Síndrome da Infecção Periapical-Periodontal em Caninos

0

POR DENTRO DA BOCA/MAURICIO J. BITTAR

Introdução:

Nesta edição iremos abordar um caso de Síndrome da Infecção Periapical-Periodontal em caninos causada pela exposição iatrogênica do canal pulpar devido à odontoplastia realizada de maneira inadequada.

O canino é um dente que não possui função na biomecânica da mastigação, além da função primitiva de proteção durante uma disputa ou luta contra predadores.

Desde há 20 anos, na prática odontológica tradicional em todas as partes do mundo, o rasamento ou amputação dos caninos era uma prática bastante recomendada. Sem pensar nas consequências da exposição pulpar crônica, essa prática partia do princípio de que os caninos com tamanho reduzido causavam melhor conforto e adaptação do animal ao posicionamento da embocadura.

Os caninos não erupcionam continuamente como os pré-molares e molares, portanto animais geriatras podem apresentar uma coroa de reserva longa, que acaba tornando a extração do canino sempre um grande desafio. Isto porque ele possui coroa de reserva e raíz grandes, somado a somente 10 a 20% de coroa erupcionada.

Nos animais jovens os caninos possuem o canal pulpar largo que se extende muito próximo da superfície de oclusão (até 5mm), sendo assim, a redução excessiva da coroa clínica (odontoplastia inadequada) pode facilmente expor o canal.

A exposição crônica do canal pulpar leva a uma infecção endodôntica e absorção da coroa e da raiz do dente. Este processo carioso pode levar de 01 a 02 anos ou até 15 a 20 anos antes que os sinais clínicos se tornem evidentes.

 

Identificação e Histórico

Animal BH, 20 anos, atleta, que apresentava bastante relutância na colocação da embocadura e grande reação da cabeça durante a equitação.

Há 15 anos, o cavalo foi submetido a uma odontoplastia severa da coroa (Figura 01), que ocasionou a exposição crônica do canal pulpar do dente 104.

Figura 01: Imagens dos caninos: A) Dente 204 e 304 submetidos à odontoplastia severa da coroa. B) Cárie e exposição crônica do canal pulpar do dente 104 e redução excessiva da coroa clínica do dente 404

 

Exame Clínico:

Na inspeção e palpação da cabeça não foi observado aumento de volume externo ou assimetrias faciais na mandíbula e na maxila, nem presença de fistulas.

 

Exame Clínico da Cavidade Oral:

Na inspeção inicial dos incisivos e caninos através do afastamento dos lábios, o animal apresentava reações da cabeça e sinais de dor na palpação do canino superior direito (104 – Triadan). O elemento dentário 104 possuia diminuição do comprimento da coroa clínica, exposição do canal pulpar, retração gengival e edema periodontal e, além disso, foi constatada amputação parcial dos outros 03 caninos. Na avaliação minuciosa do dente 104 foi verificada a presença de solução de continuidade mucopurulenta na face distal e labial que indicou a presença de uma fistula produtiva. Ao avaliar a fistula com uma sonda milimetrada foi observada a profundidade de 2,5cm no sentido da porção apical do dente. Na avaliação do canal pulpar foi observada exposição crônica com lesão cariosa através da colocação de explorador pulpar no interior do mesmo (Figura 02)

Figura 02: Imagens do dente 104: A) Lesão cariosa na região do canal pulpar (círculo vermelho) e presença de exsudato mucopurulento (seta vermelha) B) Colocação de explorador pulpar no interior do canal pulpar exposto (seta vermelha) e sonda milimetrada no interior da fistula localizada no periodonto (seta preta)

 

Exame Radiológico:

O posicionamento intra-oral da placa ou do chassi é extremamente importante para se conseguir uma imagem radiológica de qualidade dos caninos através da posição dorso-ventral (caninos superiores) e/ou ventro-dorsal (caninos inferiores). Além disso, deve ser realizada a posição ventro-dorsal oblíqua com a boca aberta (caninos superiores) e/ou dorso-ventral oblíqua com a boca aberta (caninos inferiores) para a realização do estudo radiológico completo.

No caso clínico em questão as posições realizadas foram dorso-ventral intra-oral, ventro-dorsal oblíqua com a boca aberta e dorso-ventral intra-oral com a colocação de sonda milimetrada na fistula periodontal (80KV com 3,2 mAs).

As alterações radiológicas observadas foram: osteólise, remodelamento periapical, aumento do diâmetro do canal pulpar em toda a extensão do elemento dentário e a presença de canal fistuloso periapical (Figura 03).

Figura 03: Imagens radiológicas do dente 104: A) Remodelamento periapical e osteólise do osso alveolar. B) Aumento de diâmetro do canal pulpar em toda extensão e hipercementose na região periapical. C) Posicionamento da sonda milimetradas em fistula periapical

Diagnóstico:

Considerando todos os dados acima descritos, oi animal foi diagnosticado com a  Síndrome da Infecção Periapical-Periodontal (lesão endodôntica primária com acometimento secundário do periodonto) no dente 104 por exposição crônica do canal pulpar, causada por odontoplastia severa da coroa clínica.

A infecção atingiu o tecido periodontal através da disseminação pelo ápice dentário ou através dos canalículos laterais do canal pulpar, causando a inflamação dos ligamentos periodontais. A infecção resultou na drenagem do exsudato pelo sulco gengival e na retração da gengiva.

 

Tratamento:

O tratamento consistiu na extração do elemento dentário afetado para evitar que o foco de infecção ativo causasse uma osteíte do osso alveolar ou migrasse por anacorese para outros sistemas. Foi realizada a exodontia do elemento dentário 104 e curetagem do osso alveolar (Figuras 04, 05 e 06).

Figura 04: Imagens da exodontia do dente 104: A) Sindesmotomia dos ligamentos periodontais com alavanca apical (sindesmótomo) e martelo. B) Posicionamento do sindesmótomo.

 

Figura 05: Imagens após a extração: A) Dente 104 com deformação da região periapical. B) Imagem radiológica dorso-ventral intra-oral após exodontia do 104. C) Imagem radiológica ventro-dorsal oblíqua com a boca aberta após a extração do 104.
Figura 06: Imagens do dente 104: A) Colocação de sonda milimetrada na coroa clínica e explorador na raíz. B) Material radiopaco no interior de toda a extensão do canal pulpar de oclusal a apical.

 

Dicas Importantes:

– A odontoplastia dos dentes 04 jamais deve ultrapassar a altura da superfície oclusal dos incisivos.

– Existem brocas para caninos que são auto limitantes no desgaste, evitando redução excessiva da altura do dente e consequentemente evitando a exposição do canal pulpar.

– Antes do procedimento, não esqueça que você está extraindo um elemento dentário com coroa de reserva longa e que muitas vezes a exodontia pode ser bastante laboriosa.

– Jamais deixe de fazer o estudo radiológico antes da extração; a hipercementose e a anquilose com o alvéolo, em decorrência da infecção crônica, podem dificultar bastante o procedimento.

 

Coluna Disponibilizada Na Internet com o Apoio de :

você pode gostar também

Pular para a barra de ferramentas