Síndrome do Navicular

Entenda mais sobre a Síndrome do Navicular

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O aparelho locomotor dos equinos desempenha grande importância por constituir o sistema de sustentação e de dinâmica locomotora mais especial e de maior capacidade diante de diferentes exigências. Patologias relacionadas ao sistema locomotor são focos de estudos e pesquisas, e cada vez mais despertam interesse e preocupação nas pessoas envolvidas com o mundo do cavalo.

As enfermidades locomotoras são as mais frequentes em equinos, e a síndrome do navicular é uma doença degenerativa que envolve não apenas o osso sesamóide distal, mas todo aparato podotroclear, sendo uma das principais causas de claudicação crônica nos equinos, reduzindo o desempenho atlético e consequentemente gerando perdas econômicas. Síndrome do Navicular, Síndrome Podotroclear, Dor Digital Palmar ou “Dor de Talão” são nomes dados ao conjunto de alterações degenerativas que envolvem o aparelho navicular/podotroclear do cavalo. Trata-se de uma doença crônica e progressiva que afeta o osso navicular ou sesamóide distal, bursa navicular, tendão do músculo flexor digital profundo, ligamentos sesamóides colaterais e sesamóide distal ímpar e a articulação interfalangeana distal.

Figura 1. Osso navicular e (2) Tendão Flexor Digital Profundo – TFDP (HANSON, 2011).

Essa síndrome é responsável por um terço de todas as claudicações crônicas de membros anteriores nos equinos. Em geral, a enfermidade se manifesta em equinos de 3 a 12 anos de idade, com maior ocorrência entre 7 e 9 anos. Fatores hereditários podem estar envolvidos na etiologia, porém na maioria dos casos é provável que certos fatores de manejo tenham significativa importância.

Acredita-se que fatores como falha de conformação, casqueamento, ferrageamento inadequado e exercícios em superfícies duras agravem o problema. A falha do suprimento sanguíneo ou suprimento irregular para o osso navicular já vem sendo descrita como causa, e a degeneração senil em cavalos utilizados para trabalho por vários anos também pode levar ao quadro, ocorrendo desmineralização óssea e, consequente, perda de resistência. De modo geral, qualquer fator que aumente a concussão do osso sesamoide distal sobre o solo pode dar origem a patologia. O Quarto de Milha e o Puro Sangue Inglês, são animais que possuem maior tendência para esta doença, devido ao fato de serem animais utilizados em competições e provas equestres de grande esforço, e também porque possuem cascos pequenos em relação ao peso suportado, o que pode desencadear tal doença.

No início da enfermidade, o cavalo pode apresentar claudicação bilateral lenta e progressiva, podendo existir um quadro agudo relativamente severo e unilateral. O cavalo apresenta encurtamento da passada, com as pinças constituindo a primeira região do casco a tocar no solo. Esta alteração na biomecânica do movimento pode levar a tropeções frequentes. Nos estágios iniciais, a doença melhora com a prática de exercícios, já à medida que a doença progride e torna-se persistente, a claudicação exacerba-se pelo exercício e melhora com repouso. Em geral, no início a claudicação é discreta a moderada, e tende frequentemente a se agravar com o tempo. Apesar da cronicidade, a claudicação pode se estabilizar de modo que permita pastejo confortável.

O diagnóstico é feito com base na anamnese, nos achados do exame físico, no bloqueio do nervo digital palmar e nos achados radiográficos. A maioria dos cavalos com doença navicular tem uma claudicação bilateral dos membros torácicos, apresenta dor no teste com a pinça de casco, em todo o aspecto central ou cranial da ranilha, e apresenta alguma evidência de alterações radiográficas dentro do osso navicular. Através do bloqueio do nervo digital palmar, o animal caminhará melhor, porém o membro continuará a tocar o solo primeiro com a pinça. Em casos de suspeita de claudicação navicular, os dois membros devem ser radiografados, já que as alterações radiográficas podem ser bilaterais, mesmo quando os sinais clínicos não o são. No entanto, baseado em estudos recentes de ressonância magnética, a falta de alterações radiográficas não descarta uma patologia no osso navicular.

Outros métodos eficazes no diagnóstico da Síndrome são a Cintilografia Nuclear e a Tomografia Computadorizada, entretanto, eles ainda não estão disponíveis no Brasil para a utilização em equinos.

O êxito de um tratamento depende de vários fatores, incluindo o uso, a conformação do equino e quando o tratamento foi iniciado. Como esses animais com síndrome do navicular são submetidos a vários tratamentos, é difícil obter uma avaliação definitiva da eficácia de um tratamento especifico para a recuperação. Os tratamentos são destinados a reduzir ou interromper a degeneração progressiva do osso navicular ou então fornecer alívio paliativo da dor. Tratando-se de casos precoces da síndrome que possuem mínimas alterações radiográficas, o tratamento pode ser satisfatório. Já em casos crônicos que apresentam alterações radiográficas, o esperado é conseguir a prevenção da progressão da síndrome e um melhor manejo do equino, de forma esse que possa manter seu desempenho. O tratamento geralmente envolve períodos variáveis de repouso, além de cuidados com os cascos, drogas específicas e, se necessário, opções cirúrgicas.

Figura 2. (A) Casco gravemente desangulado com pinça longa e talões escorridos. (B) O mesmo equino após tratamento. Fonte: Claudicação em equinos, segundo Adams 4º ed.

A síndrome do osso navicular é frequentemente observada, sendo uma das principais causas de claudicação em equinos. Um prognóstico correto é dificultado pelo número de anormalidades que podem ocorrer em simultâneo na região. A maioria das alterações patológicas apresenta natureza degenerativa, piorando com o tempo e com o trabalho do cavalo. Portanto, ao surgimento dos primeiros sintomas devem ser tomadas as devidas providências para estabelecer o diagnóstico, já que existem inúmeras outras patologias que levam a claudicação e nem sempre o animal apresenta sinais característicos e específicos da síndrome do navicular, e o tratamento antes que a doença se torne crônica e comprometa assim, o futuro do animal.

Texto por:

Ananda Silvia Guimarães Batista – Medica Veterinária

Guilherme Romeiro de Carvalho – 6º período do Centro Universitário Barão de Mauá

Laura de Oliveira Bauer – 8º período de Zootecnia da Universidade Federal de Goiás – UFG

Letícia Bisso Paz, 8º período da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM

Loiane Diniz – 5º período da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC BETIM

Edição e Revisão: Deivisson Aguiar, Médico Veterinário

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