USO DE GONADOTROFINA CORIONICA HUMANA (hCG) OU ANÁLOGO SINTÉTICO DE GnRH (DESLORELINA) NA INDUÇÃO DE OVULAÇÃO EM ÉGUAS

O uso da hormonioterapia vem contribuindo para promover a ciclicidade em éguas e maximizar o número de ovulações durante a estação reprodutiva.

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USO DE GONADOTROFINA CORIONICA HUMANA (hCG) OU ANÁLOGO SINTÉTICO DE GnRH (DESLORELINA) NA INDUÇÃO DE OVULAÇÃO EM ÉGUAS

FELIPE DE JESUS SANTIAGO TENORIO¹, LEONARDO TARTAROTTI LOPES¹, ERICA ENGELBERG TEIXEIRA DA SILVA HUCKE²

1 Discente do curso de Medicina Veterinária da UNIFEOB, São João da Boa Vista, SP.

2 Docente do Curso de Medicina Veterinária da UNIFEOB, São João da Boa Vista, SP.

RESUMO: O uso da hormonioterapia vem contribuindo para promover a ciclicidade em éguas e maximizar o número de ovulações durante a estação reprodutiva. A escolha da utilização de fármacos indutores do cio e da ovulação promove a sincronização em um período pré-determinado diminuindo o tempo para ocorrência da ovulação. Visto que maiores taxas de concepção são decorrentes da deposição de sêmen no trato reprodutivo das éguas em um período pré-ovulatório, fármacos indutores do cio e da ovulação tornam-se essenciais. Em especial, utilizam-se fármacos como a gonadotrofina coriônica humana (hCG) e o acetato de deslorelina, análogo ao GnRH. A hCG, que quando utilizado em repedidas aplicações pode apresentar a inconveniência da formação de anticorpos e consequente ineficiência, o que não ocorre quando se utiliza a deslorelina. A associação da hCG e a deslorelina pode também trazer benefícios nesse sentido.

PALAVRAS-CHAVE: Deslorelina, éguas, hCG, indução, ovulação.

INTRODUÇÃO

Atualmente o crescimento da equinocultura deve-se a utilização de novas biotecnologias que visam a praticidade do manejo e ao incremento da eficiência reprodutiva, alcançando assim, ganhos no melhoramento genético (FARIAS et al., 2016). O uso da hormonioterapia vem aumentando a ciclicidade das éguas e o número de ovulações durante a estação de monta. As éguas são poliéstricas estacionais, ou seja, tem um período de competência sexual e aptidão cíclica durante dias quentes e longos, devido à intensidade da luz solar (primavera/verão) e incompetência sexual durante dias frios e curtos (outono/inverno). Contudo, a condição corporal e o fotoperíodo são os principais fatores que afetam a sazonalidade reprodutiva das éguas (HAFEZ; HAFEZ, 2004). A fase na qual antecede a estação reprodutiva denomina-se transição de primavera (agosto a outubro) onde as éguas iniciam os ciclos, porém ocorre alta incidência de cios anovulatórios e prolongados, sendo então necessária a utilização de fármacos indutores, tanto de cio quanto de ovulação (FARIA; GRADELA, 2010). A duração do estro (cio) é extremamente variável, compreendendo em média sete dias, mas podendo durar de dois a 14 dias, terminando com a ovulação. Na fase de estro, o hormônio prevalecente é o estrógeno, que é secretado pelas células da granulosa folicular estimulando assim, a receptividade da égua ao garanhão, iniciando o período de aceitação de monta (GREGO, 2016).

O uso dos fármacos indutores de ovulação permite que grande maioria das éguas ovulem de forma sincronizada, dentre um período pré-determinado, consequentemente reduzindo o número de avaliações reprodutivas e de mão de obra despendida (GRECO, 2016). Os agentes indutores de ovulação antecipam o processo que ocorreria normalmente de três à cinco dias, fazendo a maturação do folículo dominante e antecipando a ovulação dentre 24 à 48 horas (FARIAS et al., 2016). Os principais fármacos utilizados na hormonioterapia de indução sendo eles; a gonadotrofina coriônica humana (hCG) semelhante ao hormônio luteinizante (LH) que age diretamente no ovário, e o análogo sintético de GnRH (deslorelina) agindo na hipófise anterior causando a secreção do LH e hormônio folículo estimulante (FSH) (GOMES et al., 2014). Esta revisão tem como principal objetivo estudar os efeitos do hCG e da deslorelina na sincronização do cio e da ovulação em éguas.

REVISÃO DE LITERATURA

Uso da gonadotrofina coriônica humana (hCG)

A hCG é uma glicoproteína hormonal das células trofoblasticas sinciciais encontrada nos líquidos maternos (FARIA; GRADELA, 2010) que quando utilizada na espécie eqüina tem ação semelhante ao hormônio LH, que dá início a maturação do oócito e consequentemente a ovulação (FARIAS et al., 2016). Apesar de ser uma proteína quimicamente diferente do hormônio LH, sua atividade biológica primaria é idêntica, além de mostrar alguns efeitos semelhantes ao FSH e participar do desenvolvimento de imunotolerância materno local, que é relacionada a proteção do feto durante os três primeiros meses da gestação (FARIA; GRADELA, 2010).

Por muitos anos a hCG vem sendo utilizado para diminuição do período de estro e acelerando a ovulação, sua eficácia é amplamente demonstrada na indução da ovulação quando um folículo pré-ovulatório é detectado. A administração em éguas com folículo pré-ovulatório de pelo menos 35 mm é capaz de induzir a ovulação dentre 48 horas em até 80% dos casos (ALVARENGA et al., 2012).

Quando induzido através do uso da hCG, foi relatado um aumento na produção de progesterona logo após a ovulação, além disso, um melhor desenvolvimento do concepto (KOHNE et al., 2014). O uso da hCG também aprimora os resultados da inseminação artificial realizada com sêmen refrigerado ou congelado, assim como os da transferência de embriões (MELO, 2006). Deve-se considerar que quando administrado em éguas com mais de um folículo pré-ovulatório há um aumento na possibilidade de dupla ovulação (FARIA; GRADELA, 2010).

Avaliando a capacidade de resposta ovariana após uso de hCG, pode haver uma variação conforme a estação, sendo menos eficaz no início e no final de temporada reprodutiva (FARIAS et al., 2016).

Apesar de ser um agente indutor rotineiramente utilizado, a hCG pode apresentar à inconveniência de formação de anticorpos após injeções sucessivas (DUCHAMP et al., 1987). Segundo Roser (1979) a formação de anticorpos pode se iniciar após duas a cinco aplicações de hCG. Dessa forma, deve-se restringir seu uso a no máximo duas vezes por estação de monta (FARIA; GRADELA, 2010).

Análogo sintético de GnRH (Deslorelina)

Na espécie equina o GnRH natural secretado pelo hipotálamo no sistema porta-hipofisário, não está associado a bons resultados na sincronização e indução da ovulação, devido sua curta meia-vida e potência (FARIAS et al., 2016).O GnRH é uma pequena molécula (decapeptideo) que atualmente possui, ampla variedade de análogos sintéticos agonista ou antagonista do GnRH natural (NOGUEIRA; BARROS, 2012). No entanto, dentre os análogos de GnRH, a deslorelina tem apresentado uma melhor eficácia, acelerando a ovulação de folículos pré-ovulatórios por estimular a liberação de LH e FSH a partir da glândula adenohipófise (CAMPBELL, 2012).

A deslorelina foi comercializada inicialmente como um implante subcutâneo e, atualmente se encontra também na forma injetável. A princípio o uso dos implantes possuía a inconveniência da aplicação e da necessidade de sua remoção no período pós-ovulatório. No caso da não retirada do implante após 48 horas à sua colocação, algumas éguas podem apresentar intervalos interovulatórios exacerbados, com atraso no retorno do cio, fenômeno esse denominado de downregulation (GREGO, 2016). Entretanto a forma injetável não induz um aumento de intervalo até o próximo ciclo estral (GRECO, 2016). O hormônio pode ser utilizado em folículos menores que 35 mm, porém a eficiência foi demonstrada com diâmetros foliculares que divergiram entre 30/35 mm com o uso de implante. É relatado que o intervalo de tempo na indução de ovulação com o uso da deslorelina é muito estreito, de 36 a 42 horas com implante, e 40 a 46 horas na forma injetável. A habilidade deste análogo em reduzir o número de coberturas e, também visitas feitas pelo veterinário para controle folicular, converte-se em grande utilidade para os programas de reprodução, tais como, inseminação artificial, transferência de embrião e especificamente para sêmen refrigerado e congelado (FARIAS et al., 2016). A vantagem da administração da deslorelina na indução de ovulação, é que seu uso repetido em éguas não as torna refratarias ao hormônio, ao contrário do hCG que em algumas éguas pode ocorrer devido ao seu alto peso molecular (GRECO, 2016).

Associação de hCG e Deslorelina

A combinação de uso da hCG com a deslorelina, inicialmente foi utilizada em éguas submetidas a doação de oócitos, por aparentemente beneficiarem a maturação folicular e oocitária. Foi observado um aumento significativo no perfil protéico do líquido folicular de éguas, na qual a ovulação foi induzida com uso da associação hormonal, que pode ter sido consequência de uma alteração na permeabilidade folicular (GRECO, 2016). Dados de uma pesquisa feito por ULIANI (2012) demonstrou o efeito de ovulação com três tratamentos dispares: 1.500 U.I de hCG (i.v.), 1,0 mg do acetato de deslorelina (i.m.) e uma associação de ambos, apresentando resultados similares no momento ovulatório, de 38,0 horas para as éguas medicadas com ambos os hormônios. Por outro lado, foi observada maior diferença numérica no aumento de vascularização do folículo pré-ovulatório entre o momento da indução e as oito horas que precederam a ovulação das éguas tratadas com a associação hormonal, de 22,22 ± 2,07% para 45,00 ± 4,08%, em comparação às medicadas com hCG, de 30,00 ± 3,65% para 40,83 ± 6,45% e deslorelina, de 23,33 ± 2,22% para 37,14 ± 3,02%. Conforme Santos (2013), as éguas induzidas com ambos os hormônios apresentaram aumento em seu perfil proteico intrafolicular, de 73,07 mg/mL, contra 63,97 mg/mL das medicadas somente com a hCG.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo da utilização dos agentes indutores de ovulação na reprodução equina é o aumento da eficiência reprodutiva, antecipando as ovulações e reduzindo o período de estro, além da mão de obra e visitas veterinárias dispendidas. O uso da deslorelina pode ter como vantagem sobre o uso do hCG por não apresentar a chance de formação de anticorpos e consequente tolerância. Porém, observa-se que a combinação de ambos os hormônios pode levar a melhores resultados de fertilidade em consequência a indução da ovulação.

REFERÊNCIAS

CAMPBELL, M. It´s all in the timing: ovulation induction in the mare. Veterinary Record, v.170, p. 538-539, 2012.

DUCHAMP, G.; BOUR, B.; COMBARNOUS, Y.; PALMER,E. Alternative solutions to hCG induction of ovulation in the mare. Journal of Reproduction. Fertility, v.35, p.221-228, 1987.

FARIA, D.R.; GRADELA, A. Hormônio terapia aplicada à ginecologia equina. Revista Brasileira de Reprodução Animal, v.4, p.114-122, 2010.

FARIAS, L. D.; NEVES, P. A.; RECHSTEINER, F. E. M. S.; TAROUCO, K. A. Indução da ovulação em éguas: uma revisão. Revista Brasileira de Reprodução Animal, v.40, n.1, p.17-21, 2016.

GOMES, R. G.; OLIVEIRA, R. L.; SCHUTZER, C. G. C.; BARREIROS, T. R. R.; SENEDA, M. M. Effect of deslorelin and/or human chorionic gonadotropin on inducing ovulation in mares during the transition period versus ovulatory season. Journal Equine Veterinary Science. v.34, n.9, p.1140-1142, 2014.

GRECO, M. G. Eficiência de diferentes agentes indutores da ovulação em associações sobre as características uterinas, ovarianas e concentrações plasmáticas em éguas. Botucatu: Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, 2016. 124 p.

HAFEZ, E.S.E.; HAFEZ, B. Ciclos Reprodutivos.In: HAFEZ, E.S.E.; HAFEZ, B. Reprodução Animal. São Paulo: Manole, 2004. p. 55-67.

KÖHNE, M.; KUHL, J.; ILLE, N.; ERBER, R.; AURICH, C. Treatment with human chorionic gonadotrophin beforeovulation increases progestin concentration inearly equine pregnancies. Animal Reproduction Science, v.149, p. 187-193, 2014.

MELO, C. M.; PAPA, O.F.; FILHO, P.P.N.J.; ARAUJO, H.G.; AQUA J.R. D.A.J.; ALVARENGA, A.M. Eficiência do acetato de deslorelina e do extrato de pituitária equina na indução em éguas.Veterinária e Zootecnia. v.19, n.3, p. 392-398, 2012.

MELO, C.M. Indução de ovulação em éguas. Tese de Doutorado. Botucatu: Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, 2006. 27 p.

ROSER, J. F.; KIEFER, B. L.; EVANS J. W, NEELY DP, PACHECO C. A. The development of antibodies to human chorionic gonadotrophin following ist repeated injection in the cyclic mare. Journal of Reproduction and Fertility, v.27, p.173-179, 1979.

ULIANI, R.C. Study of follicular characteristics of young and old mares evaluated by ultrasound B-mode and color Doppler and the relationship with the ovulation inducing agent and ovulation time. Botucatu: Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho; 2012. 154 p.

NOGUEIRA, M. F. G.; BARROS; C. M. Fatores de liberação hipotalâmicos e hormônios hipofisários. In: BARROS, C. M.; DI STASI, L. C. Farmacologia Veterinária. Barueri: Manole, 2012. p. 284-299.

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