Pitiose cutânea com invasão de articulação em equino

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Pitiose cutânea com invasão de articulação em equino

Luan Gavião Prado1*; Thiago Pires Anacleto1; Alexandre Roberto Martins Guedes2; João Gabriel Werneck2; Caíque Augusto Ribeiro Gomes2; Flávia Adelaide Santos2; Angela Akamatsu1; Leonardo José Rennó Siqueira1; Rodolfo Malagó1

1 – Professor do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário de Itajubá – FEPI

2 – Estudante de graduação do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário de Itajubá – FEPI

*Autor para correspondência

Resumo

A pitiose é uma doença crônica que acomete equinos, cães e os seres humanos. A afecção é causada pelo oomiceto Pythium insidiosum e é também conhecida como ferida de moda, granuloma ficomicótico ou hifomicose. A forma cutânea, mais comum em equinos, é caracterizada por lesões granulomatosas, com secreção serossanguinolenta a mucopurulenta, bordas irregulares e por concreções amareladas chamadas kunkers, é extremamente pruriginosa levando o animal a automutilação. Este trabalho teve como objetivo relatar o caso de uma égua com pitiose cutânea com acometimento intra-articular da articulação rádio-cárpica-metacárpica. O diagnóstico definitivo foi dado através de observação direta e cultivo do agente. Devido à extensão da lesão e do acometimento articular o animal foi submetido à eutanásia.

Palavras-chaves: Pythium insidiosum; Pitiose; Equino; Itajubá.

Pitiosis cutánea con invasión articular en un equino

Resumen

La pitiosis es una enfermedad crônica que acomete equinos, perros y los seres humanos. La afección es causada por el oomiceto Pythium insidiosum y se conoce también por herida de moda, granuloma ficomicótico o hifomicosis. La forma cutánea es caracterizada por lesiones granulomatosas, com secreción serosa a sangrienta o mucosa a purulenta, con orillas iregulares y concreciones de color amarillo llamadas de kunkers, es extremamente picantes que puede llevar al animal a automutilación. Este trabajo tuve como objetivo hacer un estudio de caso de um yégua con pitiosis cutánea y invasión de la articulación radio-carpica-metacarpica. El diagnóstico fue a traves de la obsevación directa del agente y cultivo microbiológico. Devido a la grande extensión de la lesión e del acometimento de la articulación el animal fue sumetido a eutanásia.

Palabras-claves: Pythium insidiosum, Pitiosis; Equino, Itajubá.

Skin pythiosis associated with articular invasion in a horse

Abstract

Pythiosis is a chronic disease that causes lesions in horser, dogs and human been. The disease is caused by an oomycete called Pythium insidiosum and is also known as moda wound, ficomycosis granuloma or hifomycosis. The skin condition is characterized by granulomatous lesions serosanguineous to mucopurulent secretion, irregular edges and kunkers, the lesion can be so itchy that the animal can bite itself. The aim of this paper was to report a case of skin pythiosis with invasion of the radio-carpal-metacarpal joint. The definitive diagnostic was made by visualization of the agent and by microbiological culture. Since the skin lesion was too big and because of the joint invasion, the animal was euthanized.

Key-words: Pythitium insidiosum; Pythiosis; Equine; Itajubá.

Introdução

A pitiose é uma doença crônica, cosmopolita, de áreas temperadas, tropicais e subtropicais, pantanosas ou sujeitas a inundações periódicas12;16;19 causada por um oomiceto denominado Pythium insidiosum1. A doença pode acometer várias espécies, sendo os equinos os mais acometidos5, seguidos dos caninos15;20. A infecção em humanos é rara, sendo caracterizada por lesões subcutâneas e arterite19 e normalmente está associada a casos de α e β talassemias9;10.

A doença é conhecida, no pantanal mato grossense e sul mato grossense como ferida de moda e também é denominada de swamp cancer, zigomicose, granuloma ficomicótico, dermatite granular, Florida leeches e hifomicose11;12;19.

As formas cutânea e subcutânea são as mais comuns em equinos e se caracterizam por lesões granulomatosas ulcerativas que formam grandes massas teciduais, com bordas irregulares e hifas recobertas por células necróticas que formam massas branco-amareladas chamadas de kunkers. As massas variam de dois a 10mm de diâmetro, apresentando formas irregulares, ramificadas, com aspecto arenoso e penetram no tecido granular. O tamanho das lesões depende do local e do tempo de infecção, podendo apresentar secreções serossanguinolentas, mucossanguinolentas, hemorrágicas ou mucopurulentas. Uma característica marcante da doença é o prurido intenso, podendo levar o animal à automutilação4;7;11;12.

Em um estudo retrospectivo realizado por Assis-Brasil et al. (2015) foram estudadas as principais afecções de pele no sul do estado do Rio Grande do Sul, durante os anos de 1978 a 2013, utilizando 710 registros de atendimentos de equinos. A pitiose foi a terceira doença mais prevalente no estudo correspondendo a 9,4% (67/710) dos casos.

Watanabe et al. (2015), trabalhando com 28 animais recebidos no Serviço de Clínica Cirúrgica de Grandes Animais da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – UNESP, citam o membro distal como o principal local de ocorrência das lesões de pitiose. Dos 28 animais avaliados 13 apresentavam lesão na região distal do membro. A região abdominal foi a segunda mais prevalente (7/28).

Tradicionalmente, o diagnóstico da pitiose é realizado pela avaliação clínica dos animais, sorologia, histopatologia, isolamento e identificação do agente por meio de suas características de cultivo, morfológicas e reprodutivas 4;14;18. O tratamento na maioria dos casos é cirúrgico associado a tratamentos sistêmicos, tópicos ou à perfusão regional de agentes antifúngicos, como a anfotericina B. Novos tratamentos vêm sendo propostos e a utilização de imunoterápicos parece ser uma boa alternativa para o tratamento das lesões pequenas ou em associação com o tratamento cirúgico 2;6;8;13;17.

Relato de caso

No dia 17/03/2015 foi atendida no Hospital Escola de Medicina Veterinária do Centro Universitário de Itajubá – FEPI uma égua de oito anos, pesando aproximadamente 280 quilos com uma ferida na região do carpo do membro esquerdo. Segundo o proprietário a lesão fora observada três meses antes do encaminhamento do animal para o Hospital Escola de Medicina Veterinária. Ao exame clínico o animal estava magro, com parâmetros vitais dentro dos valores de referência para a espécie e apresentava claudicação moderada.

A ferida era ulcerativa, com exsudato serossanguinolento a mucopurulento, apresentava tratos fistulosos por onde drenavam concreções amareladas e firmes, características dos kunker ou cancros (Fig. 1 A e B).

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Figura 1 – A Ferida na região do carpo do membro esquerdo de aproximadamente 20 centímetros de diâmetro. B Ferida apresentando secreção serossanguinolenta a mucopurulenta e tratos fistulosos. Fote: Autores,

A paciente recebeu dexametasona intravenosa na dose de 0,5mg (5mL) durante todo o período em que foi mantida internada com intuito de aliviar o prurido intenso causado pela doença e que levava à automutilação (Fig. 2).

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Figura 2 – Animal apresentando prurido da região da ferida. Notar a condição corporal ruim (Escore de condição corporal 2) do animal devido à doença. Fonte: Autores.

A ferida foi mantida limpa, sendo aplicado spray repelente com sulfadiazina de prata até o recebimento dos resultados dos exames complementares.

As amostras da lesão e dos cancros foram encaminhadas para a o laboratório de microbiologia do Centro Universitário de Itajubá – FEPI para identificação direta do agente por microscopia óptica. Os cancros foram clarificados com hidróxido de potássio a 10% overnight e então corados com tinta nanquim. À microscopia foram observadas hifas com septações esparsas e brotamentos de 90º, característicos do Pythium insidiosum (Fig. 3). As biopias da ferida foram mantidas em solução fisiológica estéril com ampicilina até o momento da avaliação. No laboratório de microbiologia as amostras foram maceradas e semeadas em Agar Saboraud. As placas foram mantidas em estufa microbiológica a 37º C durante 48 horas, sendo observadas colônias brancas, de aspecto algodonoso e invasivas, características do agente (Fig. 4).

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Figura 3 – Hifa de Phytium insidiosum apresentando brotamento em 90º. Coloração com tinta nanquim. Aumento 1000x. Fonte: Autores. Figura 4 – Colônia de Pythium insidiosum em Agar Saboraud após 48 horas de incubação a 37º C. Notar aspecto algodonoso e invasivo da colônia. Fonte: Autores.

No hemograma foi observada anemia normocítica normocrômica arregenerativa (hemácias: 4,36×106 células/mm3; hematócrito: 20,3%; hemoglobina: 7,4 g/dL; VGM: 46,6 fL; HGM: 17 pg).

A paciente foi encaminhada para a avaliação radiológica. No exame radiológico foi evidenciado o acometimento da articulação do carpo esquerdo, caracterizado pelas reações periosteais presentes nos ossos acessório do carpo, cárpico IV e na cabeça do osso metacarpo IV (Fig 5 A e B), sugerindo que a articulação havia sido afetada pela afecção.

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Figura 5 – Demonstra imagem radiográfica nas projeções craniocaudal (A) e lateromedial (B) da articulação rádio-carpo-metacárpica esquerda evidenciando massa radiopaca periarticular e intra-articular associada à reação periosteal elevada e irregular na cabeça e colo do metacarpo IV (setas brancas) e face caudal do acessório do carpo (seta vermelha). Fonte: Autores.

Após avaliação dos resultados dos exames complementares foi indicada a eutanásia da paciente devido à extensão da lesão de pele e do acometimento da articulação do carpo.

Discussão e Conclusão

O presente relato se justifica pela gravidade da lesão causada pela pitiose na paciente em questão. Doria (2009) utilizou em seu experimento animais com lesões de pitiose na região distal de membros. A autora ressalta que em sua grande maioria este é o local de predileção para a ocorrência da doença, fato também relatado por Watanabe et al. (2014) que atenderam, dentre 28, 13 animais com lesão causada pelo Pythium insidiosum em membros. Além disso, os animais avaliados nos estudos apresentavam-se magros ou muito magros, o que mostra que a pitiose podem levar a quadros debilitantes. O animal deste relato apresentava condições semelhantes às descritas, com o agravante do acometimento articular. Não foi encontrado, até onde foi possível pesquisar na literatura científica atual, nenhum relato de acometimento articular pela pitiose.

Vários autores têm proposto tratamentos para a afecção, sejam eles únicos ou em associação a outros métodos, ressecção cirúrgica unicamente ou associada a tratamento medicamentoso, imunoterapia, perfusão regional de antifúngicos, dentre outros. Uma conclusão quase que unanime nos trabalhos é que a pitiose tende a ter recidivas, mesmo após tratamento cirúrgico e medicamentoso. Tal fato corroborou para a decisão de se realizar a eutanásia do animal em questão.

Conclui-se que a pitiose é uma doença de pele extremamente agressiva, que pode acometer outros tecidos e órgãos como, por exemplo, as articulações, tornando o prognóstico desfavorável para o paciente, sendo necessária, em alguns casos, a indicação da eutanásia.

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