PITIOSE EQUINA

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A pitiose é uma dermatopatia infecciosa causada pelo oomiceto aquático Pytium insidiosum, pertencente à família Pythiaceae, do gênero Pythium (Santurio et al. 2006). Também é conhecida como hifomicose, dermatite granular, ‘’bursattee’’, zigomicose, ‘’Florida leeches’’, ‘’swamp cancer’’ e granuloma ficomicótico (Chaf in et al. 1995; Foil et al. 1996). Nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul o nome popular é “ferida da moda’’ (Leal et al. 2001).

Geralmente ocorre em regiões de clima tropical, subtropical e temperado, sendo principalmente descrita em equinos, porém, também pode acometer caninos, bovinos, ovinos e humanos. Não há relatos de transmissão direta entre animais e entre animais e homens (Mendonza et al. 1996). Não há predisposição por idade, raça ou sexo.

A ocorrência da pitiose é influenciada pela presença de vegetação aquática, acúmulo de água em lagoas e banhados, onde equinos permanecem por longos períodos e, principalmente, temperaturas entre 30 e 40°C (Miller & Campbell, 1982). Figura 1.d

Figura 1: Equinos parcialmente submersos no lago com presença abundante de plantas aquáticas, em região com elevadas temperaturas (acima de 30ºC em média). Ambiente propício para presença de zoósporos de Pythium insidiosum. C.E.P.

 

Adaptado de: Santos, R.S. Juliano, J.M. Santurio & L.C. Marques. 2011. Eficácia da imunoterapia no tratamento de pitiose facial em equino.

Baseado em estudos epidemiológicos, acredita-se que o período de incubação dura por várias semanas; e, a maioria dos casos são observados durante ou após a estação chuvosa (Leal et al. 2001).

Este oomiceto realiza seu ciclo de reprodução nas águas, onde ocorre a formação de zoósporos infectantes que são atraídos por quimiotaxia à tecidos danificados dos animais, onde se fixam e formam tubos germinativos, iniciando a enfermidade.  As plantas aquáticas servem de substrato para o desenvolvimento e reprodução do organismo. (Mendonza et al. 1996; Miller et al. 1983).

Lesões cutâneas são facilmente distribuídas na extremidade distal dos membros e porção ventral da parede abdominal; porém, também podem ocorrer na face; estes são os locais mais comuns, provavelmente, devido ao maior tempo de contato com águas contaminadas com zoósporos (Chaf in et al. 1995; Santurio et al., 2006). Figura 2.d

Figura 2: Lesão em região ventral da parede abdominal. Adaptado de: Archives of Veterinary Science v.7, n.2, p.99-102, 200.

 

No Brasil, esta enfermidade representa um problema à equinocultura, principalmente em regiões alagadas, como o Pantanal Mato-Grossense (Mendonza et al. 1996).

Essa enfermidade é caracterizada por lesões ulcerativas granulomatosas que formam os chamados ´´Kunkers“; estes possuem forma irregular, ramificada, com aspecto arenoso e penetram no tecido granular, dentro de sinus formados ao longo do seu trajeto. Figura 3.

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Figura 3: Massas necróticas e calcificações que se desprendem facilmente, com coloração branco-amarelada. Adaptado de: Revista CES Medicina Veterinaria y Zootecnia / Volumen 8 / Número 1 / enero – junio de 2013/ ISSN 1900-9607.

 

Formam-se grandes massas teciduais necróticas branco-amareladas, com bordas irregulares, de aparência tumoral e com hifas recobertas por células necróticas. Figura 4.d

Figura 4: Ulcerações granulomatosas, sobressalentes e elevadas com bordas irregulares e em forma de cratera. Adaptado de: Revista CES Medicina Veterinaria y Zootecnia / Volumen 8 / Número 1 / enero – junio de 2013/ ISSN 1900-9607

 

Nas outras espécies, a formação de ´´Kunkers“ não é observada (Leal et al. 2001; Santurio et al. 2006). Ocorre uma variação no tamanho das lesões, dependendo do local e da duração da infecção. Além disso, as lesões apresentam secreções que variam de sero-sanguinolenta, muco-sanguinolenta, muco-purulenta e hemorrágica. (Chaf in et al. 1995; Leal et al. 2001; Meireles et al. 1993; Mendonza et al. 1996; Miller et al. 1982).

Devido ao intenso prurido observado na pitiose, é comum que os animais se auto-mutilem na tentativa de aliviar o desconforto. O animal fica inquieto e incomodado, podendo ocorrer o emagrecimento progressivo do animal. Animais acometidos por lesões nos membros apresentam claudicação. A partir de infecções subcutâneas, o agente também pode afetar os ossos adjacentes às lesões cutâneas crônicas e órgãos, como pulmões e fígado;  porém, esta forma é menos comum (Brown et al. 1988; Morton et al. 1991; Purcell et al. 1994).

A segunda forma mais frequente da infecção pelo Pythium insidiosum é o envolvimento intestinal, com episódios de cólica, cuja causa é a presença de massas teciduas com diminuição e obstrução do lúmen intestinal (Santurio et al. 2003). Na maioria dos casos de pitiose cutânea, os linfonodos regionais encontram-se aumentados (Miller et al. 1984).

Nos últimos anos, as técnicas sorológicas, como; ELISA, imunodifusão, PCR e imunohistoquímica estão sendo realizadas e permitem um diagnóstico precoce e correto, incrementando o sucesso terapêutico (Mendonza et al. 1996; Santurio et al. 2006).

O exame direto do tecido é realizado com hidróxido de potássio a 10% e tinta Parker, quando será possível a visualização de hifa hialina espessa, septada e ramificada, algumas vezes, é possível visualizar vesículas lipídicas no citoplasma destacas na periferia, formando um fenômeno denominado Splendore-Hoeppli (Pérez et al. 2005).

Na histopatologia, há a fixação das amostras com formol à 10%, inclusão em parafina, cortadas histologicamente e coradas pela hematoxilina eosina (HE) e Prata Metenamina de Grocott (GMS). Á partir da  HE visualiza-se uma infiltração inflamatória piogranulomatosa com intensa infiltração de eosinófilos polimofonucleares, macrófagos e neutrófilos distribuídos de maneira difusa e em menor quantidade. Na coloração GMS visualiza-se estruturas ramificadas, septadas de cor marrom escuro, com paredes lisas e paralelas (Márquez et al. 2010).

A técnica de ELISA possibilita a detecção de anticorpos específicos com alto grau de sensibilidade e especificidade (Santurio et al. 2006).

Tradicionalmente, o diagnóstico da pitiose é realizado baseado nas características clínico-epidemiológicas da lesão macroscópica e o histórico do caso, histopatologia, na identificação do agente através de suas características morfológicas, culturais e reprodutivas ou por isolamento (Leal et al. 2001) Lesões cutâneas apresentam três sinais característicos, como a presença de ‘’kunkers’’, secreções fibrinosanguinolentas e presença de tratos sinusais.

No diagnóstico diferencial inclui-se neoplasias, sarcóide, habronemose, quadros clínicos com tecido de granulação exuberante e os granulomas fúngicos ou bacterianos (Chaffin et al. 1995). Frequentemente ocorrem infeções secundárias, apresentando uma dificuldade para o isolamento do agente e tratamento da doença (Bandeira et al. 2009; Maciel et al. 2008).

Inicialmente proposta por Miller, a imunoterapia é uma alternativa para o controle da doença e, apresentou resultados satisfatórios (Monteiro, 1999; Mendonza et al., 2003). O coelho foi a espécie testada para a inoculação de zoósporos produzidos por zoosporangênese em laboratório, pois foi o único animal que conseguiu reproduzir a pitiose cutânea à partir da inoculação dos zoósporos (Miller & Campbell, 1983). Esse imunoterápico é produzido no Laborarório de Pesquisas Micológicas da Universidade Federal de Santa Maria (LAPEMI) junto á EMBRAPA – Pantanal e, recebe o nome de Pitium-Vac. Apenas coelhos desenvolvem uma boa resposta para a profilaxia da pitiose ao receberem este quimioterápico. Portanto, para equinos, as alternativas para a prevenção da pitiose é evitar que os animais tenham contato com áreas alagadiças e, em caso de surgimento de lesões, procurar o auxílio do Médico Veterinário, que é o único profissional capacitado para determinar o melhor tratamento para o animal.

Texto por: Crícia Alves Gutjahr, 4° ano, Universidade Estadual do Norte do Paraná –UENP, Bandeirantes – PR.

Edição e Revisão: Deivisson Ferreira Aguiar, Médico Veterinário, CRMV/ES 1569, Muniz Freire – ES

REFERÊNCIAS

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