Rodococose em potros (Rhodococcus equi)

0

As enfermidades respiratórias estão entre as que mais causam prejuízos às atividades equestres no Brasil e no mundo, reduzindo o desempenho dos animais, gerando gastos com tratamentos de valor expressivo e por vezes levando o animal a óbito. Dentre estas enfermidades respiratórias, a Rodococose é causada pela bactéria Rhodococcus equi e culmina com alta taxa de morbidade e mortalidade em potros até o sexto mês de vida promovendo abscessos pulmonares graves de difícil resolução terapêutica, quando tardiamente diagnosticada. Este agente também tem caráter zoonótico, pois é considerado um agente oportunista emergente atingindo tanto humanos imunossuprimidos (portadores do vírus HIV, pacientes transplantados que utilizam imunossupressores, pacientes com câncer de pulmão, entre outras enfermidades que deprimem o sistema imune) quanto humanos hígidos, crianças e idosos principalmente, causando pneumonia necrosante.

Rhodococcus equi é um micro-organismo intracelular facultativo, cosmopolita, se multiplica no solo principalmente em áreas rurais onde há animais de produção. (Girardini et al., 2013; Porto et al., 2011; Rossi, 2011).

Essa bactéria possui a característica de se adaptar a diversos ambientes como o solo e o organismo de mamíferos, por ser um habitante saprófito do intestino de herbívoros, multiplicam-se facilmente em solos que recebem esterco desses animais, além disso, tem alta resistência no ambiente, podendo ser viável por até um ano, mesmo em condições extremas de temperatura e pH. R. equi é um dos micro-organismos com alto potencial patogênico para animais, incluindo os humanos. (Vazquez-Boland et al., 2009; Porto et al., 2011).

Essa enfermidade tem distribuição variável, pode ser endêmica em algumas propriedades, ocorrer esporadicamente ou até mesmo nunca ter registros de ocorrência, comprovando como a diferença de manejo, densidade de potros condições ambientais como temperatura, poeira e pH do solo influenciam para que esta enfermidade se estabeleça. (Porto et al., 2011).

Propriedades com excesso de matéria orgânica, clima muito seco, muita poeira, favorecem a formação de aerossóis com o micro-organismo, esses aerossóis podem contaminar água, alimentos, além de permitir a veiculação da bactéria para outros potros, predispondo a infecção pelas vias orais ou respiratórias. Outro fator que propicia a infecção é o hábito de coprofagia nos potros, permitindo a ingestão de linhagens virulentas de R. Equi.

A espécie equina é a mais susceptível a rodococose, ocorrendo classicamente em potros até o sexto mês de idade, a alta ocorrência nessa faixa etária se dá pelo motivo de que este é o período de transição entre a imunidade passiva (Adquirida pelo colostro) e o inicio da imunidade ativa contra o agente.  Em equinos adultos a ocorrência dessa doença é mais rara, e quando ocorre com sintomas parecidos dos potros, pode estar relacionada à co-infecção com micro-organismos imunossupressores, como por exemplo, o Herpesvirus equi. (Radostits et al. 2000).

Animais doentes atuam como reservatórios e principais fontes de infecção, pois eliminam grandes quantidades de formas virulentas do agente pelas fezes e via respiratória, pelo fato de a bactéria permanecer viável no trato intestinal, este fato favorece sua disseminação no ambiente. Lesões de pele também funcionam como porta de entrada para a bactéria no organismo. O micro-organismo se multiplica ativamente no intestino do potro durante as primeiras sete a oito semanas de vida, cessando em torno da 12ª semana, devido à colonização da microbiota normal do intestino dos animais.  (Radostits et al., 2000)

Após a infecção, devido à alta quimiotaxia por neutrófilos e macrófagos, geralmente quando sofre opsonização e ocorre ativação do sistema complemento este micro-organismo é ativamente fagocitado, onde ocorre a formação de processos piogranulomatosos, com múltiplos abscessos nas regiões acometidas, de difícil resolução tecidual, tendendo a cronicidade e em casos mais graves levando a necrose tecidual. Pela deglutição da saliva e secreções nasais internas o micro-organismo pode atingir o trato entérico se o ambiente for excessivamente contaminado através da ingestão de água e alimentos contaminados o animal pode ter grave infecção entérica. No trato intestinal a bactéria é sequestrada pelos linfonodos mesentéricos e fagocitado por neutrófilos e macrófagos dependendo da virulência do agente ele pode se manter nos fagócitos locais e promover um grave processo de colite ulcerativa e linfadenite mesentérica, atingindo principalmente intestino delgado e seco, onde o animal irá eliminar o agente pelas fezes. (Hirsh & Zee, 2003; Rossi, 2011).

Figura 1. Pulmão de potro infectado por R.equi, grande número de abscessos por todo pulmão. À direita após corte possível observar material purulento do interior dos abscessos. Fonte: Acervo digital da Faculdade de medicina veterinária da Universidade de Lisboa.
Figura 2. A) e B) Pulmão apresentando piogranulomas e áreas de broncopneumonia. C) Ao corte, aspecto dos nódulos piogranulomatosos com centros necróticos, multifocais a coalescentes, associados a áreas difusas de hepatização vermelha e cinzenta. Fonte: Setor de Patologia Veterinária, Departamento de Clínica Veterinária da FMVZ, UNESP, Botucatu-SP.

 

 

Em alguns casos após infecção respiratória e/ou intestinal R.equi pode promover bacteremia e causar focos supurativos em outros órgãos como fígado, rins, tecido subcutâneo, ossos e articulações.

Alguns fatores colaboram para a instalação e permanência da bactéria no ambiente, podendo a doença cursar de maneira endêmica, fatores como deficiente ingestão de colostro, excesso de poeira, excesso de fezes no local, instalações muito próximas (baias e piquetes), superpopulação, criação de animais de diferentes faixas etárias em um mesmo ambiente, clima seco, ventilação excessiva promovendo a formação de aerossóis, pobre cobertura de pasto, permanência de potros por um longo período no mesmo local, falta de monitoramento dos potros.

Maneiras de controle e profilaxia desta enfermidade são identificação precoce, tratamento e isolamento de animais infectados, aguamento dos locais a fim de reduzir a poeira, evitar a superlotação, remoção e compostagem das fezes (baias e piquetes), isolamento de potros que foram adquiridos de áreas endêmicas, se atentar aos sinais como tosse, anorexia, febre que são alguns indicativos de doenças respiratórias. Outras medidas profiláticas também são indicadas, como em propriedades endêmicas tem sido preconizada a vacinação (bacterina) de éguas no final da gestação assim a imunidade passiva do feto é induzida por via. Também é indicada como medida profilática a administração de plasma hiperimune nas primeiras semanas de vida do potrinho, entre 7 e 14 dias de idade com reforço entre 25 e 30 dias de idade dos animais visando à redução de casos clínicos graves.

Figura 3. Crosta de secreção nasal muco purulenta em potro. Fonte: (Espinosa O. O; Castanẽda, R, 2014).

 

Devido às estações de monta concentrarem o nascimento dos potros nos meses de clima mais quentes do ano, no Brasil, a doença ocorre geralmente no período de dezembro a março.

Estudos epidemiológicos mostram que os potros que manifestam pneumonia por R. equi, são infectados durante os primeiros dias de vida, mesmo que os sinais clínicos se manifestem por volta da quinta semana (Porto et al., 2011).  O curso desta enfermidade é lento até que ocorram os sinais clínicos, inicialmente ocorre uma infecção inaparente com ou sem alterações respiratórias, com o surgimento de abscessos pulmonares os potros demonstram aumento progressivo na frequência respiratória, a respiração é realizada com dificuldade com a progressão do quadro clínico o potro apresenta hipertermia (41º), taquipnéia, depressão, tosse podendo ou não estar associada à secreção nasal, secreção esta que pode ser uni ou bilateral (serosa a muco purulenta) em casos mais graves perda de peso, relutância em se alimentar, decúbito, respiração abdominal e cianose, onde se não controlados irão culminar com o óbito o que ocorre em 50% dos casos se tardiamente diagnosticado.  Os sinais entéricos são de menor frequência, tendo como sinais diarreia com consequente desidratação, perda de peso, cólica e crescimento retardado, devido à colite e linfadenite mesentérica. (Porto et al., 2011; Radostits et al., 2000;).

É de fundamental importância para a sobrevivência do potro o diagnóstico precoce da rodococose, pois a bactéria não é responsiva aos antimicrobianos utilizados comumente para o tratamento de outros tipos de pneumonia sendo necessário o uso de antimicrobianos específicos. Para fundamentar melhor o diagnóstico é interessante conhecer as condições das instalações, identificar se o local tem condições favoráveis ao desenvolvimento da bactéria e conhecer o histórico do local e da região se já ouve ocorrência de rodococose ou não. O isolamento microbiano é o método mais comum utilizado para diagnóstico da infecção, a partir da coleta de um lavado trans-traqueal do animal, a ultrassonografia ou radiografia torácica podem evidenciar o status do parênquima pulmonar e mostrar os abscessos. Na avaliação sanguínea de potros com rodococose geralmente se encontra leucocitose por neutrofilia. O aumento dos níveis de fibrinogênio (>3,0g L-1) é sugestivo de infecção por R. equi, entretanto níveis normais também podem ser encontrados na infecção. Estudos indicam que apenas com modificações simples de manejo e inspeção clinica diária dos potros conseguiram minimizar a incidência de rodococose em haras na região sul do Brasil, pois as alterações comportamentais e funcionais foram detectadas precocemente, mostrando a necessidade de exames complementares, mas a escolha com monitoramento diário dos potros deve feita com cuidado, pois o manejo excessivo dos animais pode levar a uma queda de imunidade predispondo a pneumonia dentre outras infecções. (Porto et al., 2011).

Figura 4. A) Ao exame radiográfico, opacificação de campos pulmonares caudais com padrão alveolar e múltiplas áreas circunscritas cavitárias entremeadas ao parênquima. (B)-(F): Ultras-sonografia torácica utilizando-se transdutor linear de 7 a 10 MHz: B) Estrutura hipoecogênica de contornos irregulares, mal definidos, formando artefato de reverberação, compatível com área de consolidação. C) Área circunscrita hipoecogênica, de contornos bem delimitados, for-mando reforço posterior, compatível com abscesso pulmonar. D) Múltiplos artefatos em cauda de cometa. E) Extensa área de hepatização pulmonar em porção cranioventral dos pulmões. F) Espessamento e irregularidade da superfície pleural. Setor de Diagnóstico por Imagem, Fonte: Departamento de Reprodução Animal e Radiologia Veterinária da FMVZ, UNESP, Botucatu-SP.

 

O tratamento da doença é realizado através da associação de antimicrobianos específicos e terapia de suporte a ser determinada pelo veterinário responsável. Os antimicrobianos lipofílicos são mais recomendados por apresentarem alta concentração intracelular e por atuarem mesmo na presença de material purulento, que limita a ação de antibióticos convencionais. (Radostits et al., 2000).

Figura 5. R. equi uma das duas bactérias mais importantes causadoras de doenças pulmonares em potros, após o diagnóstico inicia-se a batalha contra este agente muita vezes mortífero. Fonte: foto por Anne M. Eberhardt/The Horse.

 

 

Nos potros a morbidade é variável e a mortalidade é extremamente elevada, atingindo 50% ou mais dos animais acometidos, principalmente em casos de diagnóstico tardio e administração de terapia inadequada. (Rossi, 2011). Dessa forma, é importante salientar a necessidade de instalações e manejo adequado a fim de se evitar não só essas, como outras infecções, e a presença de um veterinário que irá instituir o tratamento adequado assim promovendo o sucesso na produção e bem estar desses animais.

 

Texto por: Priscila Lessa Andrade, 7º período de medicina veterinária da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ

Revisão e edição: Deivisson Ferreira Aguiar

 

REFERÊNCIAS

 

GIRARDINI L.K .et al .2013. [Susceptibility profile of Brazilian Rhodococcus equi isolates to different antimicrobial classes and the presence of vapA gene.] Perfil de suscetibilidade antimi­crobiana e presença do gene vapA em Rhodococcus equi de origem humana, ambiental e equina. Pesquisa Veterinária Brasileira 33(6): 735-740, junho de 2013.

PORTO, A. C. R. C. et al. Rhodococcus equi Parte 1 – epidemiologia, manifestações clínicas, diagnóstico e tratamento, Ciência Rural, Santa Maria, v.41, n.12, p.2143-2150, dez, 2011.

ROSSI, M. S. Rodococose equina: uma revisão com ênfase na fisiopatogenia e tratamento. Botucatu, 2011. 22f. Trabalho de conclusão de curso de graduação (Medicina Veterinária, Área de Concentração: Enfermidades infecciosas dos animais domésticos) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Campus de Botucatu, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.

VAZQUEZ-BOLAND, J.A. et al. Havemeyer workshop report: Rhodococcus equi comes of age. Equine Veterinary Journal, v.41, n.1, p.93-95, 2009.

HIRSH, D.E.; ZEE, Y.C. Microbiologia veterinária. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. p.119-126.

ESPINOSA, O.O.; CASTANẼDA , R. Neumonía por Rhodococcus equi em um potro – Relato de Caso. Revista Colombiana de Ciências Pecuárias, v. 27, n.2.  Acesso em: < http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0120-06902014000200009>

OKE, S. Foal pneumonia: Beyond the basics. The Horse.com Acesso em < http://www.thehorse.com/articles/31134/foal-pneumonia-beyond-the-basics >

Acervo digital da Faculdade de medicina veterinária da Universidade de Lisboa. Acesso em: < http://www.fmv.ulisboa.pt/atlas/respiratorio/paginas_pt/respir_043.htm>

BELLOTA, A. F; INAMASSU, L. R; SANTAROSA, B. P et al. Pneumonia por Rhodococcus equi em potra quarto de milha: diagnóstico radiográfico e ultrassonográfico. Veterinária e Zootecnia. 2015 jun., 22(2):209-214.

 

 

você pode gostar também

Pular para a barra de ferramentas