Transferência de Imunidade Passiva em Potros

0

Em primeiro lugar, todos sabem que os neonatos de grandes animais constituem o futuro, gerando lucros para criadores, afeto entre dono e animal, diversão para amantes de cavalgadas e utilizados também para o esporte. Portanto, necessitam de atenção mesmo antes do nascimento e para que venha uma prole saudável é necessário que a gestação e o parto tenham transcorrido sem intercorrências. Sendo assim, após o nascimento a transferência de imunidade passiva é um dos principais cuidados neonatais

Potros nascem sem qualquer defesa em decorrência da barreira placentária das éguas durante a gestação (placenta epiteliocorial difusa que impossibilita a passagem de anticorpos para o feto). O recém-nascido, quando exposto aos agentes infecciosos do ambiente, estará sem proteção e sob risco de morte, por isso, deve-se ter certeza sobre a administração do colostro no neonato nas primeiras horas de vida.

 

Administração de colostro

O colostro é um composto rico em imunoglobulinas formado em ocasião do parto durante as duas últimas semanas da gestação. O colostro possui moléculas do tipo IgM e principalmente, do tipo IgG em abundância, depois é substituído por leite comum, o qual apresenta níveis insignificantes de gamaglobulinas.

Imagem 1. Níveis de imunoglobulinas do colostro e do leite em animais domésticos.

A administração de colostro, rico em imunoglobulinas (Ig), que são responsáveis pela defesa natural do organismo, nas primeiras 2 a 6 horas de vida é o procedimento mais adequado para transferir imunidade. Por isso, é amplamente reconhecido como fator determinante na saúde e sobrevivência do neonato.

Absorção intestinal

Os anticorpos presentes no colostro são absorvidos pelo processo de pinocitose por células epiteliais do intestino delgado, principalmente no jejuno e íleo, que são substituídas em até 36 horas. Estas macromoléculas são carreadas para o tecido linfóide local, sendo posteriormente drenadas para a circulação sistêmica via ducto torácico, garantindo imunidade inata.

A absorção máxima ocorre nas primeiras 3 horas após o nascimento e é satisfatória até 6 a 12 horas. Existe menor absorção quando o colostro é fornecido em mamadeira (ausência da mãe) e quando o neonato mama primeiro leite não colostral.

É importante lembrar, que após 12 a 15 horas do parto os níveis de imunoglobulinas caem 10% do valor inicial.

 

Imagem 2. Mecanismo de transferência de imunidade materna para a cria.

Entretanto, a baixa concentração de Ig no colostro materno pode resultar em falha na transferência de imunidade passiva. Sendo assim, a avaliação da qualidade do colostro a ser oferecido para os animais, bem como a avaliação da eficiência de absorção de imunoglobulinas pelo recém-nascido, através de amostra de sangue, são de extrema importância.

Avaliação da qualidade do colostro

Primeiramente, deve-se avaliar a coloração e consistência do colostro, apresentando coloração amarelada e consistência cremosa.

Imagem 3. Coloração e aspecto do colostro.

Depois, com o auxílio de um colostrômetro, pode ser avaliado a concentração de imunoglobulinas (Ig). Por ser rápida e fácil esta avaliação é ainda o teste mais utilizado em fazendas comerciais. No entanto, existe uma faixa de temperatura adequada para o teste ser realizado, (20 a 25ºC). Se a temperatura do colostro a ser avaliado estiver abaixo desta faixa, indicará erroneamente ser um colostro de alta qualidade; quando a temperatura for maior que esta faixa, indicará erroneamente ser um colostro de baixa qualidade, por isso, manter a temperatura adequada é extremamente importante, para um resultado preciso, que devem ser interpretados da seguinte forma:

Imagem 4. Classificação do colostro utilizando o colostrômetro.

Outra maneira de medir a qualidade do colostro, que independe da temperatura do mesmo, é através do refratômetro de brix. Existem dois tipos, o refratômetro de brix óptico (Figura 6) e o refratômetro de brix digital (Figura 7). Ambos devem ser colocados perpendicularmente à luz para a obtenção do resultado. No entanto, no refratômetro óptico o resultado é observado na lente do aparelho, onde o resultado em brix é obtido pela separação entre a área clara e a área escura formada após a colocação da amostra. Já no refratômetro digital, o resultado aparece em uma tela.

Figura 5. Refratômetro de brix óptico (esquerda). Escala interna do refratômetro, onde se avalia a qualidade do colostro (direita).
Imagem 6. Avaliação da qualidade do colostro através do refratômetro de brix digital.

Após a avaliação do colostro, para certificar-se de que os animais não tiveram falhas na transferência passiva através da ingestão do colostro, é importante detectar os níveis de IgG através dos métodos disponíveis. As técnicas podem ser imunodifusão radial, imunocromatografia, avaliação imunoenzimática (ELISA), aglutinação com látex, fracionamento de proteína por eletroforese, turvação com sulfato de zinco e outros, cada qual com suas vantagens e desvantagens.

Os exames laboratoriais precisam ter como características a rapidez, boa sensibilidade, especificidade, praticidade e aplicabilidade a campo. Assim, terapias poderão ser implementadas no momento correto.

Considerações finais

A imunidade transferida através do colostro é de extrema importância para sobrevivência de neonatos. Qualquer falha que ocorrer neste processo e que desencadear baixos níveis de IgG pode colocar os potros em risco de infecção e morte. Portando, o Medico Veterinário deve estar presente no momento do nascimento dos potros, para ter a certeza que o parto foi transcorrido sem intercorrências e que o colostro foi ingerido com sucesso e com boa qualidade.

 

Correção Técnica: Hugo Garcia da Silveira, Médico Veterinário – CRMV  38695

Texto por: Isabella Corredor de Oliveira, 4º ano – Faculdade de Ensino Superior de Bragança Paulista – FESB.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Inês Ribeiro. Transferência de Imunidade Passiva em Equinos.  Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) –  Universidade Federal de Lisboa de Medicina Veterinária. Lisboa, 2015.

BITTAR, C.; PAULA, M. Uso do colostrômetro e do refratômetro para avaliação da qualidade do colostro e da transferência de imunidade passiva. ESALQ – USP. Piracicaba, 2014.

LANG, A.; SOUZA, M.V.; SALCEDO, J.H.P. et al. Imunidade passiva em equinos: comparação entre a concentração de IgG do soro materno, colostro e soro do neonato. Revista Ceres, Universidade Federal de Viçosa, v.54, p.405-411, 2007.

LANG, André. Imunidade passiva em Equinos Neonatos: Avaliação por diferentes métodos. Dissertação (Pós- Graduação em Medicina Veterinária) – Universidade Federal de Visçosa. Minas Gerais, 2006, 82p.

TEIXEIRA, Larissa Sales. Artigo Falha de transferência passiva em potros: a importância da imunidade do colostro. Disponível em: https://www.vencofarma.com.br/common/uploads/artigos/d7d11b16d5957e981ef9c0b2d02b71b07458.pdf. Acesso em: 07/12/2016.

 

THOMASSIAN, A. Enfermidades dos Cavalos. São Paulo: Varela, 2005, 4.ed., 385p.

Reed. Stephen M. Medicina Interna Equina. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2000, 940p.

 

 

você pode gostar também