Raízes históricas, econômicas e sociais da equideocultura no Brasil

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Os equideos nem sempre foram bem compreendidos, mas sempre foram protagonistas da história econômica e social, seja pelas suas aptidões e habilidades, seja por seu simbolismo. Quem pode imaginar a proclamação da Independência ou da República sem a presença do cavalo? Ou Napoleão distante do decantado “cavalo branco[1]”? No caso brasileiro, nem D. Pedro I nem Marechal Deodoro utilizaram os fogosos animais presentes no imaginário e em obras de arte. No dia 15 de novembro de 1889, Marechal Deodoro encontrava-se com a saúde debilitada, incapaz de montar um animal que oferecesse qualquer risco. A Proclamação de República foi feita no dorso daquele que era mais manso dos cavalos do 1º Regimento de Cavalaria, o baio nº 6. D. Pedro, às margens do Ipiranga, deveria estar montando uma mula, animal mais recomendado para a dura trilha pela Serra do Mar.

O exposto no parágrafo anterior não desmerece em nada a importância dos equídeos, fundamentais para formação do Brasil como será discutido adiante, apenas ilustra como a imagem desses animais foi trabalhada ao longo de séculos. E isto trouxe uma conotação elitista do uso do cavalo, injustamente esquecendo suas importantes contribuições para economia e descriminalizando a atividade equestre como se fosse um mero hobby. Esse artigo tem o intuito de resgatar o papel central dos cavalos, asininos e muares da economia brasileira desde o período colonial.

Embora as origens do cavalo moderno estejam no Continente Americano[2], os cavalos foram extintos neste continente há 8.000 e reintroduzidos somente com a chegada dos espanhóis e portugueses no século XVI. Cristóvão Colombo foi o primeiro a trazer os animais europeus, já em 1494, sendo que Hernán Cortez trouxe outros 16 cavalos em 1519. Os primeiros registros oficiais de entrada de cavalos no Brasil datam de 1549, quando Tomé de Souza, a bordo da caravela Galga. No recém descoberto Brasil, apenas as capitânias de São Vicente e Pernambuco haviam prosperado, o que motivou D. João XI a nomear Tomé de Sousa como primeiro Governador Geral para buscar o desenvolvimento de toda colônia.  Para tanto, Tomé de Sousa desembarcou onde hoje é a Bahia (posição intermediária entre as duas capitanias que haviam se desenvolvido), trazendo bovinos e equinos permitir a formação daquela que seria a primeira capital da colônia. Adicionalmente, Tomé de Sousa autorizou e incentivou a entrada de exploradores pelo sertão, em busca de ouro. Assim, a formação e interiorização do Brasil iniciam-se com a fundamental ajuda de equídeos.

A chegada dos cavalos na caravela Galga, na Bahia, é um marco histórico, mas deve-se ressalvar que nas citadas capitanias mais desenvolvidas à época já havia ocorrida a entrada de equídeos. Na Capitânia de São Vicente, cujo donatário era Martin Afonso de Souza, sua esposa e procuradora, D. Ana Pimentel, já havia trazido animais em 1534, provenientes das Canárias e Ilha da Madeira. Já no Nordeste, acredita-se que o donatário da Capitania de Pernambuco, Duarte Coelho, tenha trazido cavalos para região em 1535.

No século XVI, além da relatada introdução intencional do cavalo no Brasil, ocorreu a chegada não programada de muitos cavalos, nomeadamente na região Sul. Esses cavalos chegaram de duas formas diferentes. Primeiramente, Pedro de Mendonza levou 100 cavalos para Argentina no ano de 1534. Descendentes desses animais, com passar do tempo, ocuparam áreas onde hoje se encontra o Rio Grande do Sul. Região que à época não compunha o território político-administrativo brasileiro.  Outra forma de introdução de cavalos no sul do Brasil foram os animais extraviados da expedição de D. Avelar Nuñes Cabeza de Vaca, ou simplesmente Cabeça de Vaca, que atravessou o território brasileiro com diversos cavalos a caminho de colônias espanholas.

Uma das importantes motivações para iniciar a criação de cavalos no Brasil foi a necessidade de fornecer animais para as tropas portuguesas na África. O cavalo era uma importante arma de guerra e fator de intimidação das tribos africanas. Devido às características de navegação (ventos e correntezas), a rota mais interessantes para as embarcações portuguesas era no sentido anti-horário, partindo de Portugal, passando pelo Brasil e depois a África. Desta forma, era preferível transportar cavalos do Brasil para África e não diretamente da Europa. Esse fluxo de exportação de cavalos para abastecer tropas portuguesas na África ocorreu até o século XVIII. Padre Fernão cardim, em varta datada de 9 de maio de 1583 relata que a criação de cavalos de Pernambuco fornecia os cavalos que existiam em Angola.  A partir de 1648, Cartas do Rei de Portugal recomendavam expressamente o envio de cavalos para Angola. De acordo com a Carta Régia de 16 de setembro de 1688, havia a obrigatoriedade de enviar dois cavalos para cada 100 toneladas de arqueação nos navios que partiam rumo à Angola. Ordens para que toda embarcação que partisse para Angola  levassem também cavalos eram dadas rotineiramente, conforme pode ser verificado nas Cartas Régias e Provisões de 1706, 1707, 1712, 1715, 1719, 1720, 1721, 1722, 1726, 1753, 1754. Para maior facilidade no atendimento desta recomendação, a partir de 1726 era facultado o envio da tropa divido em diferentes embarcações,  mas o total de animais deveria ser respeitado.

A necessidade de alimentos, tanto para escravos quanto para homens livres, e de tração animal fez com que a pecuária (bovinos e equídeos) ocupassem o interior do Brasil. Sem carne e sem tração animal, os colonizadores não teriam avançado além da faixa litorânea. Deve-se destacar que a necessidade de tração não era apenas para buscar e transportar riquezas mineradas ou produzidas no interior do país, mas também para buscar um importante insumo: lenha. Neste ponto, vale a lembrança que os engenhos e a urbanização foi devastando áreas, implicando em abastecimento de lenha de lugares mais distantes a medida que crescia o país.

Interessante notar que a pecuária diferenciava-se das demais atividades, como a produção de açúcar e a mineração, em um importante aspecto. Seus produtos (carne) e serviços (tração) eram consumidos internamente, ao contrários dos demais itens (exportados), de modo que os rendimentos da pecuário, onde se inserem os equídeos, geravam renda  que permanecia no Brasil.

A expansão da fronteira produtiva do Brasil, puxada pela pecuária, ocorreu em grande parte por imposição do Governo.  A presença de animais em áreas agrícolas implicava em danos nas culturas, prejuízos aos proprietários. Convém lembrara que na época não se utilizava cercas, muito menos arames, par demarcar áreas, de modo que os animais pastejavam livremente entre as plantações. Este fato, associado às pressões dos agricultores, levaram à criação de normas que forçaram o deslocamento de rebanho e tropas para regiões distantes do litoral (onde se encontravam a agricultura e os engenhos). A Provisão de 30 de janeiro de 1698, de El-Rei D. Pedro, impunha que o gado não poderia ficar em uma área costeira de Itapoã ao Rio Vermelho, na Bahia, preservando as lavouras. No mesmo sentido, a criação de animais a menos de 10 léguas da costa foi proibida através de Carta Régia de 1701.

A mineração deu o grande impulso para que a criação de equídeos ocupasse todo território brasileiro. As tropas abasteciam os núcleos mineradores e escoavam a produção. Várias rotas se formaram durante o ciclo da mineração.  A partir do litoral da Bahia, os caminhos seguiam a direção do Rio São Francisco, No Maranhão, o rio que definiu o rumo foi o Itapicuru. De Pernambuco, as rotas seguiram em direção norte, onde hoje estão Paraíba e Rio Grande do Norte.  No século XVII a pecuária já ocupava o interior do atual Estado do Piauí e tropas de origem baiana passaram a se misturar com as tropas pernambucanas, ocupando o atual Ceará.

A partir da segunda metade do século XVIII, a produção de charque no sul do país, entre o Rio Pelotas e São Gonçalo, ganhou importância econômica. Isto provocou crescimento da criação de equídeos na região que rapidamente se tornou exportadora de animais para outras regiões do Brasil. No início do século XIX cerca de cinco mil cavalos saiam do Rio Grande do Sul rumo as diversas feiras  de comércio de animais, especialmente em Sorocaba, onde a tropa era redistribuída para o restante do território brasileiro.  O transito desses animais, do Sul ao Norte e Centro do Brasil, formaram uma rede que uniu o Brasil, formando a infraestrutura da colônia e favorecendo o surgimento de povoados conectados. Desta forma, ao contrário dos países vizinhos, o Brasil manteve-se coeso apesar de suas dimensões continentais, fato bem descrito por Roberto Simonsen (vide box 1).


Essenciais na formação econômica do Brasil, os equídeos vêm, desde o tempo do Brasil colônia, recebendo conotações que pouco favorecem o entendimento de sua importância e papel no desenvolvimento desta nação.  Gilberto Freyre, ao analisar o ciclo do açúcar associa o boi ao escravo e o cavalo ao senhor de engenho, afirmando que era o animal a serviço do domínio dos ‘defensores da Ordem’ sobre a massa (Freyre, 1937, p.66). Em que pese a visão de Freyre estar presente em grande parte da população, as palavras de Simonsen fazem mais justiça ao papel dos equídeos no Brasil. Sem eles, não seriamos o que somos (com a conotação positiva).

 

Autor:  Roberto Arruda de Souza Lima, Professor da ESALQ/USP. Coordenador do Equonomia

[1] A versão do cavalo branco e Napoleão, imortalizado na pintura de Jacques Louis David no inicio do século XIX, possivelmente não corresponde á realidade. Além de ser pouco usual a montaria de cavalos claros em batalhas (o sangue fica destacado, enfraquecendo o moral da topa), o uso de mulas, mais confortável e segura – especialmente nas trilhas dos Alpes – era mais provável e recomendado.

[2] Há cerca de 60 milhões de anos, no Período Eoceno, surgiu o antepassado mais antigo do cavalo moderno, o Eohippus, que media apenas 35 centímetros de altura.

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