Uso de Sêmen Congelado

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A reprodução animal evolui expressivamente, e o aumento da demanda nos sistemas de criação de equinos levou a necessidade do desenvolvimento de técnicas que possibilitem um maior e melhor aproveitamento do potencial produtivo e reprodutivo. A utilização do sêmen congelado (Criopreservação) é uma dessas técnicas que visam facilitar e otimizar o melhoramento genético, proporcionando, por exemplo, o uso de garanhões com comprovada superioridade genética, com a possibilidade do armazenamento de sêmen mesmo fora da estação de monta e a quebra das barreiras geográficas, que torna possível a remessa de sêmen para qualquer parte do mundo. Apesar dos benefícios, existem limitações no uso da inseminação artificial com sêmen congelado, como a baixa fertilidade pós-descongelamento, necessidade de mão-de-obra qualificada, assistência técnica e equipamentos específicos.

Em 1957 ocorreu a primeira gestação equina gerada por espermatozoides criopreservados. Todavia, a criopreservação de sêmen equino ainda não é uma tecnologia estabelecida, apresentando baixa eficiência. A utilização de sêmen fresco ou resfriado apresenta maior taxa de fertilidade quando comparado ao sêmen congelado, isto deve-se ao fato de que o processo de criopreservação gera efeitos deletérios nos espermatozoides. Para amenizá-los, utiliza-se diluentes que estabilizam elementos proteicos da membrana do espermatozoide. Concomitantemente, os crioprotetores são utilizados para a proteção dos espermatozoides, nos processos de congelamento e descongelamento, como exemplo o glicerol.

A eficiência da técnica de criopreservação depende da interação do crioprotetor, do diluidor, tipo da curva de congelamento e velocidade de redução da temperatura. Estes fatores influenciam no grau de lesões nos espermatozoides, devido à desidratação e formação de cristais. Ademais, deve-se realizar avaliações laboratoriais para estimar a fertilidade do sêmen como: motilidade espermática, vigor, concentração espermática, anormalidades espermáticas e teste de integridade de membrana plasmática e acrossomal.

A criopreservação é dividida em etapas, cada qual deve ser realizada com cuidado e atenção, pois interfere no sucesso dos resultados obtidos. A técnica inicia-se com a coleta do sêmen, seguida pela diluição, centrifugação, resfriamento, desidratação celular e, por último, congelamento. Estas etapas podem acarretar lesões celulares devido a choque térmico, formação de cristais de gelo intracelulares, injúrias oxidativas, estresse osmótico e alterações no DNA.

Os diluentes mais utilizados para sêmen equino são derivados de leite em pó desnatado, glicose e tampão bicarbonato, adicionados de diferentes tipos de constituintes, como antibióticos, açúcares, gema de ovo, aminoácidos, e outros componentes com propriedades favoráveis ao sêmen.

Os crioprotetores são substâncias capazes de promover a sobrevivência dos espermatozoides durante o congelamento e descongelamento, e tem ação estabilizadora durante as mudanças de estado líquido para o sólido (E vice-versa no descongelamento), assim como para reduzir o ponto de solidificação da solução no congelamento, promovendo maior tempo para desidratação da célula e reduzindo a formação de cristais de gelo intracelulares. A desidratação é um evento desejável, pois ela reduz a formação de grandes cristais de gelo intracelular; no entanto, a desidratação severa promove desnaturação de macromoléculas e encolhimento excessivo da célula, provocando um colapso da membrana. Há crioprotetores penetrantes e não penentrantes, ou seja, com a capacidade de atravessar ou não a membrana plasmática do espermatozoide, e estas substâncias, embora utilizadas para melhorar a viabilidade do sêmen, podem apresentar efeitos tóxicos e diminuir as taxas de fertilidade, quando em concentrações elevadas

O sêmen deve ser resfriado da temperatura corpórea à temperatura ambiente (37°C até 20°C). O estresse inicial ocorre devido à queda de temperatura de 20°C até 5°C no momento onde ocorre a fase de transição da membrana plasmática do estado liquido para a fase de gel.

O congelamento deve ser realizado com equilíbrio. O processo deve ser suficientemente lento para permitir a saída de água de dentro da célula por osmose de forma a se evitar a formação de cristais de gelo intracelular, e suficientemente rápido para minimizar os danos pela exposição prolongada.

As amostras podem ser congeladas em palhetas de 0,5mL, em macrotubos de 4,0/5,0mL ou em mini palhetas de 0,25mL. Após a diluição, é então realizado o envasamento do sêmen, dividindo-o em várias doses, para que sejam armazenados no botijão de nitrogênio líquido. Após o material ser envasado, é colocado em canecas que ficam mergulhadas em nitrogênio líquido a temperaturas baixíssimas no botijão de armazenamento de sêmen. O material fica estocado para uso posterior de acordo com a necessidade.

Embora a fase de congelamento seja considerada como a que mais causa danos na célula espermática, as alterações nos espermatozoides são passiveis de acontecer em qualquer etapa do processo de criopreservação desde a colheita até o momento da inseminação artificial.

Cada etapa exige conhecimento e capacitação do profissional, além de extremo cuidado e atenção afim de evitar danos que afetem a capacidade fértil dos espermatozoides. Apesar de ainda não apresentar índices tão satisfatórios quanto aos encontrados no uso de sêmen refrigerado, a técnica é uma boa alternativa, devido principalmente à viabilização na criação de bancos de material genético de animais de destaque ou alto valor agregado, além da facilidade de transporte. No entanto, devem ser levados em consideração fatores como particularidades do garanhão, do ejaculado, das diferentes raças, assim como dos diluentes, crioprotetores e protocolos utilizados, tornando a técnica mais efetiva.

Texto por:

Estefania Andrea Acosta, 8º período de Medicina Veterinária Centro Universitário UDC

Natieli Andrade da Silva, Mestranda em Ciência Animal – UVV – ES

Paola Juchem, 7º semestre, UFRGS, Porto Alegre, RS

Edição e Revisão:

Deivisson Aguiar, Médico Veterinário.

Raoni Rohr, Médico Veterinário.

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