMASSIAN, A. Enfermidades dos cavalos. 3. ed. São Paulo: Varela, 1996. p. 139-153.

THRALL, Donald E. Diagnóstico de Radiologia Veterinária ; [tradução Aldacilene Souza da Silva, et al.] – 6 ed. – Rio de Janeiro :          Elsevier, 2014.

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